
Jean-Luc Godard em Berkeley, em 1968. Foto © Gary Stevens/Wikimedia Commons
O meu gosto pelo cinema não faz de mim um cinéfilo. Quero dizer, não me permite conhecer e ter aquela visão abrangente e global sobre a história do cinema, nem sequer de um autor. Apenas de um ou outro conheço melhor o conjunto da sua filmografia. Não é o caso sobre Godard, apesar de ter visto, faz muitos anos, alguns dos seus filmes “difíceis”, digamos assim.
Talvez pudesse começar por esta citação de João Bénard da Costa, para mim, aquele que melhor escrevia sobre cinema: “Com os bofes de fora, salve-se quem puder. E isso é a vida e isso é a paixão e isso é o cinema e isso é Godard… O cinema do desespero, da luta contra o vazio, da interrogação sem limites.” (Escritos sobre Cinema)§
Está feito, e bem, o retrato daquele que é considerado um dos mais importantes realizadores de cinema, não apenas pelos filmes que nos deixou, mas por aquilo que trouxe ao cinema, que obrigou o cinema a ser com ele e depois dele. Para ele, o cinema nunca foi de entretenimento, mas sempre uma forma de olhar e interrogar a vida. Basta ler o seu ódio de estimação à televisão (e a algum cinema americano), nestas palavras de uma entrevista ao Expresso (15 de Junho de 1991), a propósito do seu filme Nova Vaga: “Tenho mais a sensação que a televisão ocupa o meu país, que é o país do cinema, fazendo-o desaparecer. A televisão é como a ocupação alemã em França… Há qualquer coisa na cultura americana que o mundo, em geral, aceita. Por exemplo, o facto de os jovens usarem ‘jeans’: há uma imensa variedade de calças, as ‘jeans’ são óptimas, mas só ‘jeans’? Isso não. Porquê apenas as ‘jeans’? Passa a ser um uniforme e eu não gosto de uniformes, da uniformidade. Não gosto do exército porque são uniformes.”
Por mim, confesso que me interpelou sempre aquela loucura e irreverência dos filmes que vi dele. Sempre gostei do cinema que não nos deixa indiferentes, mas nos obriga a pensar, do cinema que nos interroga. Penso, por exemplo, no muito polémico Eu Vos Saúdo, Maria, que tanta reação (desnecessária, digo eu) provocou aquando da sua exibição. Volto à referida entrevista, em que Godard confessa a sua formação religiosa e fala expressamente deste filme:
“Qual é, então, esse sagrado?
Uma coisa banal, um sentimento que vem da civilização grega: o ecrã de cinema é maior do que nós.
Foi esse sentimento que o conduziu a filmar Eu Vos Saúdo, Maria (1983)?
Talvez. Em relação a Eu Vos Saúdo, Maria, as coisas são um pouco confusas. Eu próprio sinto-me muito confuso e, de um modo geral, o cinema que fiz até agora põe coisas no ecrã, do mesmo modo que se diz ‘pôr na mesa’: tenta clarificar as coisas, mostrar o jogo.

Imagem do filme Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard: “Esta história toda a gente a conhece. E o cinema deve poder perguntar: mas, afinal, como é que ela teve esta criança?” Foto: Direitos reservados.
Mas Eu Vos Saúdo Maria é um filme que trabalha directamente com elementos religiosos.
Porque é uma boa história, um bom argumento… Aliás, a ideia nem vinha de mim, está na introdução de um livro de Françoise Dolto que conta a história de José e Maria. Foi quando disse para mim: esta história, ao menos, toda a gente a conhece. E o cinema deve poder perguntar: mas, afinal, como é que ela teve esta criança? Talvez eu não seja suficientemente sincero para o filmar, mas a verdade é que ela teve a criança. A jogada é esta: e se ela a tivesse tido assim?”
Figura tutelar da Nouvelle Vague francesa – aquele movimento que mudou o modo de se ver e fazer cinema –, realizador genial, criativo, completamente livre e audaz, Godard não deixou ninguém indiferente nem o mundo ficou igual. E isto, para mim, é o que de melhor posso dizer dele. Ele não deixou que a vida lhe passasse ao lado e ensinou-nos a não deixar que ela nos passasse ao lado.
Bénard da Costa, outra vez: “Não me atrevo a jurar que Godard é o maior cineasta vivo. Mas é certamente um dos maiores de todos os tempos e um dos que mais decisivamente fez do cinema o que é e dos que o amam o que são.”
Também aprendi a gostar de cinema com ele; também aprendi a pensar com ele; também aprendi a sonhar com ele. Pierrot, le fou será sempre inesquecível.
Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).










