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70 anos do MRAR

A “falta de autenticidade” da arquitectura religiosa em Portugal já está em livro

| 23/10/2022

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Foto © João Valério/Wikimedia Commons

 

Num artigo sobre “A arquitectura cristã contemporânea”, publicado em Janeiro de 1947 na revista Ala, escrevia o arquitecto Nuno Teotónio Pereira: “É preciso falar abertamente: neste campo, a situação presente do nosso País oferece um panorama bem triste. A Arquitectura religiosa sofre do mesmo terrível mal que a Arquitectura civil: falta de autenticidade. O artificialismo é encorajado. A dissimulação é protegida. O culto da forma vazia é tido em alto apreço. O progresso técnico é entravado, ou, quando admitido pela força inexorável das realidades vitais, é mascarado. A Arquitectura portuguesa actual está divorciada do Povo, da Terra e da Época.”

Terão actualidade estas observações? O texto é antologiado num livro que na tarde desta segunda-feira, 24, é apresentado em Lisboa e que reúne artigos de membros do antigo Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR), criado há 70 anos em Portugal. Na introdução da obra, João Norton de Matos, padre jesuíta e ele próprio arquitecto, escreve, sobre uma das razões para dar valor e importância aos textos reunidos neste livro: “passados mais de 50 anos sobre o último dos textos, conservam grande actualidade e urgência” e este aspecto “deve interpelar-nos”. Acrescenta o autor: “Do ponto de vista da arquitectura religiosa moderna, a reflexão deslocou-se tendencialmente para a universidade e mantém-se em geral mais afastada da prática da arquitectura e da vida cultural e diocesana, pelo que as obras de grande qualidade se tornam muito raras. Também do ponto de vista religioso, os ventos são outros, o desejo de novos e melhores tempos para a vida da Igreja e a sua expressão artística nas comunidades cristãs e na cidade deu tendencialmente lugar à nostalgia do passado e ao medo da abertura e da mudança.”

O livro, publicado em formato electrónico pelo Centro Nacional de Cultura e revista Brotéria, é organizado por João Alves da Cunha, autor de MRAR – Os Anos de Ouro da Arquitetura Religiosa em Portugal no século XX (Universidade Católica Editora) e arquitecto. Entre os nomes de membros do MRAR que nele são antologiados estão os de artistas e arquitectos como António Freitas Leal, Diogo Lino Pimentel, José Escada, Luiz Cunha, Madalena Cabral, Nuno Portas ou Nuno Teotónio Pereira, padres como Albino Cleto, António dos Reis Rodrigues, Henrique de Noronha Galvão ou João de Almeida (também arquitecto) e ainda Avelino Rodrigues, Flórido de Vasconcelos, José Maya Santos, Maria José de Mendonça e o escritor Vitorino Nemésio.

O colóquio que assinala os 70 anos da fundação do MRAR e durante o qual será também apresentado o livro elecrónico Movimento de Renovação de Arte Religiosa – Textos e Artigos decorre a partir das 16h desta segunda-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A iniciativa, diz uma nota dos organizadores enviada ao 7MARGENS, evocar este “importante movimento que corresponde à concretização da vontade de um grupo de artistas católicos empenhados em elevar a arquitectura religiosa e a arte sacra em Portugal a uma maior dignidade e qualidade plástica, numa oposição formal à manutenção dos modelos arquitectónicos de cariz tradicionalista nas novas construções religiosas dos centros urbanos de Lisboa e Porto”.

No colóquio, participam, num primeiro painel, o administrador da Gulbenkian, Guilherme d’Oliveira Martins, e os arquitectos José Manuel Fernandes, João Alves da Cunha e João Norton de Matos. No segundo intervêm Maria Calado (presidente do Centro Nacional de Cultura), e os arquitectos Ana Tostões, João Luís Carrilho da Graça, João Appleton e Ricardo Jacinto. O encerramento da sessão será feito pelo responsável da Renascença e Jornada Mundial da Juventude, o bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar.

 

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