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Onde estás, comunidade cristã?

| 11/01/2020

Onde estás, comunidade cristã?

by | 11 Jan 20 | Entre Margens, Últimas

Talvez não devesse contar esta história. Mas aceito as palavras de Jesus, que se me calar até as pedras falarão. E de facto de uma experiência sem importância, tocamos no fundamental da Igreja, o ser Comunidade. Já lá vão algumas semanas fui contactado para “fazer um funeral”, com uma solicitação de não receber estipêndio pois tratava-se de uma família muito pobre. Para mim estava bem, nunca peço o pagamento de estipêndio, dado que estas “coisas” não se pagam e, também, diga-se, não vivo disso.

No funeral, numa capela de um cemitério, estava eu, o companheiro da senhora falecida e o armador, que fez o favor de responder na liturgia. Tentei saber quem era a senhora, de 63 anos, falecida com uma cirrose, mas a morada existente no armador, era a que lhe tinham dado, nem ele sabia bem se era, ou não. Gosto muito de pessoalizar e falar na homilia sobre as pessoas falecidas e a sua família, mas aqui sabia que o seu companheiro, presente, se chamava senhor Manuel. A meio da cerimónia apareceu o funcionário da câmara que se juntou a nós os três.

Vim a saber também duas coisas: para que a cerimónia não fosse à chuva, foram pagos 33 euros à câmara, já com IVA, e que existia uma filha, mas estava no carro funerário e era deficiente. O senhor Manuel era o companheiro, porque a senhora se tinha divorciado. De cor negra lá estava muito grato por alguém ter efetuado uma cerimónia religiosa. E no fim pegou no único ramo de rosas brancas – certamente trazido pela funerária -, com que havia de cobrir a campa de sua companheira. Agora com um problema mais complicado: quem cuidaria da filha deficiente?

Comecei a pensar se era eu – diácono -, que devia presidir à cerimónia, ou se deveria ser o bispo diocesano. Porque se tratava de uma pessoa muito importante que falecera, uma Filha de Deus, que nem morada tinha. Era uma Filha de Deus que encarnava o próprio Senhor Jesus no seu corpo corrompido pela dor e sofrimento. Teremos pessoa mais importante que esta?

Mas o senhor bispo não sabia, nem a Comunidade Cristã local o sabia, como haveriam de estar presentes e abraçar o senhor Manuel, que, certamente, nem jantar teria.

Não sabiam, mas deviam saber. Saber que Jesus nasceu numa manjedoura, saber que ali estava Jesus sem companhia. Estava Jesus a acompanhar o senhor Manuel e o funeral da sua companheira.

Onde estás comunidade cristã? Nem quando acabaste de viver o Natal sabes onde encontrar o menino de Belém?

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

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