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Afinal isto anda tudo ligado: música, religião e saúde

| 05/06/2019

Afinal isto anda tudo ligado: música, religião e saúde

by | 5 Jun 19 | Entre Margens, Últimas

Martinho Lutero em família, de G. A. Spangenberg (1886): “Lutero pensava que a música devia ser cantada por toda a congregação e trabalhou no sentido de compor melodias simples para serem cantadas no vernáculo”. 

 

A música sempre desempenhou um papel relevante nas liturgias religiosas do mundo ocidental, embora assumindo diferentes formas. De facto, a tradição cristã sempre esteve associada a cânticos espirituais em diversas modalidades.

 

Já o Evangelho nos relata que, pelo menos desde a Última Ceia e os derradeiros dias de Jesus Cristo, os discípulos cantavam hinos: “E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mateus 26:30). A igreja cristã seguiu certamente esta tradição ao longo de todo o primeiro século e depois dele, apesar das intermitências históricas, de modo a ocupar o seu espaço nos ritos católico, ortodoxo, protestante ou outros.

O Papa Gregório I (590-604) reorganizou a liturgia e codificou a música religiosa criada até aí através do Schola Cantorum, dando início ao cantochão. É já no final do século XI que surge o cantus firmus, uma primeira tentativa polifónica. No catolicismo medieval a música reduzia-se apenas a um coro que cantava em latim, ao longo da missa, tendo os franciscanos sido pioneiros na criação da forma litúrgica de a congregação poder responder ao coro ou ao clero com um refrão simples e ritmado como, por exemplo, o Laudate Dominum(“Louvado seja Deus”).

Em plena Reforma, Lutero pensava que a música devia ser cantada por toda a congregação (“porque terá o diabo toda a boa música?”), por isso trabalhou no sentido de compor melodias simples para serem cantadas no vernáculo, o que tornou a música congregacional altamente popular nos meios reformados em toda a Europa, com a excepção de pequenos grupos como os quacres, que acreditavam que a oração e o louvor deviam ser conduzidos em silêncio.

A ideia de “democratizar” a música nas igrejas protestantes deve-se inicialmente a anglicanos e luteranos que consideravam o livro bíblico dos Salmos – o cancioneiro popular do Antigo Israel – como uma prova de que Deus tencionava que todos os tipos de música fossem usados no culto, promovendo assim o canto congregacional. Que pena não terem sido preservados para a posteridade as músicas originais do saltério hebraico… Calvino, por sua vez, permitia que os salmos fossem cantados no culto, mas sem acompanhamento instrumental.

Seja através de expressões vocais, em estilo melódico de tipo gregoriano ou polifónico na prática oriental e protestante, seja mais ao jeito instrumental, para o qual trabalharam alguns dos maiores compositores de música clássica, não será por acaso que a música é tão utilizada na esfera religiosa, pois os seus benefícios para a saúde e bem-estar estão comprovados.

Ainda recentemente o Festival de Música de Setúbal integrou um simpósio internacional onde o compositor escocês Nigel Osborne, que trabalha há décadas com crianças vítimas de conflitos armados (de início bósnias e, depois, em África e Médio Oriente), defendeu a ideia de que os sintomas de traumas de guerra – como a presença de recordações dolorosas obsessivas, visão negativa da realidade, retracção emocional e hipervigilância – têm repercussões biofísicas que podem ser aliviadas por musicoterapia. Além desse benefício inestimável, a música constitui igualmente uma forma de permitir às crianças uma ligação com a sua identidade e cultura (fazendo-se uso de música dos seus países de origem), ajuda-as a recuperar confiança e empatia, capacidades sociais que os traumas tendem a afectar.

Mas a música é igualmente benéfica em pessoas que atravessam fases difíceis na vida, como dor, depressão ou solidão, mas também doentes hospitalizados, sem-abrigo, pessoas com diagnóstico de autismo, reclusos, portadores de demências, idosos e pessoas institucionalizadas, entre outras, permitindo ainda aos indivíduos activar capacidades adormecidas e aumentar a autoestima. Por outro lado, sabe-se que a experiência de cantar em grupo provoca a produção de oxitocina, uma hormona associada a sensações de prazer, além de benefícios cardíacos e no funcionamento do sistema nervoso.

A música é poderosa porque mexe com as emoções. Pode ser utilizada para fins nobres (cura, cultura, celebração, ritos de passagem, elevação do espírito) ou menos dignos (irritar os vizinhos, quando em volume excessivo, ou apelos ao suicídio). Pode ser usada como um fim em si mesmo, de modo a poder ser apreciada ou assumir um carácter instrumental, com vista a alcançar um propósito final.

Parece que há música nas esferas, no espaço sideral. E há quem diga que a música, tal como toda a verdadeira Arte e a Beleza, terão nascido nos céus, geradas pelo próprio Deus. Nós é que temos uma tendência compulsiva para as estragar.

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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