Ruy Ventura

Morrer da cura

Morrer da cura Luís não chegou ainda aos quarenta. É solteiro e vive só. Habitando com os pais a mesma cidade, decidiu decretar a sua independência comprando há uns anos um exíguo apartamento. Está agora confinado em casa. Não pode visitá-los, pois tem medo de contaminá-los ou de ser contaminado por eles. Afinal, a mãe ainda trabalha num centro...

Apesar de tudo, a liberdade

Apesar de tudo, a liberdade   Sinto a doença à minha volta e à volta dos meus. E, nesta reclusão involuntária, lembro-me de Trujillo e de suas altas torres. Não de todas, mas de uma que, na sua delgada altivez, se assumiu como mirante. A terra de Pizarro sempre me pareceu estranha. À sua volta quase não distinguimos vegetação e, no meio da...

A grandeza do ínfimo

A grandeza do ínfimo   Há obras de arte que nos incomodam e nos comovem. Creio aliás que uma pintura, uma escultura, um poema, um romance, uma partitura ou outro meio expressivo encontrado pela espécie humana que não incomode e comova nunca passará de um artefacto, por maior que seja a perícia técnica do executante. Acontece o mesmo com os...

Elogio de um submarino

  O mundo está cheio de torrentes. Algumas de água limpa. Outras muito turvas, com lama e detritos. Há mesmo extensões que, de tão largas, não deixam ver as margens se nos colocarmos no meio do leito. O afastamento é demasiado largo, profundo. E quem assim se vê afastado não se conhece, torna-se hostil ao outro, pensa em combates,...