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Le Trio Joubran, música, Palestina
Capa do disco "At Dawn", da banda palestiniana Le Trio Joubran.

Músicas pela paz (22)

O sabor das azeitonas na Palestina destruída

| 19/07/2026

O 7MARGENS procura chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Mais um capítulo da série Músicas pela paz que, sem qualquer intuito antológico, traz desta vez um grupo palestiniano constituído por três irmãos, Le Trio Jourban.

 

Os três irmãos palestinianos que compõem o Le Trio Joubran (Samir, Wissam e Adnan Joubran) pediram a Roger Waters (ex-Pink Floyd) que compusesse a parte central de Carry The Earth (“Carregando a Terra”), que começa com o som do mar na praia. O título da música tem origem num poema do poeta Mahmoud Darwish (1941-2008), uma das vozes mais importantes da poesia palestiniana: “Os mortos que morrem para carregar a terra depois de as relíquias terem desaparecido.”

A música é uma homenagem a quatro jovens primos assassinados por forças israelitas enquanto jogavam futebol na praia de Gaza, em 2014. “Rapazes, os rapazes das mães,/ os rapazes dos pais,/ os vossos rapazes,/ mas também, no fim,/ os nossos rapazes também,/ os nossos rapazes,/ todos os nossos rapazes.” A música e o disco pretendem ainda ser um tributo aos “que morrem pela sua terra e carregam a terra com a sua morte, a todas as crianças deste mundo que sofrem com o exílio, com a ocupação, com a pobreza”, bem como aos povos indígenas de todo o mundo e aos direitos dos palestinianos.

Hoje, Gaza continua a ser morta por um regime e um governo que desprezam os mais elementares direitos. The Long March (“A Longa Marcha”), último álbum do grupo, já com alguns anos, serve-nos uma música por vezes hipnótica (The Hanging Moon, “A lua suspensa”), por vezes melódica, triste e dançante (The trees we wear, “As árvores que vestimos”) por vezes arrebatada (Our Final Songs, “As nossas últimas canções”) – trazendo-nos o deserto, abraços sofridos, estradas de escombros ou olhares de esperança. Sempre com os ouds no centro de uma música onde entram sintetizadores, flautas, piano, cordas – e vozes.

A The Long March seguiram-se vários singles: Ascent (2021), Alternative Silence (2024) e At Dawn (2024). Neste último, o poema fala da planície e de azeitonas (e que sabor ouvir alzaytūn, em árabe…), que mantêm a grande qualidade musical. “O Trio Joubran, na sua exuberância brilhante e ardente, transmite uma mensagem: a Palestina está viva”, disse Brian Eno, que produziu o álbum.

Uma das vítimas da destruição dos colonos e do exército israelita em Gaza e na Cisjordânia são milhões de oliveiras plantadas durante décadas pelos palestinianos – árvores que “vestem” famílias e foram destruídas pelo ódio militarizado. Em Time Must Go By (“O tempo tem de passar”), com parte de um poema de Mahmoud Darwish, o próprio autor declama (e vale a pena reproduzir boa parte do poema):

Passará muito tempo até que o nosso presente se torne passado, tal como nós
Caminharemos para a nossa morte; antes disso, defenderemos as árvores que nos vestem
E o sino da noite, a lua que, sobre as nossas cabanas, tanto ansiamos
(…) defenderemos o barro dos nossos oleiros
E as nossas penas nas asas das últimas canções
Daqui a pouco, erguerão o vosso mundo sobre o nosso
A partir dos nossos cemitérios, abrem caminho para o satélite (…)
De um pedaço de carvão brota o champanhe dos poderosos
Lá há mortos e colonatos, mortos e bulldozers
E mortos e hospitais, e mortos e ecrãs de radar que monitorizam os mortos (…)
E os mortos morrem para carregar a terra sobre os restos mortais
Para onde, senhor dos brancos? Levas o meu povo e o teu povo.

Títulos: The Long March, Ascent, Alternative Silence, At Dawn
Autores: Le Trio Joubran
Disponíveis nas plataformas digitais

 

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