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O camião 150 com ajuda humanitária para a Ucrânia antes da sua partida. Foto Vatican Media
O 150º camião enviado pela Santa Sé, no fim de Abril deste ano, com ajuda humanitária para a Ucrânia: Leão pede trégua para a saída de civis e evitar a fome. Foto Vatican Media

Alimentação e Ucrânia

Papa Leão quer comida em vez de armas e pede trégua ao telefone com Putin

| 16/10/2026

O Papa Leão XIV pediu, numa mensagem à FAO a propósito do Dia Mundial da Alimentação assinalada nesta sexta-feira, 16, que os estados dêem “provas de audácia moral”, estabelecendo “uma nova ordem alimentar global”, redirecionando os recursos investidos na indústria bélica para a investigação agrícola sustentável e a regeneração dos solos degradados”. Ainda neste dia, num telefonema com o Presidente russo, Vladimir Putin, o Papa pediu que haja uma trégua em Oleshky (sul da Ucrânia, perto da Crimeia), de modo a permitir a entrada de ajuda alimentar e médica, bem como a evacuação voluntária e segura da população civil.

A fome já atinge a região de Kherson, onde se situa Oleshky. A crise motivou mesmo, no final de Setembro, um apelo do Conselho Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas. Dirigindo-se directamente ao Papa e à comunidade internacional, o CUIOR pediu que a catástrofe humanitária fosse evitada, impedindo a morte por inanição de uma boa parte da população.

Nesta sexta-feira, em duas frentes, Leão fez diligências para que a crise não se agudize. De manhã, dirigiu a mensagem director da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o chinês Qu Dongyu. À tarde, foi anunciada a conversa ao telefone com Putin – mesmo no hospital, Leão não desiste dos seus apelos a um mundo desarmado.

Durante a conversa, diz o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, citado pelo Vatican News, o Papa “expressou profunda preocupação com a grave situação humanitária na cidade de Oleshky, na região de Kherson, pedindo uma trégua para permitir a chegada de ajuda alimentar e médica e a evacuação voluntária e segura da população civil”. Leão XIV, informa ainda o comunicado, “reafirmou, por fim, o compromisso da Santa Sé em prol do diálogo e da paz”.

A mensagem ao director-geral da FAO repete o que o Papa tinha dito no domingo, instantes antes de anunciar a cirurgia a que seria submetido na terça-feira: os cereais e os alimentos não podem ser uma arma de guerra [ver 7MARGENS]. Concretizaria esse apelo na conversa com Putin, para a situação específica de Kherson.

 

Iniciativa do Papa

Pietro Parolin espera que Putin “coloque em prática o que o Papa lhe pediu”. Foto Vatican Media.

Falando com Putin, o Papa reafirmou “o compromisso da Santa Sé em favor do diálogo e da paz”, cm o objectivo de pôr fim à guerra iniciada com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de Fevereiro de 2022. Putin argumentou na altura com a necessidade de proteger as minorias separatistas pró-russas no Leste do país, e rejeitou até agora qualquer cessar-fogo prolongado.

De acordo ainda com o portal de notícias da Santa Sé, o Presidente russo expressou ao Papa “os seus sinceros votos de boa saúde e de rápida recuperação após a cirurgia a que foi submetido recentemente”. Salientou ainda “a importância da cooperação entre a Rússia e o Vaticano na promoção de valores espirituais e morais unificadores, bem como na protecção dos cristãos e dos locais sagrados cristãos em várias regiões do mundo”.

Putin agradeceu também ao Papa Leão pela “disponibilidade em contribuir para a resolução do conflito e pelos esforços que está a envidar no âmbito humanitário”. O comunicado de Moscovo, acrescenta o Vatican News, culpa a Ucrânia pela “complexa situação humanitária” em Kherson, acusações que Kyiv rejeita.

A Rússia apoia ainda a “intenção do Vaticano de contribuir para a criação de condições que garantam a segurança da população da cidade e a organização de abastecimentos vitais”, tendo sido “acordada a cooperação nesta matéria”, diz o comunicado sobre esta segunda conversa entre ambos (a primeira foi em 4 de Junho de 2025, menos de um mês depois da eleição de Robert Prevost como Papa Leão).

De acordo com o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, foi Leão “quem tomou a iniciativa de defender a causa dessa cidade sitiada, na qual se encontram cerca de dois mil civis que precisam de vias humanitárias de saída”. O responsável da diplomacia do Vaticano espera, agora, que Putin “concorde em colocar em prática o que o Papa lhe pediu”.

 

Pão e água são direitos, não mercadorias

Gota de água

A água não pode ser “uma mercadoria disputada”, diz Leão XIV. Foto © Herbert Goetsch / Unsplash

Na sua mensagem sobre o Dia Mundial da Alimentação, Leão repete, por outras palavras, as palavras do Ângelus de domingo passado: “O pão não deve ser nem um instrumento de pressão geopolítica nem um bem financeiro volátil”, escreveu ele. “Nem deve jamais ser utilizado como arma de guerra. De facto, impedir que o pão chegue a uma pessoa ou destruir os meios com que é produzido constitui uma terrível ofensa à dignidade humana. O pão é precioso porque sustenta a vida que Deus nos concedeu.”

Ao mesmo tempo, critica: “os mercados de cereais são negociados na bolsa, enquanto as sementes que germinam no solo acabam nas mãos de monopólios que sufocam a agricultura de pequena escala”. Mas o Papa Leão coloca na mensagem, que pode ser lida na página da Santa Sé em espanhol, outra questão mais larga: “O mito de que o crescimento pode ser infinito, apesar dos recursos limitados, atingiu o seu ponto de ruptura. Hoje, a inovação exige a adoção de um sentido de responsabilidade intergeracional que vá além dos orçamentos anuais.”

Há “um imperativo ético urgente de redireccionar os recursos investidos na indústria bélica para a investigação agrícola sustentável e a regeneração dos solos degradados”, acrescenta o Papa. E “numa época de maior avanço tecnológico do que nunca, é intolerável que o pão seja considerado um privilégio e a água uma mercadoria disputada”.

O recurso à tecnologia, privando a terra da fertilidade natural, ou a expulsão dos agricultores por motivos financeiros “não pode ser encarado como progresso, mas sim como uma forma sofisticada de destruição”. Tão pouco a a fome pode “ser considerada uma anomalia estatística, pois é causada principalmente pela falta de vontade política e de caridade colectiva”, estando em causa “um direito humano básico” – e garanti-lo “é uma obrigação de justiça que vincula tanto os Estados individuais como a comunidade internacional”.

 

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