Em memória de Manuela Mendonça
As tradições dignas não são traições. São antes esporas usadas pelo Espírito Santo para nos picar a consciência, incitando-nos a seguir o bom caminho, tal como nos ensinou o poeta Gerard Manley Hopkins. Instrumentos de futuro e de esperança, nunca serão bolor passadista nem ferramentas de manipulação, usadas para exibir uma identidade inventada, na realidade oca e até perigosa. Em Alegrete, vila do concelho de Portalegre, houve esse entendimento. Um grupo de cidadãos conscientes e devotos da memória ancestral da terra, resolveu recriar uma tradição extinta há cerca de 90 anos: a “dança das ciganas” em louvor de Nossa Senhora da Alegria e em diálogo com ela. Fizeram-no no preciso momento em que, à bela placa de boas-vindas à localidade, quase encostada à fronteira, foi sobreposto o cartaz enorme de uma força política que tem defendido a submissão e mesmo a exclusão maniqueísta dos ciganos.
O rei David dançou perante a chamada Arca da Aliança. No segundo Livro de Samuel, capítulo 6, conta-se que o monarca dançou “com todas as suas forças perante o Senhor […] enquanto ele e todos os israelitas levavam a arca do Senhor ao som de gritos de alegria e de trombetas”. Nem todos apreciaram, contudo, a sua atitude: “entrando a arca do Senhor na Cidade de David, Mical, filha de Saul, observava de uma janela. E, ao ver o rei Davi dançando e celebrando perante o Senhor, ela desprezou-o em seu coração” (2 Samuel 6, 14 – 16). Há sempre quem se sinta incomodado perante a alegria alheia, mesmo que se relacione com a presença de Deus entre os homens. Ou por isso mesmo…
A tradição de Alegrete talvez junte uma longínqua reminiscência desta narrativa a outra história milenar, não registada no Novo Testamento. Foi representada, visualmente, por vários artistas ibéricos, nomeadamente os pintores André de Morales e Josefa de Ayala, dita Josefa de Óbidos, em pinturas executadas no século XVII e hoje patentes na igreja da Santa Casa da Misericórdia de Santarém e no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Há vestígios dela no Alto Alentejo, segundo assegura Luzia Aurora Rocha num estudo dedicado ao assunto. Conta-se que a Sagrada Família, na sua fuga e refúgio no Egipto, terá merecido bom acolhimento de uma comunidade cigana aí residente. Nessas pinturas, vemos membros femininos e infantis da comunidade romani (chamados gypsies ou gitanos, como lembrança desse Egipto longínquo), com os seus característicos chapéus, a dar carinho a Jesus menino, Maria e José, com música, oferta de bens e leitura da sina. Daí nasceram representações da Mãe do Redentor como cigana, envergando o mesmo género de indumentária, nomeadamente na pintura de Luis de Morales, dito el Divino, pintor de Badajoz, a escassas dezenas de quilómetros de Alegrete.

Durante uma epidemia, a aflição do povo levou à colocação da imagem da Senhora da Alegria sobre as muralhas da localidade. Uma das famílias salvas era de etnia cigana e terá originado a promessa de, anualmente, se oferecer à Mãe do Salvador uma dança plena de júbilo e súplica. Foto © Helena Trindade.
De nada disto fala, contudo, a tradição da vila que, até meados do século XIX, foi sede de um pequeno concelho fronteiriço. Relata, antes, que durante uma epidemia (peste) a aflição do povo levou à colocação da imagem da Senhora da Alegria sobre as muralhas da localidade (ainda hoje quase intactas). Uma das famílias salvas era de etnia cigana e terá originado a promessa de, anualmente, se oferecer à Mãe do Salvador uma dança plena de júbilo, de acção de graças e de súplica. O voto foi concretizado até às primeiras décadas do século XX. Recuperou-se agora, graças à atenta iniciativa do Grupo de Intervenção Patrimonial de Alegrete, integrado na centenária Sociedade Recreativa e Musical Alegretense, dinamizado pelo presidente da sua assembleia geral, o educador Francisco João Pacheco.
Depois de transitar pelas ruas históricas de Alegrete, a procissão estacou na Praça, junto do coreto. Perante centenas e centenas de pessoas, os andores pararam. Abriu-se uma clareira. Elevou-se a voz emocionada de Francisco Pacheco, dirigindo-se ora aos seus conterrâneos e amigos da vila, ora à imagem da Virgem, uma obra em tamanho quase natural, vestida com rica indumentária e ornada de ouro e prata, fazendo lembrar um dos salmos do Antigo Testamento. Enquadrou a iniciativa. Historiou a tradição. Lembrou a Maria a sua acção determinante no afastamento da peste, há tantos séculos, e incitou-a a interceder pelo povo (português, depreendeu-se), afastando-o dele uma outra peste, agora bem patente: aquela que exclui os indesejados, que recusa a diversidade cultural e vivencial, que divide os seres humanos entre dignos e indignos, que açula pessoas contra pessoas, explorando ressentimentos e inquietações para atingir um poder político avesso à inalienável dignidade de cada ser. Antes da dança, ensaiada e conduzida musicalmente pelo casal Manuel e Fernanda Braga, executada por nove mulheres entre a pré-adolescência e senectude, que não tiveram medo de vestir-se de ciganas, o aplauso às palavras de Pacheco foi imenso. (Esperemos que seja um aplauso consequente!). Com maior ou menor consciência, quem ali esteve parece ter percebido que não há culto sem cultura e que não existe cultura sem interculturalidade e abertura sensível ao Outro e aos outros.

A dança foi ensaiada e conduzida musicalmente pelo casal Manuel e Fernanda Braga, e executada por nove mulheres, que não tiveram medo de vestir-se de ciganas. Foto © Ruy Ventura
Os membros da Ordem dos Frades Menores estiveram no Alto Alentejo entre o século XIII e o século XIX. A devoção à Senhora da Alegria e às alegrias ou prazeres da Virgem Maria terá sido enxertada por esses religiosos. Não há, contudo, vestígios dela anteriores a meados do século XVIII. Acredita-se que foi enxertada pelos membros de várias comunidades de leigos integradas na Ordem Terceira de São Francisco, cujo oitavo centenário da morte agora se comemora. Lembra-nos “a verdadeira e perfeita alegria” apresentada pelo santo de Assis num dos seus escritos. É inseparável da dor e da paciência que todos devemos ter quando se trata de enfrentar as dificuldades da vida, por maiores que sejam. Se o culto à Virgem Mãe da Alegria está patente em Carreiras (Portalegre), Castelo de Vide e Alter do Chão, tendo desaparecido da cidade de Portalegre, tal devoção à alegria materna de Maria só em Alegrete mantém a sua face dolorosa. Não é por acaso que a mesma imagem mariana, jubilosa na maior parte do ano, é vestida de luto na Quaresma e assim acompanha a imagem do Filho com a cruz às costas, numa procissão anual.
Toda esta memória viva foi recuperada em Alegrete neste ano de 2026. Até uma exposição se montou nos dois pisos da casa paroquial, juntando o sagrado ao profano – que são, como se sabe desde o famoso livro de Mircea Eliade, faces indissociáveis da mesma realidade religiosa. Sementes de esperança foram lançadas ao terreno fértil da Raia alto-alentejana, na Serra de São Mamede. Esperemos que o futuro as faça crescer e dar fruto!
Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra) e poeta, organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada pela Officium Lectionis e um dos responsáveis pela exposição referida no artigo.










