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Humanidade e lei

| 30/05/2021

 “Construir humanidade é um caminho longo e uma luta interior permanente entre o nosso eu e o lugar que reservo ao outro na construção dessa minha individualidade.” Foto: Pessoa sem-abrigo no Cais do Sodré, Lisboa, 2017. © Catarina Soares Barbosa.

 

Ao reler algumas partes do livro O Sopro da Vida Interior , da monja beneditina americana Joan Chittister (Paulinas Editora, 2012), vi-me confrontado com a minha humanidade. Escreve a autora: “Não estamos interessados em proteger o inocente; queremos matar os assassinos. Queremos os dissidentes silenciados. Queremos os não-conformistas excomungados. Queremos os rebeldes reduzidos a nada. Queremos lei e ordem.” E continua: “Estamos tão concentrados na religião que esquecemos a retidão. (…) Não temos paciência para advogados astutos que fazem apelos das sentenças de pessoas que os nossos jornais já condenaram. (…) Duvidamos daqueles que se dão com pessoas de quem suspeitamos.” E vai mais longe, interpelando diretamente os que nos dizemos cristãos e confrontando-nos com a verdade que dizemos acreditar: “Na verdade, que me importa um Evangelho enigmaticamente cheio do inaceitável, do suspeito, do desonesto, e de gente fraca – os leprosos, os samaritanos e as mulheres?”

Vivemos e criámos sociedades muito mais preocupadas em condenar os assassinos do que cuidar dos inocentes. Pergunto-me se o meu foco está na condenação do criminoso ou no cuidado com as vítimas e, sobretudo, com os inocentes? A pergunta, supostamente inocente, parece-me essencial no momento de tomarmos as nossas opções, sobretudo quando elas implicam o outro. Penso até que deveríamos tentar introduzi-la na forma como refletimos algumas das questões que nos preocupam sobre a vida em sociedade. Aparentemente simples na sua formulação, ela requer de nós uma exigência que está muito para além da falsa dualidade que parece conter. As eventuais respostas à pergunta exigem que questionemos a humanidade que em nós habita e o modo como ela é ou não elemento de transformação. E isto independentemente da crença, referências culturais ou outras.

A pergunta não nos remete para a desculpabilização ou desresponsabilização de quem prevarica (peca), mas antes para o que privilegiamos na nossa relação com o outro e com o coletivo e que lugar reservamos para o indesejado, para o não-querido, para quem nos atrapalha. Ou ainda: estará a nossa urgência na condenação ou no cuidar? É que uma coisa não implica a outra: condenar não significa cuidar ou sarar. Dito de modo mais provocador: estamos mais próximos da lei ou da humanidade que nos habita? A lei sossega-nos, dá-nos segurança, prima pela ordem; a humanidade desassossega-nos, apoquenta-nos, interroga-nos, desinstala-nos, cria-nos inseguranças e, sobretudo, confronta-nos com as nossas fragilidades e com os nossos medos. Confronta-nos, afinal, com aquilo que realmente somos quando retirado o escudo atrás do qual nos protegemos.

Ao criarmos uma certa ideia de bem-estar e ao apropriarmo-nos dela como únicos herdeiros, excluindo todos os que possam atentar contra a posse desse bem-estar a que julgamos ter direito, a tendência é criarmos sociedades clean, limpas de tudo o que aos olhos da lei possa causar fealdade ou atrapalhar os planos de embelezamento e aos nossos olhos seja atentado à procura de uma felicidade que também se pretende seja limpa, sem escolhos que a impeçam. E o que não podemos limpar, varremos para longe dos olhos.

Acantonamos os que nos deram vida e nos guiaram nos primeiros passos, varremos o sofrimento em nome da liberdade individual, criámos lugares para os que não têm lugar na cidade, fugimos da morte em nome de uma vida que gostaríamos eternamente fútil, reservamos aos estrangeiros o lugar dos outrora escravos, apagamos da memória os nomes e substituímo-los por números e, em nome da ciência e do desenvolvimento e de uma posse sem pertença, condenamo-nos não cuidando do espaço que nos foi legado.

Na verdade, deixámos que a lei, as regras, o correto, se sobrepusessem à nossa humanidade, ao cuidar. O mesmo será dizer que em nome da defesa de uma sociedade com determinada ideia de bem-estar, que privilegia a posse em detrimento da partilha, fomos abdicando da nossa humanidade. É verdade que a lei regula a nossa vivência em sociedade e sem ela dificilmente nos poderíamos organizar enquanto comunidade. Mas se nos acomodarmos ao estipulado, ao decretado, ao socialmente correto, acabamos por expulsar todos aqueles e aquelas que ainda não encontraram o seu lugar ou que foram empurrados para as franjas abandonadas da sociedade que construímos, os não abarcáveis. Citando, uma vez mais, a irmã Joan: “…lutar pela essência da religião que, a acreditarmos no que Jesus ensina, é claramente a aceitação sem reserva, o abraço sem medida e sem limites daquilo que não é abarcável.” Talvez por isso a humanidade nos confronte com o que somos e torne visíveis as nossas fragilidades, mas também as nossas incoerências. Construir humanidade é um caminho longo e uma luta interior permanente entre o nosso eu e o lugar que cada um de nós reserva ao outro na construção dessa minha individualidade.

Não deixa de ser curiosa, a título de exemplo, a nossa reflexão sobre algumas das questões ambientais em que possa estar em jogo o que pensamos ser um atentado ao nosso bem-estar, mesmo se diferente do que era há uma década. Defendemos, e não sem razão, o nosso espaço, mas não nos perguntamos sobre as implicações da nossa atitude na vida de outros. O que importa é que seja longe, sem nos interrogarmos sobre o lixo que nós próprios produzimos em nome do nosso bem-estar e sobre o mal que a nossa visão a outros pode causar, mesmo se num qualquer local do globo. É caso para dizer que pouco nos importa o lixo que produzimos desde que não o coloquem à nossa porta. Apesar da globalização, perdemos o sentido da universalidade. E a Humanidade, ao contrário da lei, é sempre universal.

 

José Centeio é membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social) e da equipa editorial do 7MARGENS

 

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