Estamos no início da Quaresma cristã. Abundam as palavras. Abundam os chavões. Abundam as palavras vazias ou esvaziadas. Os discursos. As homilias. As meditações. As prelecções. As pregações. As mensagens. Fortes, fracas ou assim-assim. Talvez seja apenas eu a senti-lo, mas falta-nos a abundância do silêncio, tanto exterior quanto interior.
Recordo, de cor, Agostinho de Silva: “Já se escreveu demasiado. Faz falta agir. Não acha?” Acho. Penso. Sinto. Já se falou demasiado. Fala-se demasiado. Tantas palavras sobrepostas acabam por se transformar em ruído. Ou em música de fundo, que dispensa a escuta, sobretudo a escuta consequente.
Anseio há muito por uma Igreja que, além dos ritos absolutamente necessários e da Palavra essencial vinda da Escritura, faça silêncio. Silêncio pedindo perdão pelas suas infidelidades e pelos seus pecados. Silêncio respeitando e dando espaço ao diálogo interior de cada um com Ele. Silêncio atento, contemplativo e fecundo. Silêncio gerador de reflexão e comoção. Creio profundamente: se esse silêncio existir ou existisse, Deus falar-nos-á ou falar-nos-ia de outro modo, usando outras linguagens.
Não existirá um sentido-outro no versículo 40 do capítulo 19 de São Lucas? “Se eles se calarem, as pedras clamarão.” Se nos calarmos, não ouviremos o clamor das pedras, de tudo quanto nos rodeia, inclusive da morte corporal e do perdão (se bem entendo São Francisco de Assis)? Não escutaremos melhor a bondade, a beleza e a verdade? Não sentiremos de outro modo os gritos que nos rodeiam e tentamos abafar porque nos incomodam?
Este texto, admito-o, é ele mesmo um paradoxo, pois recusa o que aconselha. Assume-se, não obstante, como proposta, dirigida antes de mais a quem a escreve, como se olhasse o seu rosto no espelho. E se te calasses? E se nos calássemos? Que louvor e que súplica bem mais fortes poderíamos dirigir a Quem, decerto, nos escuta? Que palavras inefáveis nos tocariam – modificando os nossos passos peregrinos e o nosso agir neste mundo perigoso onde nos foi dado viver? Não será esse o melhor jejum nas próximas semanas?

“Como se olhasse o seu rosto no espelho. E se te calasses? E se nos calássemos? Que louvor e que súplica bem mais fortes poderíamos dirigir a Quem, decerto, nos escuta?” Foto © Miguel Veiga
Ruy Ventura é poeta e historiador de arte
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