Quarenta anos depois do histórico encontro de líderes religiosos convocado por João Paulo II em Assis, o Papa Leão XIV apelou esta terça-feira, 27, à recuperação do “espírito de Assis” num mundo onde se assiste a uma “preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional”. “Temos de reconstruir a paz em todo o lado, não preparar outras guerras!”, afirmou, sublinhando que “não existe nenhuma guerra santa: só a paz é santa!”
Leão XIV deveria ter participado presencialmente na cerimónia conclusiva do encontro internacional “Paz desarmada e desarmante”, promovido pela Comunidade de Santo Egídio entre domingo e esta terça-feira, mas os médicos desaconselharam, por precaução, a viagem de helicóptero até Assis, devido ao pouco tempo passado desde a cirurgia a que foi submetido para remoção de um adenocarcinoma pulmonar. O Vaticano assegurou no entanto que uma radiografia de controlo ao tórax confirmou a “excelente evolução” do pós-operatório.
Impossibilitado de viajar, o Papa dirigiu-se por vídeo aos patriarcas, líderes religiosos e restantes participantes reunidos na cidade de São Francisco. “Gostaria de estar convosco, junto ao túmulo de São Francisco, neste importante aniversário, para ver os vossos rostos e para darmos, juntos, um belo testemunho de que viver como irmãos e irmãs é já possível!”, afirmou, segundo o texto divulgado pela Santa Sé.
O encontro assinalou precisamente os 40 anos do Dia de Oração pela Paz de 27 de outubro de 1986, quando João Paulo II reuniu em Assis representantes de diferentes religiões para rezarem pela paz. Daquela iniciativa nasceu aquilo a que o Papa polaco chamaria o “espírito de Assis”, que a Comunidade de Santo Egídio tem procurado manter vivo através de encontros internacionais de oração e diálogo.
Leão XIV comparou o mundo de então, ainda marcado pela Guerra Fria, com o atual. Depois de 1989, recordou, houve quem acreditasse que a globalização conduziria a uma paz estável. Mas essa esperança não se concretizou.
Recorrendo à sua encíclica Magnifica humanitas, o Papa lembrou que se confiou “quase cegamente aos mercados a capacidade de produzir bem-estar, democracia e estabilidade”, quando a globalização acabou também por suscitar “reações fundamentalistas, identitárias e nacionalistas”.
É neste contexto, sustentou, que se assiste atualmente a uma “preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional”. Perante esta realidade, o “espírito de Assis” significa, para Leão XIV, a “rejeição da legitimação religiosa da guerra”, mas também “espírito de mediação e diálogo, experiência contemplativa e ação criativa por um futuro de paz”.
“A paz deve voltar a ser o ideal comum dos povos, a estrela que guia todas as nossas decisões, o critério que desmascara a injustiça, o horizonte comum de todas as nações”, defendeu.
E fez questão de reiterar: “A guerra nunca pode fazer-se em nome de Deus!” Para os crentes, acrescentou, “fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião”.
A “força humilde” da oração
Mas o Papa não apresentou apenas uma condenação da guerra. Aos representantes das diferentes religiões reunidos em Assis pediu que continuem a usar aquilo que definiu como a “força humilde dos fiéis”: a oração.
“A oração pode parecer fraca perante as potências do mundo, mas é a força humilde dos fiéis”, afirmou, pedindo a Deus que toque “o coração daqueles que desejam a guerra e o terrorismo”.
O caminho de Assis, acrescentou, é por isso “em primeiro lugar, via de oração”, mas também de diálogo. “O mundo precisa de diálogo”, insistiu Leão XIV, atribuindo aos líderes religiosos a responsabilidade de promover, entre os seus fiéis e nas sociedades, um ambiente em que “a linguagem da arrogância seja substituída por aquela da paz, da negociação e da compreensão”.
A referência a São Francisco ganhou particular significado no encontro deste ano, quando se assinalam os 800 anos da sua morte. Leão XIV terminou precisamente pedindo que Deus faça dos crentes “instrumentos desarmados da sua paz”.
Religiões chamadas a “desarmar os corações”

Alguns dos muitos líderes religiosos que participaram no encontro em Assis, ao longo dos últimos três dias. Foto © Vatican Media
A responsabilidade das religiões perante a multiplicação dos conflitos atravessou os três dias do encontro de Assis, que reuniu representantes das grandes tradições religiosas, responsáveis políticos, académicos e membros da sociedade civil.
Na abertura do encontro, o cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana, defendeu que, num mundo hoje marcado por uma “guerra difusa”, as religiões têm a responsabilidade de mostrar que a paz continua a ser possível: podem “indicar caminhos de paz”, “desarmar os corações” e prepará-los para o encontro.
Também Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, alertou para o desaparecimento da paz enquanto ideia capaz de inspirar a política internacional. Se em 1986, apesar da Guerra Fria e do medo de um conflito nuclear, a paz permanecia um horizonte político, hoje, afirmou, a guerra tende a ser novamente encarada como “companheira natural da história humana”.
Perante essa realidade, os crentes podem estar “desarmados”, mas isso não significa que estejam condenados à impotência, sustentou Riccardi: o diálogo pode desarmar uma linguagem belicosa e ameaçadora e a oração procurar a paz que os seres humanos não conseguem alcançar sozinhos.
O Presidente italiano, Sergio Mattarella, associou-se também ao encontro através de uma mensagem, na qual classificou o encontro de 1986 como um “evento profético” e advertiu que, perante guerras, injustiças, pobreza e opressão, “a inércia é injustificável”.
As intervenções fizeram eco do apelo que Leão XIV deixara já no domingo, no Angelus, antes do início do encontro: “Que o Senhor inspire escolhas de diálogo e de paz!”.
Quatro décadas depois de João Paulo II ter reunido pela primeira vez em Assis representantes das religiões do mundo, Leão XIV quis deixar claro que aquele gesto não pertence apenas à memória. Num tempo em que a guerra volta a ser apresentada como instrumento legítimo para resolver conflitos, o “espírito de Assis”, afirmou, continua a propor o caminho contrário: oração, diálogo, mediação e a recusa de usar Deus para justificar a violência.










