
Pormenor do cartaz do documentário Amen Francisco Responde, Disney+
Confusa e assustada com o selo que o Vaticano, com uma grande falta de sensibilidade, emitiu sobre a JMJ de Lisboa e que, felizmente, foi retirado, vejo que poderia ser necessária outra forma de JMJ. Com um pouco de imaginação e criatividade seria possível ir reformando uma estrutura que não mudou desde que foi criada em 1984. O mundo e os seus habitantes mudaram muito desde então. Os jovens especialmente.
O canal Disney+ transmitiu uma entrevista de Francisco com jovens, daqueles que normalmente vemos na rua, falando com toda a naturalidade e sem nenhum tipo de censura. Havia crentes e não crentes, uma vítima de abusos, um migrante, uma jovem pertencente a um movimento específico… Pode-se dizer que Francisco não tinha diante de si a habitual “juventude do Papa”, mas a real, a do dia-a-dia.
Gostei da entrevista, mas o que mais me fez pensar foi que depois de transmitida, o que os jovens que participaram nela mais valorizaram foi terem sido ouvidos, terem-se sentido ouvidos.
O que é que se passa na nossa Igreja para que, depois de se ter celebrado o Sínodo dos Jovens em 2018, não se sintam ouvidos? Deveria fazer-nos refletir e pensar em quanta voz terão os jovens que chegarem a Lisboa este verão para participar na JMJ.
E digo voz, como se isso fosse o máximo que se pudesse aspirar, quando os jovens, pela sua própria idade, deveriam ser contestatários, rebeldes, questionadores e pró-evangelho sem a mínima dúvida, tendo em conta o quão revolucionária é a mensagem de Jesus. Teremos a juventude adormecida?
Seria muito enriquecedor que os jovens tomassem a palavra durante toda a JMJ e fossem eles que realmente falassem. Inclusive que as homilias fossem dialogadas, que as catequeses se tornassem em momentos de escuta ativa que permitissem que os jovens se conhecessem verdadeiramente uns aos outros e, sobretudo, que fossem eles a apresentar os temas de reflexão e debate. Sim, de debate, quanto mais cedo os jovens aprenderem a iniciar um debate intraeclesial, melhor para todos.
O que é que da nossa Igreja interessa realmente aos jovens, se é que lhes interessa algo? Quais são os temas de que querem falar e dar a conhecer as suas opiniões?
É tão indubitável que a Igreja tem dificuldade em desprender-se do critério da cristandade, como é evidente que continua a gostar das grandes concentrações e, perante isto, não há possibilidade de oferecer outras alternativas?
Continuo com as perguntas porque me ajudam a pensar, e espero que nos ajudem a pensar juntos. Quantos jovens conhecem o bispo da sua diocese? Poderiam ser mais apropriados encontros de menor escala com os seus próprios bispos? Que conhecem da realidade da sua diocese? Porque o que fica depois de cada JMJ?
Não sei que orçamento terá tido a produtora da entrevista de Francisco com os jovens. Tenho a certeza que terá sido muito inferior ao da JMJ e, além disso, tratou diretamente com jovens com perguntas e interesses concretos.
Não digo que se tenha de acabar com os encontros da JMJ – embora outros tipos de encontros parecidos a este não tenham data marcada e acabarão por morrer sem que ninguém dê conta disso –, mas, pergunto-me se não seria melhor começar a pensar noutros formatos mais reais, mais apropriados aos tempos que vivemos onde se incluam os jovens que não são a juventude do Papa, mas a juventude que ninguém escuta.
Afinal, ser uma Igreja de portas abertas é um convite para sair e ser cristãos de uma maneira totalmente nova. Neste momento precisamos de menos pregadores e de mais líderes dispostos a ser irrelevantes e vulneráveis, diz Henry Nouwen.
Assim foi Jesus Cristo. E a sua mensagem continua a despertar receios em muitos. Bom sinal.
Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo da Igreja Católica. Tradução de Júlio Martin.









