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autores - Ana Nunes de Almeida

A semente deitada à terra

Crucificação. Jesus. Cristo

Pintura: Crucificação de Jesus (1558) de Ticiano. Museu de Ancona (Itália) / Wikimedia Commons

 

E diante de nós a cruz, a dor rasgada, o sangue derramado, o choro da Mãe e das mulheres que a abraçam, a comoção dos apóstolos, o espanto da multidão. E aquele homem jovem despojado, moribundo, sacudido em agonia lenta. Corpo crucificado, prego a prego, espinho a espinho.

“Afasta de mim este cálice, Pai”. Afasta.

A Páscoa traz para a vida a presença da morte. Daquela morte e daquela cruz de madeira, bruta e cruel. Daquele homem, o Cristo. Igual a nós, como nós, mas mais do que nós. Mais do que nós porque fez da Palavra um rumo de vida, incondicionalmente. Porque se atreveu a desafiar a ordem, os poderosos, e a desinstalar as certezas feitas dos quotidianos baixos e pequeninos daqueles que não fazem perguntas. Porque procurou saciar a sede de quem tem medos, segredos angustiados ou desesperanças que paralisam. Porque tocou nos leprosos, viveu entre os mais pobres e renegados, abraçou prostitutas e pecadores. Porque nos ensinou a ver com o coração, o lugar intocável da condição humana. Porque nos desafiou a olhar para cima, à procura de verdade e de beleza. Ei-Lo que vem, em nome do Senhor. Anunciando o amor pelos outros como salvação para os males do mundo. Voltando às coisas simples, fortes e verdadeiras. Ao próximo e ao outro, ao mesmo e ao diferente, enraizando-nos em comunidades de irmãs e irmãos, que partilham à volta da mesa o pão, o vinho. E a fé. “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”.

Mas a Páscoa é uma travessia, um caminho, um movimento. É o indizível absoluto, porque não cabem nas palavras que usamos o seu segredo e mistério. A Páscoa não se fica pela Cruz. Leva-nos para Lá da Cruz. Cristo ressuscitou, isto é, fez-se vida de novo e deu-nos a bênção da Outra Vida. A todos, todos, todos. Como a semente deitada à terra que morre e, ao morrer, volta a nascer e floresce e inunda os campos e os corações de luz e de esperança.

Linda-a-Pastora, 19.03.2024. Dia do Pai.

 

Ana Nunes de Almeida é socióloga, ex-membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

 

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