Acabo de ler o diário de um criminoso: Jacques Fesch (1930-1957). Felizmente, foi traduzido e editado em Portugal pelas edições Lucerna, de Cascais (2023). Embora o título, uma frase do autor usada na edição francesa, seja bastante fraco e possa afastar alguns leitores (“Daqui a cinco horas vou ver Jesus”), é dos mais tocantes documentos humanos e espirituais que pude ler nos últimos tempos.

Proveniente de uma família “de bem”, trilhou caminhos em que a maldade ou o desgoverno tomaram a dianteira. Fez assaltos e no último, em circunstâncias que até poderiam ser atenuantes para si, matou um polícia. Foi preso, confessou tudo, condenaram-no à morte por decapitação com guilhotina. O seu castigo tinha de ser exemplar, num país que tem a arrogância de proclamar a liberdade, a igualdade e a fraternidade aos quatro ventos, esquecendo os fundamentos desses valores e as suas consequências.
Fesch aceitou o castigo e, nos últimos meses, converteu-se radicalmente, compreendendo até o pior que estava para lhe suceder. Mudou a vida de muita gente. Foi executado na madrugada de 1 de Outubro de 1957, em paz.
Ninguém fica indiferente à medida que vai lendo as páginas do seu diário, legado a sua filha. Confessa a cada passo a sua fraqueza, sentindo-se angustiado ao verificar que a sua alma “é um camaleão”. Cada um de nós poderia dizer o mesmo.
Recordo que Cristo só canonizou um homem, garantindo-lhe o paraíso: um criminoso que foi crucificado ao Seu lado, sentiu compaixão por Ele e soube admitir os seus erros passados. Ninguém mais mereceu tal honra. Só Dimas, se Dimas se chamava. Nenhum dos “perfeitos” do seu tempo…
A Igreja francesa abriu o processo de beatificação e canonização de Jacques Fesch. Se chegar aos altares, e Deus queira que suba, teremos nas igrejas a imagem do “santo assassino” (Também Paulo matou gente… e Pedro puxou da espada para matar, ferindo um soldado…).
Num tempo em que há gente a dizer-se crente ao mesmo tempo que divide as pessoas entre aqueles que são “de bem” e aqueles que “não prestam”, traindo os mais elementares ensinamentos de Cristo, o diário de Fesch, assassino de um polícia, dá que pensar. Move-nos e comove-nos. Quem puder garantir que, nas mais nefastas circunstâncias, não vai cair no crime, recuse o exemplo do “bom ladrão” e deste jovem francês. Abstenha-se de ler este texto tão incómodo. Siga, soberbo, a sua existência…
Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra), poeta e organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada no dia 10 de abril pela Officium Lectionis [ver 7MARGENS].










