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Comentário 7M

O drama de uma Igreja em que as pessoas deixam de acreditar

 

Muitas das conclusões a tirar do longo relatório da investigação aos casos de abusos sexuais na diocese de Munique publicado nesta quinta-feira, 20, pelos advogados contratados são comuns a outros relatórios e investigações levadas a cabo em diversas dioceses alemãs (Colónia, Münster, Aachen, Trier…). Os juristas, não sendo teólogos, colocam o dedo na ferida ao denunciar uma prática que, para proteger a instituição e o seu clero, tentava abafar o grito e o pedido de ajuda das vítimas, enquanto os predadores eram protegidos e muitas vezes ainda lhes era concedida uma nova oportunidade. 

O relatório desta investigação, a partir desta quinta-feira, disponível na internet, abrange quase 1900 páginas, em dois volumes (investigação e documentação) e é, com certeza, um dos mais completos até agora realizados. 

O que é particularmente “escaldante” nesta investigação à diocese de Munique é que ela teve como bispo, no período abrangido pela investigação, alguém que o mundo hoje conhece pelo nome de Papa Bento XVI. O então arcebispo Ratzinger foi bispo de Munique entre 1977-1981 e é nesse período que se situa um dos casos mais flagrantes desta investigação: para um padre da Diocese de Essen (Norte da Alemanha) é solicitada à Diocese de Munique uma residência. Esse padre já tinha sido denunciado como pedófilo. Sobre ele pendia uma condenação que entre outras coisas o obrigava a fazer uma terapia. A diocese de Munique aceita-o, e não só lhe facilita uma residência como lhe oferece um lugar de trabalho numa paróquia dos arredores da cidade de Munique, onde continuou a praticar actos de pedofilia. 

No âmbito da investigação, o grupo de advogados solicitou uma tomada de posição a Bento XVI. Ele afirmou que a decisão de aceitar e colocar numa nova paróquia esse padre não foi do seu conhecimento, uma vez que ele não teria estado presente nessa reunião da Cúria diocesana. Na apresentação do relatório, os investigadores referiram que Bento XVI está a faltar à verdade: a acta dessa reunião da Cúria comprova a sua presença. Entre outras coisas, esse documento refere que na reunião, Ratzinger pôs ao corrente os responsáveis da diocese sobre a intenção de João Paulo II retirar a missio canonica a Hans Küng, o teólogo que o Vaticano viria a proibir de ensinar teologia… Essa informação na altura ainda não era pública; isto é, só Ratzinger mesmo a podia fornecer.

Os juristas encarregados da investigação denunciam, entre muitas outras anomalias de carácter jurídico ou pastoral, também o facto de as paróquias envolvidas não terem sido postas ao corrente das razões que levavam a diocese a colocar ou a retirar um padre pedófilo. Ou seja, as hierarquias diocesanas não respeitavam as comunidades como sujeitos da pastoral… 

Os meios de comunicação social alemães, ao longo da tarde, não param de assinalar o que esta nova investigação comporta em termos de perda de credibilidade: para a instituição “Igreja Católica” – sondagens revelam que só 12% dos alemães continuam a confiar na Igreja Católica! –, com os seus bispos e cardeais (e todos os cardeais da Diocese de Munique são inculpados) e também uma irremediável perda de credibilidade para a pessoa de Bento XVI, o papa alemão…

 

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