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Guilherme d'Oliveira Martins

Sínodo em demanda de mudanças

“No fundo, é este Deus das surpresas que devemos estar disponíveis para acolher. Este caminho sinodal deve, pois, ser sério e efetivo.”

 

A primeira palavra que desejo exprimir hoje é de homenagem à memória do padre Vítor Feytor Pinto, exemplo de atenção, cuidado e entrega, quer no diálogo com a sociedade plural e complexa em que vivemos, quer no domínio, cada vez mais premente e atual, da pastoral da saúde na qual deixou um testemunho riquíssimo que terá de ser lembrado. E o tema da humanização da saúde é crucial nos tempos que correm e que aí vêm.

E falo-vos da reflexão feita pelo Papa Francisco, como bispo de Roma, no início do Sínodo, cuja primeira etapa agora começa, de outubro de 2021 a abril de 2022, respeitando às dioceses individuais. Devemos lembrar que o “tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado de eclesiologia, muito menos uma moda, um slogan ou novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade exprime a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão”.

Importa, assim, compreender este método, como uma verdadeira partilha de vontades e de responsabilidades, o que nos leva aos Atos dos Apóstolos, como história de um caminho que parte de Jerusalém, atravessa a Samaria e a Judeia, prosseguindo nas regiões da Síria e da Ásia Menor, depois, na Grécia, e por fim chega a Roma. Esse percurso narra uma história em que caminham juntas a Palavra de Deus e as pessoas que voltam a atenção e a fé no sentido da Luz das Gentes. A Palavra de Deus caminha connosco e exprime uma inquietação interior contínua. Pedro e Paulo são “discípulos do Espírito Santo, que os faz descobrir a geografia da salvação divina, abrindo portas e janelas, derrubando muros, rompendo correntes, libertando fronteiras”. Então, é necessário partir, mudar de caminho, superar as situações que nos prendem e nos limitam os movimentos.

E assim Paulo e Barnabé são mandados a Jerusalém pelos apóstolos e pelos anciãos. Não foi fácil. Diante desse problema, as posições pareciam inconciliáveis, e ambos discutiram longamente. Seria possível reconhecer a liberdade da ação de Deus em judeus e gentios? Seria legítimo impedi-lO de chegar ao coração das pessoas, fosse qual fosse a condição de origem, moral ou religiosa? E o que desbloqueou a situação foi a evidência de que Deus conhece os corações, concedendo assim o Espírito Santo também aos pagãos, como a todos. E o Papa Francisco lembra Gustav Mahler, a defender que a fidelidade à tradição não consistiria em adorar as cinzas, mas em conservar o fogo. Por isso pergunta: antes de começarmos o caminho sinodal, a que estaremos mais inclinados: a cuidar das cinzas da Igreja, do grupo restrito de cada qual, ou a conservar o fogo? Infelizmente, há mais tendência para adorar as coisas que nos encerram e não as que nos fazem viver. “Sou de Pedro, sou de Paulo, sou desta associação, tu és da outra, sou padre, sou bispo, ou sentimo-nos chamados a guardar o fogo do Espírito?”

E nesta reflexão, o Papa Francisco recorda um episódio caricatural relatado no livro dos Números, que conta a história de uma jumenta que se torna profetisa de Deus. Os judeus estão prestes a concluir a longa viagem que os levará à terra prometida. Mas a sua passagem assusta o rei Balac de Moabe, que pede ao mago Balaão para impedir essa passagem, esperando evitar uma guerra. Então o mago, fiel ao seu modo de agir, pergunta a Deus o que fazer. E Deus diz-lhe para não condescender com o rei, que, porém, insiste, e então Balaão cede e monta na jumenta para cumprir a ordem recebida. Mas a jumenta muda de direção porque vê um anjo com a espada desembainhada que representa a negativa de Deus. Inconformado, Balaão castiga a pobre burra, puxa-a e espanca-a, sem conseguir que ela volte ao caminho. Até que a jumenta começa a falar, iniciando um diálogo que torna evidente para o mago qual a vontade da Providência Divina. E assim a pobre jumenta segue o seu caminho e transforma uma missão vocacionada para a maldição e para a morte, em missão para a bênção e para vida.

No fundo, é este Deus das surpresas que devemos estar disponíveis para acolher. Este caminho sinodal deve, pois, ser sério e efetivo. É certo que parece haver ceticismo relativamente aos resultados deste procedimento novo, todavia, a melhor maneira que poderemos encontrar para obtermos os melhores resultados desta ação necessária será empenharmo-nos em seguir um caminho de Verdade e Vida. Deveremos tirar as lições dos erros cometidos e da indiferença praticada. Eis que a oportunidade tem de ser aproveitada, pois o que nos entristece e até constrange deve-se a termos tantas vezes preferido a indiferença à coragem de buscarmos as boas surpresas.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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