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Os pobres, os jovens, a sexualidade e a morte (anunciada?)

| 17/02/2024

Imagem do filme Pobres Criaturas

Imagem do filme Pobres Criaturas

 

Nunca me tinha ocorrido que a morte pudesse ser algo difícil de perceber. Noutros tempos sim, talvez fosse difícil ter uma certeza segura da transição de um corpo da vida para a morte, mas no século XXI? No entanto, um artigo que li há dias falava de corpos com órgãos funcionais e pulso, não sendo isso o suficiente para fazer deles seres vivos, se simultaneamente não houver atividade em nenhuma área do cérebro. “Na verdade, biologicamente falando, nunca houve um único momento de morte. Cada passagem é uma série de minimortes, com diferentes tecidos decaindo em velocidades diferentes”. “Escolher uma definição de morte é essencialmente uma questão filosófica ou religiosa”, acrescentavam no mesmo texto.

Recentemente surgiram dois filmes que se comunicam, à distância de meio ano. No passado verão de 2023, os cinemas foram inundados pela explosão cor-de-rosa de Barbie, e agora é a vez do gótico alegre de Pobres Criaturas. São duas versões de mulheres-boneca e ambos os filmes merecem certamente serem vistos – são entusiasmantes e onde a crítica social não deixa de estar presente. Nenhum dos dois cumpriu as expectativas que levei para a sala de cinema. São sempre o que trama, as expectativas…

Queria olhar o segundo filme, sem esquecer o primeiro. Vale a pena recordar que na primeira interação no tão desejado mundo real, Barbie é confrontada com comentários masculinos sobre a sua aparência, para depois levar uma palmada no rabo, ao que responde – quem nunca? – com alguma agressividade, obtendo, por isso, cadastro criminal como troféu de visita.

Bella Baxter, a protagonista de Pobres Criaturas, é uma criação “a la Frankenstein” do cientista Godwin “God” Baxter, projetada para ser alimentada pela muita ciência e poucos sentimentos (nem tudo vai correr como previsto). Tal como Barbie, vai sair do seu casulo para explorar o mundo e construir uma identidade com base naquilo que vai aprendendo sobre o seu próprio funcionamento, o dos demais e as suas nuances e curto-circuitos. Tal qual como nós.

A história de Bella vai sendo contada a par de muitas e animadas cenas de sexo, em que, de tão presente, o sexo é apenas manifestação naturalíssima da imensa vitalidade que a criação de “God” experimenta. É impossível deixar de sorrir perante Bella que, ao descobrir o prazer sexual, reage achando que esta é, obviamente, uma informação fundamental a ser partilhada com todos.

Barbie olharia para as experiências de Bella com alguma estranheza e nenhuma moralização. Embora experiências com a sexualidade não estejam no seu campo de interesses, a mortalidade, sim, está na linha da frente da reflexão existencial – “Do you guys ever think about dying?”, questiona, e tudo pára em Barbieland.

O que ambas experienciam é uma aguçada preocupação com o mundo, toldada pelas suas ingenuidades de mulheres-boneca.

Quando Bella se afasta ligeiramente do cruzeiro de luxo que tem sido a sua vida, a sua reação perante a pobreza extrema e a violência desesperançada é ceder um penso rápido, sob a forma de uma mão-cheia de notas, deixadas a cargo de duas almas caridosas. Bella sente-se apaziguada por ter conseguido aliviar um pouco do sofrimento dos pobres e não se preocupa em verificar as credenciais dos agentes de caridade. Os pobres não se chegam a ver com nitidez, são uma mancha humana que a protagonista olhou desesperada, por momentos, do convés do navio. Bella cai nestas armadilhas, mas o filme vai-lhe dar tempo para aprender a sobreviver no mundo como ele é, sem perder o entusiamo com a vida, ganhando alguma sobriedade.

A obsessão com a moralização da vida sexual, própria ou alheia, tolhe o discernimento do que é fundamental na ação no mundo. Estas mulheres-boneca, criações experimentais da mão humana, parecem perceber melhor do ofício de viver do que muitos dos que se deixam ficar pelas observações rasas do bem parecer. O bem viver, para estas criaturas, passa por um andamento de libertação, a quem não ocorre abafar a vida nos outros.

Estas personagens são seres em construção, para quem é difícil definir uma idade. Embora se apresentem com a aparência de mulheres jovens, é difícil perceber a maturidade que as suas experiências lhes permitiram acumular. Foram educadas na redoma dos seus criadores.

Na sociedade contemporânea, os comportamentos sexuais e a saúde mental estão em transformação, sobretudo para os jovens. “É importante percebermos isto: nós nunca podemos ver o comportamento sexual de uma geração à luz do que era o nosso comportamento quando tínhamos esta idade. Porque as mudanças no mundo acontecem e o comportamento sexual vai-se ajustando a elas. Não necessariamente para pior”, afirma um psicólogo, em resposta aos dados do  Health Behaviour in School-aged Children / Organização Mundial de Saúde (HBSC/OMS), divulgado no final de 2022.

Numa das cenas do filme, Godwin justifica a sua intrusão tirânica no trajeto de uma personagem suicida dizendo que a fez escapar do único destino que aquela “sociedade cristã” lhe tinha reservado, o internamento permanente no asilo psiquiátrico.

Em inglês, o filme intitula-se Poor Things. De criatura a coisa vai uma comprida distância. Pobres, jovens, mulheres. Às coisas, age-se por elas. Às criaturas, dá-se espaço para viver.

 

Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.

 

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