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Balbina Mendes, Ordem e Caos, t. mista s_telas e mdf Order and Chaos, mixed media on canvas and MDF 202x314cm, 2019

Pintora Balbina Mendes ao 7M

“Os senhores da guerra já deixaram cair a máscara”

| 01/10/2022

Balbina Mendes, Ordem e Caos

Balbina Mendes, Ordem e Caos, técnica mista s/ telas e mdf, 202x314cm, 2019.

 

“Os senhores da guerra da atualidade já deixaram cair a máscara. Já nem sentem necessidade de se ocultar atrás da máscara. Exibem, impunemente, perante o mundo, a grotesca violência, sem qualquer pudor ou vestígios de humanidade, completamente insensíveis ao sofrimento, à fome e à morte que semeiam, perante o nosso olhar incrédulo e impotente”, diz, em entrevista ao 7MARGENS, a pintora Balbina Mendes. 

Com uma longa carreira como artista plástica, uma vida cheia de exposições, prémios, distinções, a pintora falou-nos entre a montagem de mais uma exposição – A Segunda Pele, em terras de Miranda do Douro (onde costuma passar longas temporadas) –, dos seus projetos, da simbologia associada aos vários tipos de máscaras e do papel do artista como potencial transformador da arte e do mundo. 

A exposição está patente até ao final de Outubro nas instalações do antigo Paço Episcopal de Miranda e na Casa das Artes de Mogadouro, territórios que Balbina Mendes conhece muito bem desde a sua infância. Antes desta série de exposições a artista idealizou e criou outras séries de obras, entre as quais, Máscaras Rituais do Douro e Trás-os-Montes (2013); Máscaras Mitos e Ritos (2017) e O Rosto, Máscara Intemporal (2021).    

Balbina Mendes nasceu em 1955, em Malhadas, Miranda do Douro. Vive e trabalha em Vila Nova de Gaia. Tem o mestrado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP). Realizou dezenas de exposições individuais em Portugal, Espanha, EUA, Bélgica, Áustria, Austrália e Índia. Participou em numerosas exposições coletivas. Está representada em várias coleções públicas e privadas, em Portugal e no estrangeiro.

Balbina Mendes, Ser Outro

Balbina Mendes, Ser Outro, óleo s-tela, e impressão s/ plexiglass, 60x60cm, 2021.


7MARGENS – Persona tanto pode ser vista como sinónimo de uma palavra latina, como máscara, personagem, pessoa, carácter. O que fez criar este mundo à volta da Persona/Máscara?

Balbina Mendes – São misteriosos, por vezes, os impulsos que nos levam a fazer escolhas e entender a razão de ser das nossas opções artísticas é também, compreender o sentido da vida, aprofundando o conhecimento das nossas raízes antropológicas e míticas. Trazer a máscara para a pintura transcende os seus aspetos formais, na medida em que a máscara transporta símbolos que influenciam e interferem na vida, significantes da interpretação do mundo e da relação do homem com a alteridade. 

No meu caso, o fascínio pela máscara, em termos artísticos, remonta a 2007, com a realização de um conjunto de obras que fazem parte da série Máscaras Rituais do Douro e Trás-os-Montes. Tratava-se de pinturas inspiradas nos rituais de inverno com máscara do Nordeste Transmontano, de onde sou oriunda, resultando portanto da vivência de um legado cultural.

Carl Jung, conhecido pelas suas teses sobre a “psicologia analítica” dizia que a personalidade do Homem esconde outros pensamentos e sentimentos. A máscara deixou de ser uma metáfora e tornou-se real neste mundo de aparências em que, muitas vezes, a verdade se confunde com a mentira? Que comentário será possível fazer?

É curiosa a pergunta, mas convém recordar que, desde as celebrações festivas celtas e romanas, ao teatro grego, à Itália Renascentista, nas sociedades tradicionais europeias, africanas, ameríndias ou índias e até nas sociedades secretas, sempre a máscara esteve presente, em todos os tempos da História, servindo múltiplas funções sociais em momentos solenes ou críticos na vida de uma comunidade. 

Como elemento de dissimulação da verdade, disfarce dos valores morais e sociais, meio de ocultação das fragilidades humanas, tem sido objeto de interesse, reflexão e análise nas ciências sociais e de humanidades, sendo inúmeros os estudiosos a investigar os sistemas cerimoniais, as significações simbólicas da máscara, a sua origem. E o tema tem servido de reflexão a vários filósofos, Platão, Carl Jung, Aristóteles, entre muitos outros.

E os artistas também usam a máscara para parecer o ser…

Sim. Da mesma forma, este jogo entre o ser e o parecer, materializado pela máscara, tem sido explorado pelos artistas ao longo da história de arte, estando igualmente presente na literatura, na ópera, no cinema, no teatro, sendo neste, o ícone de identificação universal. 

Repare-se no seguinte: na linguagem de uso comum são frequentes as expressões que nos remetem para a máscara como metáfora da vida, traduzindo a necessidade de cada um de nós, se afirmar como outro. Afivelar a máscara, colocar a máscara da virtude, é ocultar-se atrás da máscara da astúcia, do fingimento, da hipocrisia. São formas de expressão como deixar cair a máscara ou tirar a máscara que, numa linguagem popular, traduzem a mesma dissimulação da verdade…

Balbina Mendes, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Balbina Mendes, O Ano da Morte de Ricardo Reis, folha de ouro s/tela, 100x100cm, 2022.

 

Chegados aqui apetece perguntar: a exposição é também uma homenagem ao poeta da portugalidade Fernando Pessoa, cujos heterónimos escondiam outras vidas e personagens?

Fernando Pessoa “entrou” naturalmente nesta série de pinturas, por ser ele próprio a máscara personificada em distintas identidades: Bernardo Soares: Tenho sido ator sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo; Álvaro de Campos cria uma máscara atrás da qual protege a sua frágil nudez, tentando representar um ser social normal: Depus a máscara e vi-me ao espelho… Assim, o poeta foi naturalmente contaminando a minha obra a partir da inclusão dos poemas dos vários heterónimos, serigrafados no plexiglass. E progressivamente, foram chamados e esta série de pinturas outros poetas, como Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro, Miguel Torga, Natália Correia, Saramago, entre outros.

Observei a exposição como um jogo de espelhos sobrepostos, onde cada imagem reflectia outra e outra. O que pretendeu com esta simbologia? Uma forma de comunicar, ou alertar que “o rei vai nu” e o Homem, afinal, tem muitas máscaras e nunca sabemos qual é a verdadeira e a falsa? 

Na série de pinturas “A Segunda Pele”, a inclusão do “plexiglass” que se interpõe entre o espectador, a tinta da impressão serigráfica e a representação do rosto no suporte de tela, atua de facto como um espelho. Até o espaço envolvente, cria uma multiplicidade de máscaras sobre o rosto que a máscara parcialmente oculta, metamorfoseando-o com múltiplos registos exteriores à pintura. Ao tentar interpretar a imagem, também o observador se projeta nela através do reflexo, colocando-se ele próprio para além da máscara que observa. 

Nesta ótica, podemos considerar que o reflexo transmuta a pintura tal como a máscara metamorfoseia um rosto, que podemos entender como um caráter, uma personalidade, a vida que se aparenta e a real… As alterações que o reflexo do meio envolvente e do observador provocam sobre o corpo da pintura que, em determinados ângulos desaparece, remete-nos exatamente para a máscara e para a sua capacidade de ocultação, de disfarce, de se tornar outro.

É verdade que a expressão facial pode exprimir sentimentos e que por detrás de um Homem frio e calculista pode estar um psicopata, um criminoso de guerra? Neste caso, a máscara é um décor, um ornamento para esconder a verdadeira face? Concorda? 

Os senhores da guerra da atualidade já deixaram a cair a máscara. Já nem sentem necessidade de se ocultar atrás da máscara. Exibem, impunemente, perante o mundo, a grotesca violência, sem qualquer pudor ou vestígios de humanidade, completamente insensíveis ao sofrimento, à fome e à morte que semeiam, perante o nosso olhar incrédulo e impotente.

Sendo uma artista sensível e atenta às injustiças do mundo, como é que a arte pode ajudar a salvar o planeta, a iluminar os caminhos da humanidade? 

A arte tem sido frequentemente interventiva na denuncia. E têm sido, ao longo da História, inúmeros os artistas indignados que, coletiva ou individualmente, tomam posição. Recentemente participei numa ação de solidariedade com o povo da Ucrânia promovida pela Cooperativa dos Artistas de Gaia. Sucedem-se tomadas de posição, em todos os quadrantes do globo, perante a atrocidade desenfreada da Rússia, que parece não ter fim. Mas, para além de sensibilizar a opinião pública e levar alguma ajuda e solidariedade a um povo torturado, pergunto-me angustiada: qual é realmente a eficácia destas ações?

 

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