1. Procissão do Senhor dos Entrevados
nas Cruzes Floridas de Serzedelo
Vem de longa tradição esta Festa das Cruzes Floridas de Serzedelo, no concelho de Guimarães. Em cada ano, celebra-se a memória da Procissão do Senhor dos Entrevados, coincidindo a festa litúrgica católica da “Invenção (descoberta) da Santa Cruz”, dia 3 de Maio de cada ano.
A situação das pessoas com problemas de locomoção levava a comunidade cristã a promover esta procissão com o objetivo de dar a sagrada comunhão a quem estava impossibilitado de ir à igreja. A situação de miséria social que ocorria no meio rural entregava os habitantes doentes ao silêncio e ao esquecimento, sobretudo quando se verificavam anomalias que impediam a locomoção.
Uma tradição renovada em cada ano

“Assear” da Cruz de 2025 da família Costa, de Serzedelo (Guimarães), para a Festa das Cruzes Floridas da paróquia. Foto © Ricardo Cardoso, cedida pelo autor.
O modelo de ritual, tendo o suporte de outrora, traz à comunidade o convívio com as tradições, oferecendo motivos para a diversão de rua, mas resguardando sempre o sentido religioso da festa. Este ano, as 16 famílias que mantêm a tradição secular de enfeitar as cruzes são ajudadas por oito a dez mordomas, mulheres adultas, jovens e adolescentes (há só o caso de um homem) que asseiam nas casas dos donos das cruzes latinas (sem crucificado). Estas são feitas de madeira de carvalho ou castanheiro, com 3,5 cm de espessura e dois metros de altura.
Quando uma família não pode assegurar a tradição, cede o lugar a outra família da freguesia que se compromete a respeitar a tradição. Estes trabalhos de asseio podem estender-se pela madrugada anterior à festa. Entretanto, nascem nas ruas os tapetes de flores e serrim colorido, por onde vai passar a procissão eucarística. Chegam a fazer-se dezenas de quilómetros de tapetes, cuja tarefa pode ocupar os artistas por toda a noite.
No domingo de manhã, cada uma das 16 famílias transporta a sua cruz enfeitada para ser colocada nos nichos de pedra ao longo do percurso entre o adro da igreja e a capela do Senhor do Calvário. Na paróquia há um espólio de cruzes desde os anos 70.
Bandas e fanfarras

Uma das cruzes de 2019 de Serzedelo (Guimarães), para a Festa das Cruzes Floridas da paróquia. Foto © Ricardo Cardoso, cedida pelo autor.
A procissão, que sai depois da missa paroquial das oito da manhã, leva, debaixo do pálio, o padre e três acólitos com a caldeirinha de água benta, o turíbulo com incenso e um tabernáculo para colocar a píxide para a distribuição da comunhão aos doentes. O cortejo será acompanhado este ano pela Fanfarra do Agrupamento 84 dos Escuteiros, pela Banda Filarmónica e por fiéis devotados àquela expressão pública de religiosidade.
Pelas 15 horas, celebra-se a Via Crucis (Caminho de Luz), uma reflexão aberta ao sentido novo das festas pascais. A perpetuidade destas tradições conduz à preservação deste património imaterial, difundido pelo país de matriz judaico-cristã, mas cada vez mais envolto na superficialidade e no desprezo histórico e mesmo lendário.
2. Festas das Cruzes, de Barcelos

Vista do Campo da Feira, Barcelos, durante a Festa das Cruzes, nesta sexta, 1. Foto: Direitos reservados.
As Festas das Cruzes Floridas de Serzedelo tiveram origem, pode dizer-se, na cidade de Barcelos, quando esta localidade pertencia à administração religiosa das terras do Cávado e onde também se realiza uma Festa das Cruzes, no mesmo dia 3 de Maio. Há registos de 1758 que confirmam esta hipótese.
As Festas das Cruzes de Barcelos iniciaram-se no século XVI. Segundo a lenda, são pelo menos dois “milagres” que suportam a existência desta festa anual, considerada a primeira grande romaria do Minho.
Uma cruz negra no chão do Campo da Feira
A primeira lenda refere-se a uma jovem, a Luisinha, que terá encontrado, aquando de um naufrágio, um pedaço de madeira pertencente a uma cruz. A determinada altura, ao lançar este pedaço de madeira ao lume, de imediato irrompeu uma luz forte que iluminou toda a casa.
Entretanto, no desandar da vida, um fidalgo de nome Pedro Martins encontrou a Luisinha e quis casar com ela à força, mas o pai da jovem não estava de acordo. Persistindo na sua intenção, o fidalgo voltou a importunar a jovem. A Luisinha mostrou-lhe a cruz iluminada. O impacto deste prodígio foi de tal maneira transformador do espírito do fidalgo, que motivou a construção do Templo do Senhor Bom Jesus da Cruz. A igreja de estilo barroco é um imóvel de interesse público e foi construída em granito. O templo tem uma imensa riqueza interior, desde os azulejos aos retábulos em talha. O actual abriu ao culto em 1710, com projecto do arquitecto João Antunes.
Uma segunda lenda surge associada a uma cruz negra que terá aparecido no chão do vasto Campo da Feira, em 1504. No lugar da aparição da cruz, surgiu primeiro um cruzeiro de pedra e, mais tarde, uma ermida. Dois séculos depois, o actual Templo do Senhor da Cruz foi construído nesse mesmo local.
Os poderes de um sapateiro

Um momento da batalha das flores na Festa das Cruzes. Foto: Direitos reservados.
Hoje, mais de um milhão de festivaleiros invade o casco da cidade medieval e as margens do Cávado. Na origem desta festa, esteve o sapateiro João Pires, que viu no chão uma cruz preta. Segundo o seu relato, surgiu primeiro sob a forma de uma nódoa negra que ia crescendo até formar uma cruz perfeita. Este fenómeno ocorreu por volta das nove horas da manhã de uma sexta-feira, 20 de Dezembro de 1504, quando o país era governado pelo rei Manuel I.
O que mais se estranhava era que a cruz parecia afundar-se na terra; quanto mais se cavava, mais ela brotava, como que iluminada. Este sinal sagrado foi sempre respeitado pelas populações que ali acorriam, provenientes das 89 freguesias que compõem o concelho de Barcelos.
Daqui nasceu também a tradição do Galo, hoje transformada em símbolo do turismo nacional. A feira, que desde o século XIII, ali se realiza junto à Igreja do Bom Jesus, é o motor desta festa. É nela que se prova uma gastronomia excitante, onde o som das concertinas se enrola nos ouvidos dos forasteiros e o artesanato abre os olhos de todas as gerações. Na “Batalha das Flores”, travada em cima de atrelados de tractores, carrinhas ou camiões de caixa aberta, em diálogo floral com forasteiros, ninguém fica indiferente. É mesmo o ponto alto destas festividades abertas ao mundo do turismo.
Os tempos modernos trazem à festa maior de Barcelos as vozes de artistas nacionais populares e da cultura regional.
Era esta sedução que me enchia e me arrastava quando, em criança, me entregava ao frenesim entre milhares de romeiros, vindos, sobretudo, da Galiza, e convivia com minhotos de todos os feitios.
Na actualidade, as Festas das Cruzes de Barcelos entraram já na esfera global, mantendo, contudo, os laços que as ligam à Primavera, estação de flores e manhãs de nevoeiro intenso.

Uma romeira na Festa das Cruzes. Foto: Direitos reservados.
Neste domingo, 3 de Maio, a TSF retransmite, depois das 16h, uma reportagem de Manuel Vilas Boas sobre a Festa das Cruzes, feita em 2011. O programa ficará depois disponível na página digital da rádio.










