Quando questionado sobre a música que quer no final do programa, o padre António Janela responde primeiro pela negativa: “Que não seja oh tempo, volta p’ra trás!” Opta, por isso, pela Polonaise, a opus 53 de Chopin, “relembrando que se vive na Europa de Leste, hoje, aqueles momentos trágicos de uma guerra que já tem mais dias” do que a Grande Guerra 1914-18.
O padre António Janela, 85 anos, foi pároco em diferentes paróquias da cidade de Lisboa e professor em múltiplas escolas secundárias e universitárias. Desempenhou diversas funções diocesanas no Patriarcado de Lisboa, esteve preso pela PIDE, “frustrou” esperanças da mãe e do pai e usa a bengala não só para “não cair”, como também uma forma de evangelizar – já explicará porquê na entrevista que deu ao programa Rostos e Rumos, da TSF e do 7MARGENS.
Na entrevista, o antigo assistente da JEC (Juventude Escolar Católica) recorda a sua prisão pela PIDE, na sequência da vigília da Capela do Rato. E diz que, nessa época, “havia na juventude mais militante duas grandes organizações: a Acção Católica no seu ramo juvenil – secundário, a JEC, e universitário, a JUC [Juventude Universitária Católica] –, e o Partido Comunista.”
António Manuel Almeida Janela nasceu em Luanda, a 6 de Março de 1941. Por lá fez a escola primária e ainda frequentou o Liceu Salvador Correia. Voltou várias vezes ao país, que olha hoje com “esperança: Angola é um país muito rico, mas tem contradições muito grandes”.
Aos 14 anos, deixa a terra quente de Angola e estabelece-se com a família em Lisboa. Dois anos depois, entra para a JEC e nas primeiras reuniões em que participa conhece Rui Mendes, futuro actor, e José Vera Jardim, que viria a ser ministro da Justiça no Governo de António Guterres e preside hoje à Comissão da Liberdade Religiosa.
É na JEC que decide entrar no seminário. Anos mais tarde, dirá que esse foi o acto mais livre de toda a sua vida. O pai, delegado-gerente de uma empresa de cafés, em Angola, foi progressivamente vencido. Ele queria, afinal, um filho que fosse economista. Mas também a mãe lhe confessaria uma frustração: “Já não teria netos” dele. Mas o filhos queria mesmo “estar disponível para o serviço da Igreja”, o seu pai não entendia isso, mas foi-se rendendo à ideia com o tempo.
“Construir uma educação para a democracia”

Na entrevista, o padre Janela recorda a sua prisão pela polícia política do Estado Novo. Foto © António Marujo/7MARGENS
António Janela é ordenado padre em 15 de Agosto de 1965, três anos antes de uma crise estalar no seminário dos Olivais. Em 1969, o cardeal-patriarca Gonçalves Cerejeira envia-o para Roma para estudar Sociologia. Só iria fazer doutoramento em 1988. No país anunciava-se, entretanto, a fria “primavera marcelista”, que o apanhou já com quatro anos de professor de Religião, disciplina em que, reconheciam os alunos, “foi o primeiro professor que disse a palavra ‘sexo’ na aula”.
Define esse período da sua vida como o de alguém que começou a “construir uma educação para a democracia, no sentido da participação responsável”.
A sua habilitação em Sociologia levou-o a ser professor também no Instituto Superior de Serviço Social, fundado pelo padre Honorato Rosa, e depois na Faculdade de Teologia da Universidade Católica. O primeiro trabalho que fez nessa área, além das aulas, foi encomendado pelo cardeal Ribeiro: um levantamento sobre a juventude no patriarcado.
Em Maio de 1971, António Ribeiro foi nomeado patriarca de Lisboa, escolhendo uma nova equipa para dirigir o seminário dos Olivais: além de António Janela, integram-na os futuros patriarcas José Policarpo e Manuel Clemente.
Antes, o padre Janela integrara a equipa de professores de Moral e Religião dos liceus de Lisboa, coordenada pelo padre Alberto Neto. Na Capela do Rato, na sequência de uma vigília contra a Guerra Colonial, a 30 de Dezembro de 1972, António Janela é detido pela PIDE, a polícia política da ditadura. Com o apoio explícito do patriarca, D. António Ribeiro, será o ele a quebrar os selos com que a polícia política fechara a capela, celebrando missa contra a vontade da PIDE.
É isso que o leva a ser detido no final da missa. “Devias ter ido assim”, paramentado, para a sede da polícia política, dir-lhe-á depois Alberto Neto, que nesses dias esteve doente e retido em casa.
No interrogatório, o padre Janela repetiu que tinha sido o patriarca a autorizar “tudo”. E o próprio António Ribeiro foi buscar o padre à sede da PIDE, de onde acabou por sair de madrugada, com a “medalha” de uma refeição – a primeira em quase 24 horas – preparada pelo patriarca.
O que faz falta?

António Janela durante a entrevista: “O que falta para dar passos concretos? É a sinodalidade.” Foto © António Marujo/7MARGENS
No dia 25 de Abril de 1974, o padre António Janela foi testemunha pessoal dos acontecimentos do Largo do Carmo, em Lisboa, que levaram à implantação da democracia em Portugal.
A sua vida pastoral passará ainda por várias paróquias de Lisboa (São Nicolau, Olivais Sul, Portela e Coração de Jesus) e também pela direção do Centro de Estudos Pastorais, Escola de Leigos e Instituto Diocesano de Formação Cristã.
A pastoral urbana é, aliás, uma das suas áreas de intervenção prioritárias. Está “comme ci comme ça” actualmente em Lisboa, diz o padre Janela, mas acrescentando que o patriarca Rui Valério “leva muito a sério” essa dinâmica. E não tem dúvidas: “O primeiro que teve essa visão” da cidade como um conjunto para definir a estratégia pastoral foi o padre Felicidade Alves, quando foi para a paróquia de Belém, antes de entrar em conflito com o Governo ditatorial e acabar por ser demitido da paróquia pelo cardeal Cerejeira e, mais tarde, abandonar o ministério de padre.
“Nos últimos anos, tem havido a preocupação de se considerar a cidade como um todo e não com feudos”. Mas o que falta para dar passos concretos nesse sentido? “É a sinodalidade”, responde António Janela.
Hoje, aos 85 anos, o antigo assistente da JEC acompanha o Movimento Vida Ascendente, destinado aos mais velhos, e as Equipas de Casais de Nossa Senhora, movimento de casais católicos. “A pirâmide etária mudou: para cada 100 jovens, há 182 [pessoas] maiores de 65”, recorda.
Residindo, num registo otimista, na casa do clero, faz-se acompanhar de uma inseparável bengala: “Serve para três coisas: para não cair; nos transportes públicos tenho sempre lugar; e é a minha forma de evangelização”, pela proximidade que cria e pelo acolhimento que já permitiu conversas “muito interessantes”.
A entrevista pode ser ouvida na íntegra na página da TSF.










