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autores - António Madaleno NOVA

[Entre Margens]

Se Deus nunca ordenou, quem ordenou? – Testemunhas de Jeová, sangue e consciência

| 18/10/2026

 

Durante oito décadas, aceitar os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma ou plaquetas foi apresentado às Testemunhas de Jeová como violação da lei de Deus. Desde 18 de setembro de 2026, passou a ser uma “questão de consciência”. O texto bíblico é o mesmo. Mudou a leitura dos homens que reclamam a autoridade de o interpretar.

 

A 18 de setembro de 2026, o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová anunciou que aceitar os quatro componentes principais do sangue de outra pessoa passa a ser uma decisão pessoal. O anúncio, feito na Atualização do Corpo Governante n.º 6, de 2026, foi noticiado pelo Observador a 22 de setembro. Continua proibida apenas a transfusão de sangue total.

Eu fui Testemunha de Jeová durante cerca de quarenta anos: primeiro servi na congregação como servo ministerial e depois, durante uma década, como ancião. Trazia na carteira, desde o batismo, em 1989, o cartão em que recusava o sangue mesmo que a minha vida dependesse disso, e ensinei esta doutrina com convicção absoluta. Foi precisamente ela que me levou à rutura com a organização. Por isso, escrevo com conhecimento de causa.

O que estava em causa

Até meados dos anos 40, as publicações da Torre de Vigia [entidade jurídica das Testemunhas de Jeová] condenavam o consumo de sangue como alimento, mas não o seu uso médico. A proibição das transfusões surgiu no pós-guerra, aplicando à medicina os textos sobre não comer sangue (Génesis 9:4; Levítico 17:14; Atos 15:29), com um argumento literal: a transfusão alimentaria o corpo pelas veias. Sabemos que a fisiologia nunca sustentou esta equivalência e este argumento acabou por desaparecer. Mas foi mudado para não ser correto um cristão sustentar a vida por meio de transfusões de sangue.

No início dos anos 60, aceitar uma transfusão passou a ser motivo de expulsão da congregação e subsequente ostracismo. Em 2004, a revista oficial das Testemunhas de Jeová, A Sentinela, reafirmava que aceitar sangue total ou qualquer dos quatro componentes “viola a lei de Deus” (15 de junho de 2004, pp. 29-30).

Pelo caminho, a regra foi sendo mudada gradualmente. A partir de 2000, as frações passaram a ser matéria de consciência. Por exemplo, o quadro do livro ‘Mantenha-se no Amor de Deus’ (p. 218) proibia o glóbulo vermelho, mas permitia a hemoglobina, que constitui cerca de 97% do seu peso seco. Proibia o plasma, mas permitia todas as proteínas que dele se extraem.

Quadro reproduzido do livro Mantenha-se no Amor de Deus, p. 218. Testemunhas Jeová sangue

Quadro reproduzido do livro Mantenha-se no Amor de Deus, p. 218.

O padrão não é exclusivo do sangue. Nos anos 60, a organização condenou os transplantes de órgãos, que chegou a comparar a canibalismo, mas em 1980 declarou-os matéria de consciência. Uma restrição é elevada a lei divina e, anos depois, reclassificada como opção pessoal, sem que se reconheça o erro. Entretanto, pessoas tomaram decisões baseadas nas interpretações da época.

Um argumento que se volta contra si próprio

A mudança teve um ensaio em março. A 20 de março de 2026, Gerrit Lösch, membro do Corpo Governante, anunciou que cada Testemunha podia decidir se o seu próprio sangue podia ser recolhido, armazenado e reinfundido. O raciocínio usado foi que os cristãos não estão sob a Lei mosaica, logo o preceito de derramar o sangue no chão, inutilizando-o, deixou de vincular e a Bíblia “não comenta” o uso médico do sangue do próprio.

Mas se o silêncio das Escrituras basta para libertar a consciência quanto ao sangue do próprio, não se percebe porque não se aplicaria ao de outrem: os textos invocados não distinguem um do outro. Seis meses depois, foi exatamente o que aconteceu.

O que não se explicou é porque a lógica pára no sangue total. Agora, após a última mudança, uma Testemunha de Jeová pode receber todos os componentes, em sacos separados, mas não o sangue total num único saco. A linha que resta não decorre de qualquer distinção bíblica. É uma fronteira simbólica, que permite à organização afirmar que o essencial não mudou. Mas sabe-se que o sangue total tem regressado à prática clínica no trauma grave e na hemorragia maciça, sobretudo em países com menos recursos, onde precisamente a organização religiosa mais cresce. A proibição sobrevivente incide, por isso, onde a vida se decide em questão de minutos.

O que os textos dizem e o que não dizem

Os textos que sustentaram oitenta anos de proibição tratam de comer sangue, num contexto alimentar e sacrificial. Génesis 9:4 surge quando Deus concede a Noé os animais como alimento, e é seguido pela afirmação do valor da vida humana (Génesis 9:5-6). O sangue é símbolo da vida que pertence a Deus. Usá-lo para justificar a morte de um ser humano inverte o sentido da passagem.

A própria Lei mosaica mostra que o preceito não era absoluto. Quem comesse um animal encontrado morto, não sangrado, ficava impuro até à tarde (Levítico 17:15): era impureza ritual, não uma sentença de morte. E quando os soldados de Saul comeram carne com sangue (1 Samuel 14:32-35), a falta foi corrigida com um altar e não com execuções.

Em Atos 15, o primeiro concílio cristão [em Jerusalém] trata da convivência entre cristãos judeus e gentios. Tiago justifica as abstenções lembrando que “Moisés” era lido nas sinagogas (Atos 15:21): era preciso não escandalizar os crentes de origem judaica. Anos mais tarde, Paulo trata a carne sacrificada aos ídolos, uma das quatro abstenções do concílio, como uma questão de consciência (1 Coríntios 8 e 10).

Ícone bizantino representando o Concílio de Jerusalém, realizado por volta do ano 49 d.C.: na assembleia, os apóstolos e os anciãos debateram a controvérsia sobre a obrigatoriedade do cumprimento da Lei mosaica pelos cristãos de origem gentia, chegando a uma decisão conjunta.

Ícone bizantino representando o Concílio de Jerusalém, realizado por volta do ano 49 d.C.: na assembleia, os apóstolos e os anciãos debateram a controvérsia sobre a obrigatoriedade do cumprimento da Lei mosaica pelos cristãos de origem gentia, chegando a uma decisão conjunta.

Há por isso uma diferença que nenhuma exegese apaga: uma transfusão não é uma refeição e o dador não morre. O sangue doado não é sinal de uma vida tirada, mas de uma vida partilhada.

A vida acima do preceito

Jesus enfrentou um sistema religioso que punha a regra acima da pessoa. Lembrou que “o sábado veio à existência por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27, TNM) e perguntou se era lícito, ao sábado, salvar uma vida ou deixá-la perder-se (Marcos 3:4).

A tradição judaica, de onde provém a proibição de comer sangue, desenvolveu o princípio dopikuach nefesh: salvar uma vida sobrepõe-se a quase todos os mandamentos. Os rabinos liam Levítico 18:5 assim: o homem viverá pelos preceitos, não morrerá por eles. É paradoxal que uma leitura cristã tenha sido mais rígida do que o próprio judaísmo.

Jesus advertiu ainda contra quem ensina “como doutrinas mandamentos de homens” (Marcos 7:7) e ata fardos pesados aos ombros dos outros (Mateus 23:4). Não há descrição mais exata de uma regra que se dizia divina e que, segundo a própria liderança, a Bíblia nunca formulou. Eles próprios admitem que “foram além do que está escrito”.

“Nova luz” ou mudança de doutrina?

No vocabulário das Testemunhas, estas reversões chamam-se “nova luz”. A doutrina anterior nunca esteve errada, apenas menos clara; a nova nunca corrige, apenas aperfeiçoa. O psiquiatra Robert Jay Lifton descreveu este mecanismo como “ciência sagrada” e “doutrina acima da pessoa”. A socióloga Janja Lalich mostrou como sistemas fechados transformam cada mudança numa prova da sua legitimidade, e não do seu falhanço.

No Jubileu de 2000, João Paulo II pediu perdão por pecados cometidos por filhos da Igreja ao longo da história. O gesto assume aqui algo elementar: quem ensina em nome de Deus e se engana, tem de o dizer. Não se “clarifica” o que durante oito décadas foi ensinado como lei divina e punido com a exclusão. Isso é uma mudança de doutrina. E as mudanças de doutrina têm autores.

As contas por prestar

A 22 de maio de 1994, a Despertai! publicou na capa rostos de jovens sob o título “Jovens que colocaram Deus em primeiro lugar”. Vários destes tinham morrido por recusarem transfusões. Morreram por recusar aquilo que, desde setembro, uma Testemunha pode aceitar sem consequência.

Capa da Despertai!, de 22 de maio de 1994 Testemunhas Jeová sangue

Capa da Despertai!, de 22 de maio de 1994

Não existem números fiáveis sobre quantos morreram. Circulam estimativas na ordem dos milhares, mas nenhuma verificada de forma independente. A organização nunca publicou dados. Mas há mortes documentadas, muitas de crianças e adolescentes.

Há também os que sobreviveram e foram punidos. O manual confidencial dos anciãos, Pastoreiem o Rebanho de Deus (setembro de 2025), prevê que quem “aceita sangue e não se arrepende” se considera dissociado, anunciando-se à congregação que “não é mais Testemunha de Jeová” (capítulo 7, parágrafos 35-37). Na vida real, isto significou ostracismo para quem aceitou, por exemplo, plaquetas numa quimioterapia. A organização não disse se esses casos serão revistos, nem pediu perdão. O porta-voz da organização, Paul Gillies lembrou que o sangue continua sagrado. Mas nem uma palavra foi dirigida aos que foram afetados por esta doutrina ao longo de décadas.

O que muda fora da comunidade

Para os médicos, não se pode presumir que um paciente Testemunha de Jeová recusa componentes, nem que os aceita. A conversa deve ser individual, confidencial e, se possível, sem familiares ou membros da congregação. Seis meses não desfazem oitenta anos de condicionamento.

Para os tribunais e as comissões de proteção de crianças e jovens, os conflitos envolvendo menores, quase sempre sobre glóbulos vermelhos e plaquetas, deixam de ter fundamento doutrinal obrigatório.

E, por justiça, reconheça-se que a recusa das Testemunhas impulsionou a medicina sem sangue, de que hoje beneficiam todos os doentes. Mas esse legado foi construído, em parte, sobre vidas que não tinham de se perder: homens, mulheres, crianças e bebés que acabaram por ser cobaias involuntárias.

“Eu não lhes havia ordenado”

No artigo de opinião “Sangue no Altar”, terminei com as palavras de Deus sobre os sacrifícios de crianças a Moloque: “Eu não lhes havia ordenado fazer isso” (Jeremias 32:35). Hoje, o Corpo Governante diz, na prática, o mesmo: a Bíblia não comenta. Não ordenou. Nunca ordenou.

Cada vida que esta mudança vier a salvar é motivo de alegria. Mas a alegria não dispensa a pergunta que qualquer comunidade de fé deve fazer a quem fala em nome de Deus: Se Deus nunca ordenou isto, quem ordenou? E quem responde pelos que obedeceram?

 

António Madaleno é ex-ancião das Testemunhas de Jeová e especialista em seitas destrutivas e grupos de alto controlo. É autor de Apóstata! Porque Abandonei as Testemunhas de Jeová (2020) e O Universo das Seitas Destrutivas (2024), ambos publicados pela Penguin Random House Portugal.

 

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