A atribuição do Nobel da Paz de 2026 à jurista sul-africana Navi Pillay foi recebida com aplausos por Igrejas cristãs, organizações de defesa dos direitos humanos e representantes da comunidade muçulmana, mas também com fortes críticas de organizações judaicas e de Israel. No centro das reações está a longa defesa do direito internacional por Pillay e, em particular, o seu trabalho sobre a situação nos territórios palestinianos.
O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) – que representa mais de 580 milhões de cristãos em todo o mundo – considerou Pillay uma “merecida” vencedora do prémio atribuído na sexta-feira, 9 de outubro, tendo em conta a sua “coragem, convicções e extraordinário trabalho na defesa do direito e dos princípios internacionais”.
O secretário-geral do CMI, Jerry Pillay, – que, apesar do apelido comum, não tem relação familiar com a laureada – destacou sobretudo a forma como Navi Pillay nunca hesitou em associar a paz “ao apelo à justiça e à verdade”. O CMI, acrescentou, teve oportunidade de trabalhar com a jurista e apreciou “o valor que atribuía ao papel da religião na resposta aos desafios globais”.
Peter Prove, diretor da Comissão das Igrejas para os Assuntos Internacionais do CMI, sublinhou por seu lado que a trajetória da antiga alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos mostra que “a paz exige justiça”. Segundo o responsável, Pillay tem sido uma das principais figuras mundiais na defesa dos direitos humanos e do direito humanitário internacional, promovendo precisamente aquilo que a ética social ecuménica procura defender: o direito internacional como proteção das pessoas, comunidades e nações vulneráveis “contra a violência e o abuso dos poderosos”.
Também a Conferência das Igrejas de Toda a África (AACC, na sigla inglesa) se juntou este domingo às felicitações, considerando a atribuição do Nobel motivo de celebração não apenas para a África do Sul, mas para todo o continente africano. “Isto é obra do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos”, afirmou a organização ecuménica, que reúne mais de 200 igrejas, conselhos cristãos nacionais e outras instituições de 43 países africanos.
Para a AACC, o reconhecimento de Pillay confirma “a importância de enfrentar a injustiça com coragem e esperança”, independentemente dos obstáculos, oposição ou sacrifícios. A organização recordou os quase 60 anos de carreira da jurista, desde a defesa de ativistas contra o apartheid até à presidência do Tribunal Penal Internacional para o Ruanda e ao cargo de alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
“A justiça internacional é a pedra angular de qualquer paz duradoura”
Entre as organizações de direitos humanos, a Amnistia Internacional viu igualmente na escolha de Pillay uma mensagem que ultrapassa a própria laureada.
A secretária-geral da organização, Agnès Callamard, destacou o compromisso da jurista com o direito internacional, a sua independência e aquilo que classificou como uma “bússola moral”, considerando-a uma das figuras mais respeitadas dos direitos humanos da atualidade. Mas chamou sobretudo a atenção para o momento em que o prémio é atribuído, quando “Estados poderosos” procuram enfraquecer o Estado de direito e as normas internacionais.
“Este prémio é o reconhecimento de que a justiça internacional é a pedra angular de qualquer paz duradoura no mundo”, afirmou Callamard. A responsável relacionou diretamente a distinção com os ataques e sanções que têm atingido o Tribunal Penal Internacional (TPI), defendendo que o Nobel deve recordar aos líderes mundiais o papel dos tribunais internacionais na procura de “justiça, verdade e reparação” perante crimes cometidos da Palestina ao Sudão, de Myanmar à Ucrânia.
Uma reação semelhante teve a Human Rights Watch, com Philippe Bolopion, diretor executivo da organização, a recordar que, ao longo da sua carreira como ativista, investigadora de direitos humanos e juíza internacional, Pillay procurou justiça para alguns dos crimes mais graves cometidos no mundo.
“Numa altura em que a justiça internacional está sob ameaça por parte de líderes que rejeitam os direitos humanos, ela tem sido uma firme defensora do Estado de direito internacional e de um trabalho imparcial em matéria de direitos humanos”, afirmou Bolopion.
Também a Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH) destacou que a escolha envia “uma mensagem forte” num momento em que a justiça internacional e os seus defensores são alvo de crescentes ataques. O presidente da organização, Alexis Deswaef, sublinhou que Pillay dedicou a carreira “à defesa dos direitos humanos, ao combate à impunidade e ao fortalecimento da justiça internacional”.
“Este prémio é um poderoso lembrete de que a justiça é essencial à paz e de que aqueles que a defendem devem ser protegidos”, acrescentou.
Da comunidade muçulmana, elogios com Gaza em primeiro plano
O Conselho para as Relações Americano-Islâmicas (CAIR, na sigla inglesa), a maior organização muçulmana de direitos civis e advocacy dos Estados Unidos, felicitou igualmente Navi Pillay, considerando “merecida” a sua distinção.
A organização destacou as diferentes etapas da carreira da jurista – desde a liderança do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos ao Tribunal Penal Internacional e ao Tribunal para o Ruanda –, mas deu particular destaque ao seu trabalho à frente da Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre os Territórios Palestinianos Ocupados.
Foi essa comissão, presidida por Pillay até 2025, que concluiu, num relatório divulgado em setembro do ano passado, que Israel tinha cometido genocídio contra os palestinianos na Faixa de Gaza – conclusão essa rejeitada pelo Governo israelita. O trabalho de Pillay neste processo esteve agora no centro de duras críticas de Israel à decisão do Comité Nobel.
Organizações judaicas contestam a escolha
A atribuição do Nobel a Pillay foi também duramente contestada por organizações judaicas internacionais, que acusam a jurista de parcialidade em relação a Israel e consideram que algumas das suas posições contribuíram para alimentar o antissemitismo.
O Congresso Judaico Mundial, que representa comunidades judaicas em cerca de 100 países, classificou a escolha como “uma afronta chocante àqueles que se opõem ao antissemitismo e defendem a vida judaica em todo o mundo”. O presidente da organização, Ronald S. Lauder, rejeitou como “infundadas” e “politicamente motivadas” as acusações de genocídio contra Israel feitas pela comissão presidida por Pillay e considerou que a decisão do Comité Nobel “desacredita o próprio Prémio da Paz”.
Também a B’nai B’rith International afirmou estar “chocada e consternada” com a escolha, acusando Pillay de representar aquilo que considera ser uma parcialidade sistemática das Nações Unidas contra Israel. Os dirigentes da organização, Robert Spitzer e Evan R. Bernstein, classificaram a decisão como “injustificada”, “ofensiva” e prejudicial, sustentando que esta contribui para o sentimento de isolamento das comunidades judaicas num contexto de crescimento do antissemitismo.
Às críticas juntou-se ainda a UN Watch, organização não-governamental com sede em Genebra que acompanha a atuação das Nações Unidas e que tem sido particularmente crítica do Conselho de Direitos Humanos da ONU. O seu diretor executivo, Hillel Neuer, acusou Pillay de falta de imparcialidade em relação a Israel e recordou a polémica de 2022 em torno de declarações de Miloon Kothari, então membro da comissão presidida pela jurista, que falou num “lobby judeu” e viria depois a pedir desculpa pela expressão utilizada.
Entre o reconhecimento do seu percurso na defesa dos direitos humanos e as acusações de parcialidade na abordagem ao conflito israelo-palestiniano, a atribuição do Nobel a Navi Pillay coloca assim no centro do debate uma questão que atravessa toda a sua carreira: o papel da justiça internacional na construção da paz.










