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Belém, cidade velha. Foto Benedek
Uma rua de Belém vazia. A ausência de peregrinos tem um impacto direto sobre quem depende das visitas para trabalhar. Foto © Benedek

Presidente esteve no local

“Rezem, apoiem e visitem”: Fundação AIS alerta para o risco de desaparecimento da presença cristã na Terra Santa

| 02/11/2026

A quebra do turismo de peregrinação à Terra Santa está a deixar muitas famílias cristãs sem meios de subsistência, enquanto os obstáculos à circulação e a expansão dos colonatos agravam as dificuldades quotidianas na Cisjordânia. Depois de uma visita à região, Regina Lynch, presidente executiva da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), apela à solidariedade dos cristãos de todo o mundo: “Os cristãos que lá vivem precisam de saber que não foram esquecidos”.

A ausência de peregrinos, que permite atualmente visitar alguns dos principais lugares santos sem as habituais multidões, tem um impacto direto sobre quem depende das visitas para trabalhar. Guias turísticos, comerciantes e artesãos estão entre os mais afetados. “O que é agradável para o visitante pode ser devastador para as pessoas que lá vivem”, observa Regina Lynch.

“Encontrámos mulheres cujos maridos já tinham vendido tudo o que podiam vender e, mesmo assim, ainda não tinham o suficiente para sustentar as suas famílias”, conta a presidente executiva da Fundação AIS, numa entrevista divulgada pela organização após o seu regresso, na última semana. A situação, acrescenta, demonstra “o quão desesperada” se tornou a vida de muitas destas famílias.

A viagem teve como objetivo manifestar solidariedade para com a Igreja local, conhecer melhor as dificuldades enfrentadas pelas comunidades e avaliar o trabalho desenvolvido pela Fundação AIS com o apoio dos seus benfeitores. Foi também uma peregrinação aos lugares por onde Cristo caminhou, há dois mil anos, na sequência de um apelo do abade Nicodemus Schnabel, da Abadia da Dormição, que incentivou os cristãos a regressarem à Terra Santa precisamente porque o número de visitantes tinha diminuído drasticamente.

 

Apoiar a subsistência e fortalecer a fé

A delegação da Fundação AIS com o patriarca latino de Jerusalém. Foto ACN

A delegação da Fundação AIS com o patriarca latino de Jerusalém. Foto © ACN

Durante a visita, Regina Lynch encontrou-se com o patriarca latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, que agradeceu o apoio da Fundação AIS, sublinhando que este não se limita à dimensão financeira. “As orações e a preocupação dos nossos benfeitores são igualmente importantes”, transmitiu o responsável católico.

O patriarca destacou também a necessidade de fortalecer a fé dos cristãos locais, frequentemente descritos como as “pedras vivas” da Terra Santa. Para Regina Lynch, ajudar estas comunidades a encontrar emprego e a permanecer nos lugares onde vivem é fundamental, mas importa igualmente garantir que compreendem a sua responsabilidade na preservação e transmissão da fé cristã “na terra onde Cristo morreu e ressuscitou”.

Entre os projetos apoiados pela Fundação AIS, a responsável destaca a gráfica católica de Belém, que produz materiais religiosos e educativos para o Patriarcado Latino, escolas, congregações religiosas e outras instituições. A organização contribuiu para a modernização dos equipamentos, permitindo reforçar a capacidade de produção de materiais cristãos, num contexto em que, segundo a entrevistada, se torna cada vez mais difícil encontrar gráficas disponíveis para os publicar.

Outro dos projetos visitados foi o seminário de Beit Jala, que acolhe seminaristas menores e maiores e tem recebido apoio da AIS para melhorar as suas instalações.

A responsável encontrou também três leigos que participavam num programa de formação espiritual promovido pelo Patriarcado Latino. Muitos dos participantes perderam os empregos ligados ao turismo e deixaram de poder trabalhar como guias, devido à redução do número de peregrinos. A formação permite-lhes aprofundar os conhecimentos sobre a fé cristã e preparar-se para, quando regressarem à atividade profissional, apresentarem os lugares sagrados numa perspetiva cristã.

Um dos participantes contou que passou a conseguir identificar passagens bíblicas específicas quando explica os locais visitados pelos peregrinos. Outra partilhou que, antes da crise, a sua família ia ocasionalmente à igreja ao domingo, mas que, desde então, todos se tinham tornado “muito mais fortes na sua fé”.

Regina Lynch vê nestes testemunhos um sinal de esperança em circunstâncias particularmente difíceis: “Mesmo no meio do sofrimento e da incerteza, as pessoas podem crescer na sua fé e descobrir um sentido renovado de comunidade”, observa.

 

Postos de controlo dificultam a vida quotidiana

Comerciante em Belém Foto ACN

Guias turísticos, comerciantes e artesãos estão entre os mais afetados pela quebra do turismo na Terra Santa. Foto © ACN

A visita incluiu também comunidades cristãs da Cisjordânia, entre as quais Taybeh, onde a responsável encontrou um ambiente tranquilo, mas ouviu relatos das dificuldades crescentes enfrentadas pela população, num contexto de expansão dos colonatos e de tensões e episódios de violência, e com os postos de controlo a tornarem imprevisíveis as deslocações e condicionam o acesso à educação e ao trabalho.

Um professor contou à delegação da AIS que alguns alunos saem de casa às seis da manhã e só regressam às seis da tarde, devido ao tempo necessário para atravessar vários postos de controlo e chegar ao local onde prosseguem os estudos.

Também os agricultores manifestaram preocupação com as dificuldades em aceder às suas terras e recolher as colheitas. Regina Lynch refere relatos de oliveiras queimadas, uma situação especialmente grave para famílias que dependem desta cultura. A substituição das árvores destruídas representa uma perda prolongada de rendimento, uma vez que são necessários cerca de dez anos até que as novas oliveiras comecem a produzir frutos.

Questionada sobre o risco de os cristãos deixarem de conseguir permanecer na Terra Santa, a presidente executiva da AIS não hesita na resposta: “Seria um desastre total”. A responsável recorda que os cristãos de todo o mundo estão ligados às raízes da sua fé e considera que o desaparecimento da presença cristã da região onde o cristianismo nasceu seria “devastador”.

Por isso, desde que regressou, tem procurado incentivar as pessoas a visitar a Terra Santa. Para além da dimensão espiritual da peregrinação, considera que viajar até à região é também uma forma concreta de apoiar economicamente as comunidades locais e de lhes mostrar que não estão sozinhas.

Apesar de reconhecer que algumas pessoas possam considerar a viagem demasiado arriscada, Regina Lynch afirma que não se sentiu em perigo durante a visita. E a mensagem que deixa aos cristãos de todo o mundo resume-se em três palavras: “Rezem, apoiem e visitem”.

 

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