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Gerada por IA © Mendo Castro Henriques

[Arquipélago Jerusalém]

A democracia não morre. Está a votar

Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.

 

Não foi uma má temporada para a democracia. Em poucos meses, o arrogante Viktor Orbán perdeu o poder na Hungria, os brasileiros recusaram a presidência à corrupta família Bolsonaro, os bravos estudantes sérvios derrotaram o partido de Aleksandar Vučić e o bom senso dos israelitas retirou a maioria parlamentar ao oportunista Benjamin Netanyahu. Finalmente, a 3 de Novembro, o que resta de americanos livres (mais de 50% não votam) deram uma derrota expressiva indireta a Donald Trump. Cinco países, cinco eleições, cinco histórias diferentes. E uma lição comum: os eleitores têm sempre uma palavra a dizer.

Na Hungria, Orbán governava há dezasseis anos. Em abril, o partido Tisza, de Péter Magyar, conquistou uma maioria de dois terços no Parlamento. No Brasil, Lula foi reeleito em 25 de outubro com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma vitória por cerca de 4,4 milhões de votos, mas reveladora de um país dividido. Na Sérvia, o movimento estudantil contra a corrupção venceu as eleições parlamentares de 25 de outubro. A Lista dos Estudantes conquistou 140 dos 250 deputados, contra 103 da lista de Vučić.

Em Israel, Netanyahu perdeu a maioria e o antigo general e chefe de estado maior Gadi Eisenkot recebeu o apoio de 67 dos 120 deputados, incluindo os árabes. Como já escrevi aqui no substack a 4 de novembro de 2025 e referindo o general Eisenkot, só um general laureado pode impor a paz democrática em Israel.

Nos Estados Unidos, os democratas reconquistaram as duas câmaras do Congresso e várias governações estaduais. Trump continuará Presidente, mas uma carta fora do baralho, e terá de enfrentar um Parlamento capaz de bloquear propostas, investigar decisões e exigir responsabilidades e criar impeachments. O seu acatamento silencioso é muito estranho.

Seria tentador reunir estes resultados numa narrativa simples: os bons venceram os maus, a democracia derrotou os seus inimigos e podemos dormir descansados. Infelizmente, a política não funciona assim. Nunca dormimos descansados todos estes países continuam divididos e nenhum resultado eleitoral elimina as razões que levaram milhões a apoiar os direitistas derrotados. E permanecem os pesadelos da Rússia, Irão e China, nações que deixaram de construir a liberdade, por muito PIB que ostentem,

É precisamente aqui que começa a parte mais interessante.

Durante as campanhas eleitorais, todos falaram de liberdade, segurança, prosperidade e futuro. Utilizaram as mesmas palavras, mas com significados muito diferentes. Quando alguém fala de liberdade, pode pensar em pagar menos impostos, em escolher a sua religião ou em não ser perseguido pelas suas opiniões. Outra pessoa pode pensar no direito à saúde, na igualdade das mulheres ou na protecção contra a violência. Nenhuma destas preocupações esgota o significado da liberdade.

Todos vivemos em mundos de significação que se intersectam, mas nunca coincidem inteiramente. Ouvimos aquilo que nos parece mais relevante. Quem receia perder o emprego escuta uma promessa económica de maneira diferente de quem receia perder direitos. Quem vive uma guerra entende a palavra segurança de maneira diferente de quem nunca ouviu uma explosão.

As redes sociais, sem filtros e com bots, agravaram esta dificuldade. Oferecem-nos versões da realidade que confirmam as nossas convicções. Os direitistas recebem notícias que demonstram a sua grandeza. Se prezamos a liberdade, recebemos outras que aparentemente a confirmam. Cada grupo acaba convencido de que conhece a verdade inteira e de que os outros são ignorantes, fanáticos ou mal-intencionados.

Votar, eleições. Foto Darksite

“As eleições têm uma virtude de criar relevância política que nenhum algoritmo consegue substituir. Contam pessoas em vez de contar aplausos. Um milhão de mensagens furiosas não vale sequer uma pessoa.” Foto © Darksite

As eleições têm uma virtude de criar relevância política que nenhum algoritmo consegue substituir. Contam pessoas em vez de contar aplausos. Um milhão de mensagens furiosas não vale sequer uma pessoa. A urna não pergunta ao eleitor se pertence à nossa tribo ou se usa as palavras com o significado que lhes atribuímos.

Há duas maneiras de conversar. Podemos procurar apenas a consonância, o prazer de ouvir repetidas as nossas certezas. Ou podemos procurar a ressonância, deixando que uma voz diferente nos faça descobrir alguma coisa que não esperávamos. Não precisamos de concordar. Precisamos de admitir que os outros têm experiências que desconhecemos e preocupações que merecem ser escutadas.

Claro que há limites. A existência de interpretações diferentes não significa que todas as afirmações sejam verdadeiras. Uma mentira continua a ser mentira, mesmo quando milhões de pessoas acreditam nela. Sem factos partilhados, instituições independentes e regras respeitadas, a diversidade transforma-se numa luta em que cada grupo tenta impor a sua realidade.

A democracia não elimina as paixões, as rivalidades ou os interesses particulares. Obriga-os a conviver num espaço comum. A sua grande invenção não consiste em escolher governantes infalíveis. Consiste em permitir que os governados os substituam sem recorrer à violência.

Orbán já saiu. Flávio perdeu. Vučić foi derrotado. Netanyahu não governará. Trump vai esr uma carta fora do baralho. E isso mostra a diferença preciosa entre uma sociedade livre e uma sociedade submetida, com ainda são Rússia, China e Irão.

A democracia não faz milagres. Não transforma adversários em amigos nem garante que todos pensem da mesma maneira. Faz qualquer coisa muito mais modesta mas relevante: permite-nos continuar a viver juntos, mesmo quando discordamos profundamente.

E, quando chega a hora, dá-nos um boletim de voto para o recordar.

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

 O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

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