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Cristianismo e marxismo - capa

Um livro, um debate

Cristianismo, marxismo e o valor da liberdade

Cristianismo e marxismo - capa(O livro aqui recenseado será apresentado publicamente na Capela do Rato, em Lisboa, na próxima quinta-feira, 21, a partir das 18h30. Serão intervenientes o patriarca emérito de Lisboa, Manuel Clemente, e o antigo dirigente do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã.)

 

Pode um católico estar comprometido em estruturas da sua Igreja, e, ao mesmo tempo, ser marxista, pertencer a um partido comunista ou socialista?

A pergunta exprime inquietação de jovens católicos portugueses dos idos anos [19]70, acostumados a reunir-se, uns e outros, à procura de respostas e vias mobilizadoras para construção de vida pessoal e coletiva.

Rapazes e raparigas estudantes da Universidade de Lisboa, militantes da JUC (Juventude Universitária Católica), sentiam-se interpelados por correntes do Concílio Vaticano II, sobre a presença da Igreja no mundo. Todavia, o contexto de Portugal, ditadura agravada por estúpida Guerra Colonial, impedia-os de concretizarem tão nobres anseios. Admiravam ambientes como os de democracias consolidadas na Europa, com descolonizações resolvidas. Mas tudo parecia nebuloso quando se dispunham soletrar a Declaração Universal dos Direitos Humanos e concluíam estarem esses princípios longe de ser cumpridos.

Assim justificavam espaços de debate e confronto de ideias, promovidos pela JUC.  É de uma dessas reuniões que faz memória, um livro, agora publicado.

Cristianismo e Marxismo Em Debate nos Anos 70 – Um diálogo entre o padre João Resina e o filósofo Sottomayor Cardia (Universidade Católica Editora, fevereiro 2024), passados cinquenta anos, fixa a memorável “discussão, livre e aberta, entre dois homens com um pensamento autónomo, que se apreciam e estimulam” (p. 27), registada, precisamente, durante o colóquio realizado a 19 de janeiro de 1974, na sede da JUC, Juventude Universitária Católica, na Avenida da República, Lisboa.

O original do livro descobriu-o o jornalista José Pedro Castanheira, durante o tempo da pandemia, ocupado em dar voltas a arquivos esquecidos. Estavam dentro de uma pasta de cartão, resistente ao tempo, umas folhas datilografadas que ele próprio transcrevera da gravação do colóquio onde estivera presente e de que fora um dos impulsionadores, precisamente, por ser, também, ativo militante da JUC.

Noventa páginas do pequeno livro são suficientes para oferecerem ao leitor refrescantes recordações, há cinquenta anos, ainda presentes na atualidade.

João Resina

Padre João Resina: “A Fé só vale na medida em que seja capaz de transformar as relações humanas”. Foto © Enric Vives-Rubio, cedida pelo autor

O historiador António Araújo, autor do prefácio, apresenta o debate “entre dois grandes intelectuais, o padre João Resina Rodrigues, que, além de sacerdote católico, seria mais tarde docente e investigador do Instituto Superior Técnico, e Mário Sottomayor Cardia, um dos pensadores mais marcantes da sua geração, ex-militante do Partido Comunista Português, chefe de redação da Seara Nova e, no pós-25 de Abril, destacado militante socialista, deputado à constituinte, ministro da Educação e professor universitário (p. 8-9). Discorre sobre o “25 de Abril cultural” que “precedeu o militar e político”, onde, afinal, “o diálogo entre Sottomayor Cardia e Resina Rodrigues não tinha, quanto ao fundo, especial originalidade no contexto internacional da época. Pelo contrário, correspondia mesmo a uma das modas intelectuais da altura” (p.11).

A razão de ser de um debate entre um sacerdote católico e um filósofo marxista é explicada por José Pedro Castanheira, antecedida pela revelação das circunstâncias que o levaram a reencontrar-se com o texto por si transcrito na máquina de escrever de teclado AZERT. Justifica o jornalista a realização do colóquio promovido pela JUC com um conjunto de acontecimentos marcantes em 1973 (vigília na Capela do Rato contra a Guerra Colonial, massacre de Wiriamu, Eleições em Portugal e golpe de Pinochet no Chile, e sublinha a circunstância de o ano de 1974 se ter iniciado “com uma vaga de prisões incluindo numerosos cristãos e até sacerdotes, acusados de estarem ligados a organização de extrema-esquerda, adeptos da luta armada, como a LUAR e o PRP. Alguns nomes eram bem conhecidos da JUC…” (p. 18-22).

Por isso, muitos se perguntavam: pode um católico ser simultaneamente comunista ou socialista?

A resposta, indireta, viria de Sottomayor Cardia, ao cair do pano: “não há, propriamente, que compatibilizar marxismo com cristianismo, é um falso problema” (p. 56).

À exposição geral de Cardia sobre os direitos do homem na formulação filosófica de pensadores revolucionários do século XVIII até à expressão fixada pela Declaração de 1948 da Assembleia Geral da Nações Unidades, respondeu Resina com a perceção de que a mensagem de Deus não é uma coisa teórica e espiritual – “a Fé só vale na medida em que seja capaz de transformar as relações humanas” (p. 35).  Ainda, diante do “rastreio histórico” da Cardia, Resina anuiu à razão de Marx “quando disse que a injustiça depende de mecanismos”, daí “a justiça não pode(r) ser realizada de maneira individual”, mais: “Hoje, não é com Conferências de São Vicente de Paulo que conseguimos resolver a situação dos pobres” (p. 36).

Em resposta a perguntas de jovens, Cardia falou da necessidade de “mudar as relações de produção”, observando que “a teoria do valor não é uma teoria científica, é uma teoria que pressupõe a ideia de apropriação do produto do trabalho” (p. 47) afirmando, ainda, que “o conceito de socialismo não pode confundir-se com o de propriedade coletiva” (p. 49).

Antes, Resina admitira imperfeições da Igreja (p. 38), chamara a atenção para aspetos positivos do pontificado do Papa Paulo VI, nomeadamente, ao reconhecer “uma circularidade entre o Direito e a Paz” (p. 40) e manifestara a convicção de que Deus “conta connosco e espera que sejamos capazes de encarnar a Palavra d’Ele à maneira de um fermento” (p. 39).

A parte final do livro oferece dois textos distintos: da autoria de António Marujo e Pedro Silva Rei sobre o trajeto de vida de João Resina Rodrigues (1930-2010), p. 67-78; e de Carlos Leone com “notas sobre o não tão jovem Sottomayor Cardia (1941-2006), p. 79-90.

Diga-se o que se disser, estimulante apelo à leitura deste livro é formulado por António Araújo, na conclusão do Prefácio (p. 13):“A publicação deste livro é particularmente oportuna, agora que comemoramos os cinquenta anos de uma revolução que começou a ser feita em momentos como este, que bem merecem ser conhecidos de investigadores académicos de curiosos na nossa História e sobretudo, acima de tudo, das gerações mais jovens e novas, nascidas já em democracia e, por isso, nem sempre conhecedoras do valor da liberdade.”

 

Cristianismo e Marxismo Em Debate nos Anos 70 – Um diálogo entre o padre João Resina e o filósofo Sottomayor Cardia
Coordenação e edição de José Pedro Castanheira
Textos de António Araújo, António Marujo, Carlos Leone, José Pedro Castanheira, Pedro Silva Rei
Universidade Católica Editora
Fevereiro 2024, 90 pág., 11 €

José António Santos é jornalista

 

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