As bombas matam, mas a indiferença,
a mais destrutiva de todas as armas,
condena-nos à desumanidade.
Dar a outra face aparece no Sermão da Montanha nos evangelhos segundo Mateus (5;38) e Lucas (6;29). Contudo, há uma diferença fundamental entre as duas versões e que merece ser sublinhada. Enquanto em Mateus a frase é “A quem te bater na face direita, vira-lhe também a outra”, em Lucas não há distinção entre as faces: “A quem te bater numa das faces, oferece-lhe também a outra.” O que Mateus escreve diz-nos muito mais sobre a atitude de Jesus e tem um significado bem mais profundo. Poderemos afirmar que estamos perante um dos princípios essenciais da não-violência.
No mundo antigo, bater na face direita era um gesto de humilhação habitualmente executado por senhores contra os seus servos ou pessoas consideradas inferiores. Oferecer a face esquerda significava que o agredido se colocava no mesmo plano do agressor. Ou seja, em vez de se submeter, colocava-se na posição de responsabilizar o agressor desafiando o seu poder.

Carl Bloch (1834–1890): Sermão da montanha. Museu de História Nacional no Castelo de Frederiksborg, Dinamarca. Wikimedia Commons
A radicalidade de Jesus reside, por um lado, no facto de romper com a lei de Talião “olho por olho, dente por dente” e, por outro, de responder à violência com o enfrentar o outro de forma pacífica responsabilizando-o pelo seu acto, rompendo com uma relação desigual que é a do poder e afirmando uma relação de igualdade entre agressor e agredido. Recusar o mal e responder ao mal, não com vingança, mas com bondade, misericórdia e procura da justiça. Ou seja, quebrar a lógica do agressor.
A lei de Talião assentava no princípio, ainda hoje utilizado, de que a resposta não deveria ser superior à ofensa inicial. Era a forma de limitar a vingança. Veja-se, por exemplo, a resposta desproporcionada de Israel face ao ataque de 7 de outubro de 2023. Jesus foi mais longe: pretendeu extinguir a violência através do amor e do perdão sem que tal significasse uma atitude de passividade ou submissão, mas obrigando o agressor a tratar o agredido como igual.
A não-violência não significa uma atitude passiva ou submissa, mas a exigência de responsabilização do agressor e o esforço individual e coletivo para encontrar instrumentos e vias que demonstrem não só a responsabilidade do agressor, mas que evidenciem atitudes de rejeição do ódio e de retaliação agressiva. Quebrar o ciclo da violência significa que a dignidade do ser humano nunca se deve submeter à vontade do agressor.
Se nos recordarmos de Mahatma Gandhi e Martin Luther King foi esta forma de estar que eles adotaram para afirmarem os direitos civis dos respetivos movimentos. Além de combaterem o que entendiam estar mal e ser injusto, a sua luta foi também a de afirmarem caminhos alternativos de não-violência.
Procurar o inimigo, ou os laços que nos unem?
Emmanuel Levinas, o filósofo francês de origem lituana (1906–1995), colocou a frase “dar a outra face” no centro do debate da questão ética da alteridade.
Ao introduzir o conceito do “rosto do outro”, Levinas dá um outro passo: a responsabilidade ética de cada um e de cada uma diante do outro. Dar a outra face significa assumir o compromisso pela paz e pelo bem-estar do outro, mesmo quando esse outro falha moralmente connosco. Trata-se, por um lado, da primazia da ética sobre o egoísmo; e, ao responsabilizarmo-nos pelo bem-estar do outro, significa que estamos a assumir uma responsabilidade coletiva: o bem comum. A responsabilidade individual transforma-se, assim, em responsabilidade coletiva.
Isso significa que, apesar do acto de violência do agressor, ele continua a ser o “outro” pelo qual eu sou responsável, do ponto de vista ético. Para Levinas, a nossa responsabilidade implica que nos coloquemos no lugar do outro, expondo as nossas próprias fragilidades e despindo-nos de todos os nossos preconceitos e medos, cuja exposição implica um apelo à consciência do outro.
É verdade que a questão da não-violência em contexto concreto de guerra, como o que atualmente vivemos, não é fácil e gera conflitos individuais e coletivos entre o direito à defesa do agredido (o que significa também ataque ao agressor) e a nossa consciência individual e coletiva.
Importa, contudo, perceber que a construção de uma identidade coletiva não se alicerça em encontrar um inimigo, mas na afirmação dos laços que unem a comunidade, sejam eles culturais, sociais ou a forma de cuidarem do bem comum. Quando a identidade coletiva tem nos seus alicerces a identificação de um inimigo terá sempre necessidade de alimentar essa tensão guerreira para que as instituições de poder não se desmoronem.
Construir uma cultura da paz exige a edificação de comunidades que se afirmem pelo que de melhor possuem e não por encontrar formas identitárias externas que, mais cedo ou mais tarde, acabam por fazer implodir as próprias comunidades.
Por outro lado, há que desmontar alguns conceitos que alimentam a criação de inimigos externos. A dissuasão, que assenta em relações de poder que alimentam uma corrida crescente ao armamento, é um desses conceitos. Assenta numa política de medo de quem se sente inferior. Levando este conceito ao limite, nenhum país pode ser impedido de possuir as armas que os outros, com mais poder, lhe querem proibir. Numa política de equilíbrio todos deveriam (e não terão esse direito?!) estar nas mesmas condições. Por isso, este conceito é extremamente perigoso.
Num mundo que é obrigado a procurar constantemente equilíbrios de convivência pacífica, as instituições internacionais, como as Nações Unidas, terão de se adaptar às mudanças e evoluir para novas formas de vida em sociedades diferenciadas e multiculturais. E essa responsabilidade também nos cabe a nós enquanto coletivo.
A título de exemplo, um aspeto que para mim é incompreensível, em sociedades que se pretendem de diálogo, assentes no direito internacional, é o facto de no Conselho de Segurança da ONU, os países com direito de veto o possam utilizar em causa própria. Além de ser profundamente injusto não se coaduna com princípios que a instituição diz – e eu acredito – defender.
Termino com uma frase do poeta e pensador brasileiro Helisson Souza Cantalice que não apenas pode ser um desafio para cada um e cada uma de nós, mas sobretudo uma exigência: “Abandonar a busca pela paz é o mesmo que render-se ao caos.”










