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Jesus e a sua ética

| 15/06/2022

“Sermão da Montanha” – Kalroly Ferenczy, representação de uma cena pastoral, 1896. Galeria Nacional de Budapeste.

“Sermão da Montanha” – Kalroly Ferenczy, representação de uma cena pastoral, 1896. Galeria Nacional de Budapeste.

 

Discorrer acerca da ética de Jesus e dos seus ensinamentos, não é tarefa fácil. Das muitas leituras que temos hoje cerca dele, do seu pensamento e ensino, esquece-se por vezes o seu lado humano, a sua ética que permeava toda a existência humana, especialmente as relações que ele tinha com os que o circundavam. Como sabemos, Jesus, sendo judeu, é muitas vezes descrito e tratado nos evangelhos como um mestre, um rabi, que tinha discípulos e muitos seguidores. Do que se sabe acerca das relações entre ambos, pelo menos entre o primeiro século a.C. e os dois primeiros da era cristã, requeria-se dos discípulos uma posição de confiança, humildade e serviço para com os seus mestres. O objetivo do discípulo era seguir, emular, copiar, duplicar e replicar o seu rabino, enquanto o servia. Daí que a ética dos discípulos era fortemente condicionada pelos ensinos do rabi. Mas Jesus era muito mais que um simples rabino. Ao longo dos tempos, o seu exemplo de vida e ética têm vindo a transformar profundamente a vida de muitos dos seus discípulos.   

Ao longo dos evangelhos podemos observar vários dos ensinamentos de Jesus, mas grande parte da sua ética está condensada no famoso Sermão da Montanha nos capítulos 5 a 7 do Evangelho segundo Mateus. Contrariamente a muitos dos ensinamentos rabínicos do seu tempo, Jesus não se concentra numa ética de obrigatoriedade do cumprimento da lei e das diversas tradições rabínicas. O seu ensino visava antes a felicidade dos seus discípulos e ouvintes, “Tudo quanto quiserdes que vos façam as pessoas, assim fazei vós a elas. Pois esta é a lei e os profetas.” (Mateus 7:12). Nesse sentido propôs algo impensável e quase impraticável aos seus conterrâneos, principalmente aos que eram oprimidos e explorados, tanto pelos romanos, como pelas autoridades religiosas: “Ouvistes que foi dito: olho por olho e dente por dente. Mas eu vos digo que não vos oponhais a quem vos faz mal. [A] quem te bater na face direita, vira-lhe também a outra. E a quem quiser pôr-te em tribunal para te tirar a tua capa, cede-lhe também a túnica. E quem te forçar a andar uma milha, vai com ele duas. 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas àquele que te quer pedir emprestado.” (Mateus 5:38-41).

Também a ética de Jesus inverte todos os valores da sociedade vigente. Não são os ricos, os poderosos e as elites religiosas os que são os preferidos por Deus. Pelo, contrário, são os que estão nas margens da sociedade, os que pouco ou nada têm, os escravos, os estropiados, os cegos, os leprosos, as adúlteras e prostitutas, os publicanos, muitos destes igualmente marcados e amaldiçoados como impuros pelos religiosos. Estes são de facto os primeiros escolhidos por Deus (Marcos 10:31). Longe de pretender estabelecer quaisquer códigos morais que condenassem estes pequeninos do Reino, Jesus, escandalosamente, recupera-lhes a dignidade humana. 

Encontramos muitas vezes Jesus à mesa com os pecadores e os cobradores de impostos. A mesa, nas culturas orientais, era espaço de comunhão íntima, de partilha de vida, de alegria no partir do pão e no beber do vinho. Mas a mesa, no entender do Rabi Nazareno, era também espaço de revelação do próprio Reino de Deus, de partilha da Shalom (paz) e espaço para a declaração do perdão. E depois esta ética de Jesus desmonta muito do que se possa pensar acerca da justiça de Deus, principalmente aquela que os religiosos entendiam como retributiva e que punia os infratores. Revelando a compaixão, misericórdia e amor de Deus a esses pecadores, Jesus rejeita o legalismo e todo o sistema de regras da religião instituída: “Mas ide e aprendei o que é isto: quero misericórdia e não sacrifício” (Mateus 9:13).

Porque se torna tão difícil nos dias de hoje seguir a ética, por vezes tão radical, de Jesus? Porque nos é tão difícil perdoar e amar ao próximo como a nós mesmos? Porque temos dificuldade em aceitar e acolher à mesa aqueles que consideramos pecadores e impuros? Ser cristão não é somente adotar e seguir uma religião fundamentada num conjunto de asserções teológicas, credos, doutrinas ou dogmas, mas essencialmente uma “Imitatio Iesu”, ou seja, ser pertença do grupo de discípulos e discípulas de Jesus que, em comunhão uns com os outros, adotam a Sua ética, que o imitam e dão continuidade ao projeto do seu Reino, tanto na Terra como no Céu. Talvez o mundo de hoje fosse totalmente diferente se aqueles que se dizem discípulos de Jesus, seguissem a sua ética até às últimas consequências. Afinal, o discipulado tem um custo, essencialmente o do amor daquele que, de tanto extravagante, mudou a vida de muitos que o cercavam e seguiam.

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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