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O padre Marko Rupnik em audiência com o Papa Francisco, a 3 de janeiro de 2022. Foto Vatican Media

À terceira vez será de vez?

Papa determina abertura de processo ao padre Rupnik

| 27/10/2023

O padre Marko Rupnik em audiência com o Papa Francisco, a 3 de janeiro de 2022. Foto Vatican Media

O padre Marko Rupnik em audiência com o Papa Francisco, a 3 de janeiro de 2022. Foto © Vatican Media.

 

Pela terceira vez, o caso do artista e padre esloveno-italiano Marko Rupnik vai ser analisado no Dicastério para a Doutrina da Fé, depois de, por fim, o Papa Francisco ter ordenado, esta sexta-feira, 27, a abertura de um processo e uma revisão do caso.

A informação foi dada pela Sala de Imprensa da Santa Sé, escassos dias depois de ter sido tornado público que um bispo do país natal de Rupnik tinha anuído ao pedido de incardinação deste ex-jesuíta na sua diocese [ver 7MARGENS].

A decisão do Pontífice decorre de uma chamada de atenção que ele recebeu em setembro último da parte da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores e Pessoas Vulneráveis (CPPMPV), na qual alertava para “a existência de graves problemas no tratamento do caso do padre Marko Rupnik e para a falta de proximidade com as vítimas”.

De acordo com o comunicado da Santa Sé, o Papa “está firmemente convencido de que se há uma coisa que a Igreja deve aprender com o Sínodo é a ouvir atentamente e com compaixão aqueles que estão a sofrer, especialmente aqueles que se sentem marginalizados da Igreja”.

O comunicado refere também que Francisco, além de ter ordenado a reanálise do caso Rupnik, decidiu levantar quaisquer limitações que pudessem existir, de modo a que um processo possa ter lugar.

Recorde-se que, desde que o caso se tornou assunto frequente nas páginas dos média, em dezembro de 2022, o Papa foi várias vezes questionado sobre ele, sem se pronunciar sobre o envolvimento que já teve no processo, nem sobre o imperativo de, também aqui, escutar as vítimas.  A tal ponto que a voz corrente, certa ou errada, tem sido a de que Francisco tem estado a dar cobertura a este ex-membro da Companhia de Jesus.

Em maio de 2020, a então Congregação para a Doutrina da Fé, tendo como prefeito o cardeal Luís Ladaria, reconheceu a excomunhão latae sententiae de Rupnik, por delito dos mais graves contra o 6º mandamento (confissão e absolvição de cúmplice de relações sexuais). Menos de um mês depois, a pena foi levantada, por manifestação de arrependimento por parte do prevaricador. Ora, considera-se que uma medida destas e o seu levantamento não poderiam existir sem a intervenção do Papa.

Por outro lado, a mesma Congregação analisou, a seguir, vários relatos de vítimas de abuso espiritual e sexual de Rupnik, numa investigação promovida pelos Jesuítas, vindo a reconhecer, numa deliberação de outubro de 2022, que não estando em causa a matéria factual, ela tinha, no entanto, prescrito.

Das múltiplas penalizações administrativas aplicadas pelos Jesuítas, todos os sinais apontam para o facto de Rupnik as ter ignorado total ou parcialmente. E, sobretudo, não existiu qualquer sinal conhecido, em todo o processo, de este clérigo alguma vez ter tido um gesto de aproximação às vítimas.

Mais recentemente, foi o cardeal vigário de Roma que declarou que o Centro Aletti, cujo funcionamento mandou investigar, apresentava problemas, afirmando também que o processo da excomunhão de que Rupnik foi objeto levantava problemas que disse ter apresentado “superiormente”.  Esta movimentação foi interpretada como uma tentativa de branqueamento do padre Rupnik e do Centro Aletti.

Questionada a excomunhão do padre Rupnik e esquecidas as vítimas de abuso

Quando um bispo da Eslovénia deu guarida ao padre Rupnik, argumentando que todo o cidadão é inocente até ser condenado em juízo, esquecendo que o Código de Direito Canónico impõe condições para a incardinação de um clérigo, que não foram contempladas neste caso, criou-se a ideia de que se estava a encerrar o caso Rupnik.

A surpresa veio de onde já não se esperava que viesse: do próprio Papa, que convoca a falta de proximidade com as vítimas e o imperativo de as ouvir, dentro do espírito sinodal que a Igreja está a aprender a trilhar.

 

Processo a Rupnik é “crucial para as vítimas e para a Igreja”

Reagindo à decisão do Papa Francisco, a Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores afirmou esta sexta-feira, dia 27 de outubro, que a decisão de reabrir um processo canónico no Dicastério da Doutrina da Fé  “é crucial, não só para as vítimas mas para toda a Igreja”.

Na linha de uma recente tomada de posição dirigida aos membros da assembleia sinodal e ao colégio dos cardeais, a Comissão reiterou que “não há lugar no ministério para aqueles que violam tão profundamente os que lhes são confiados”.

“Exortamos todos aqueles que exercem qualquer forma de liderança a garantir que a nossa Igreja seja um lugar de acolhimento, compreensão e cuidado para todos, com preferência para aqueles que são marginalizados” por ela, acrescentou.

A Comissão sublinhou, por outro lado, “o importante papel que uma cultura de proteção deve desempenhar em qualquer teologia de ministério, liderança ou culto. O núcleo do mandato da Igreja é tornar todos seguros, proteger os vulneráveis de tudo o que os ameaça e conduzi-los à plenitude da vida conhecida através das próprias promessas de Deus”.

No comunicado, a Comissão diz-se ainda “preocupada com os processos disciplinares da Igreja e com as suas insuficiências”, especificando apenas a necessidade de “uma administração adequada da justiça”.

 

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