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Cânticos do Cântico, livro, poesia,
Pormenor da capa de Cânticos do Cântico, uma antologia organizada por Ruy Ventura, historiador e poeta, a propósito dos 800 anos do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis.

Cântico das Criaturas, 800 anos – antologia poética

Francisco de Assis: uma língua, uma voz de fogo

| 04/10/2025

 

Cânticos do Cântico é uma antologia organizada por Ruy Ventura, historiador e poeta, a propósito dos 800 anos do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis – cuja festa litúrgica se assinalou neste sábado, 4 de Outubro. A obra, publicada pela Officium Lectionis com o apoio da Província Portuguesa da Ordem Franciscana, presta ainda homenagem ao Papa Francisco, que há dez anos publicou a encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum.

A antologia inclui 40 poemas de 40 autores de língua portuguesa e espanhola, originários de três continentes, crentes e descrentes, católicos e não-católicos, de diferentes sensibilidades sociais e políticos, consagrados na literatura e desconhecidos e ainda leigos ou consagrados no âmbito religioso. Entre os portugueses, contam-se António Cândido Franco, Carlos Poças Falcão, Joaquim Félix de Carvalho, José Luís Peixoto, José Mário Silva, José Rui Teixeira, Maria Teresa Maia Gonzalez ou Rui Almeida. Dos outros países, incluem-se por exemplo Abel Inácio Quitaia (Cabo Verde), Alexandre Faria e Ozias Filho (Brasil), Álvaro Valverde e Rafael Ángel García Lozano (Espanha), José Kozer (Cuba / EUA), ou Ronaldo Cagiano (Brasil / Portugal). O livro inclui ainda uma versão de Ruy Ventura do Cântico das Criaturas. O 7MARGENS publica a seguir alguns excertos do ensaio que acompanha a antologia.

Cânticos do Cântico, livro, poesia, Que direi do chamado Cântico das Criaturas? Nada. Ou quase nada. Reconheço que “não precisa de apresentação. […] Qualquer comentário não faria senão empobrecer a fulgurante riqueza desta oração-poema”. Assinalo, ainda assim, com o franciscano Frei David de Azevedo, o seu transporte divino, patente num íntimo e comovente vocativo, a sua fraternidade, a transbordante gratidão que aí podemos ler e o seu “realismo optimista” (espelhado em Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa), sem esquecer uma subtil mudança de alvo, operada nesse monólogo aparente, para que todos se sentissem e sintam tocados por esse discurso irradiante e entusiasmado.

Quando alguém pensa em Giovanni di Pietro di Bernardone (c. 1181 – 1226), em São Francisco de Assis, no Poverello casado com Dona Pobreza e com a mais radical pequenez e subalternidade, raramente se lembra de ver nele um Francesco scrittore. Não obstante, ainda que tal face nunca tenha passado à sua iconografia, tal como assinala o autor supracitado, vale a pena encará-lo também por esse lado.

Francisco considerava-se um “homem simples e sem letras” ou, noutra tradução, um “ignorante e sem letras” (Carta a toda a ordem, 39). Procurava dar clareza às suas palavras, dizendo e escrevendo “pura e simplesmente” (Testamento, 39). Rejeitava os artifícios da retórica e das convenções. Diz-se, aliás, que desconfiava da erudição estéril. Talvez por isso, ao manifestar a Santo António de Lisboa e Pádua o seu gosto pelo ensino da teologia aos frades, não deixou de alertá-lo para a possibilidade de o “estudo […] exting[uir] neles o espírito da santa oração e devoção” (Cartas). Deu-nos uma “obra visceralmente pessoal”, segundo Frei David. Se os seus escritos, na leitura deste autor, nasceram “dos acontecimentos” e foram, por isso, ocasionais (ou, melhor dizendo, circunstanciais), interessa pouco. Ao contrário do que sugere, não sabemos se foi ele ou não quem decidiu escrever. O importante é ter dito e escrito o que chegou aos nossos dias. Embora bissextos, os seus textos são expressão de uma vontade e de uma necessidade. Tiveram destinatários individuais e/ou colectivos. Corresponderam a desejos interiores, de admoestação, de confronto, de conforto, de consolo, de louvor e de gratidão. De comunicação, enfim.

Certo dia, “o bem-aventurado Francisco chama o irmão e diz-lhe: «Traz-me papel e tinta, porque desejo escrever palavras do Senhor e os louvores que meditei em meu coração». Tendo recebido o que pedira, escreveu pelo seu punho os louvores de Deus e as palavras que entendeu […]” (T. Celano, Vida Segunda, 49 – 4). Entregou-as a Frei Leão. Chegaram até nós, numa incessante cadeia de acolhimento, de transmissão e de sentido, de produtransmissão (para usar o termo cunhado por João David Pinto Correia).

São Francisco de Assis

Giotto, São Francisco a falar às aves.

Os textos de Francisco serão portas, pontes, ancoradouros? O chamado Cântico das Criaturas não deve ser entendido como texto isolado, mesmo sendo um dos cumes mais altos da capacidade expressiva desse homem descalço, roto e remendado, que recorria à “animação gestual e a palavras de fogo”, quando se tratava de arrastar os seus semelhantes “às alturas celestes” (T. Celano, Vida Segunda, 107, 1 – 2). Conta-nos um dos seus biógrafos mais antigos que “recorria a expressões comezinhas e de fácil alcance, sabendo haver mais necessidade de virtudes que de palavras”, mas, “entre pessoas espirituais e cultas, tirava do coração palavras profundas, que davam vida” (idem). Lutava, ainda, contra a tristeza, “mal babilónico” que só poderia (poderá) ser lavado e afastado com lágrimas, evitando-se a sua instalação “no coração como ferrugem corrosiva” (T. Celano, Vida Segunda, 125, 10). “Toda a sua pessoa […] era uma língua […]” (T. Celano, Vida Primeira, 97, 4) – um texto existencial, escrito e performativo, radicalmente assumido, não de um ponto de vista egótico, mas levando às últimas consequências o Eu-Tu construído numa relação íntima com Deus, com a Natureza e com a Humanidade.

Se podemos ler o Cântico por si só – e com isso ganharemos bastante –, melhor faremos se o acolhermos na sua cadeia textual e espiritual, uma verdadeira catena aurea. Será bom entendê-lo como apreensão, retransmissão e enriquecimento de um outro louvor da criação, escrito muitos séculos antes por Santo Agostinho nas suas Confissões (XIII, 32). É possível imaginar Frei António, teólogo agostiniano formado em Lisboa e Coimbra, a falar-lhe desse texto. À beleza enaltecida pelo bispo de Hipona no seu poema epistolar somou Francisco o valor magno da fraternidade – e uma linguagem chã, agarrada ao húmus que os seus pés desnudos pisavam. Talvez não entendamos o Cântico em pleno se não meditarmos, a seu lado, os Louvores ao Deus Altíssimo, a Exortação ao louvor de Deus, os Louvores a dizer antes de todas as horas e, ainda, a Saudação às virtudes.

Confesso, todavia: o que mais impressiona são, todavia, as circunstâncias em que surgiram alguns destes gritos de louvor. Os Louvores ao Deus Altíssimo, por exemplo, surgiram em 1224, na sequência da sua estigmatização. Já o Cântico veio em 1225, quando estava doente em San Damiano, quase cego. Chagas e muitas dores… e, ainda assim, louvor, porque, segundo ditou a Frei Leão, a mais perfeita alegria – “a verdadeira alegria e também a verdadeira virtude e o bem da alma” – está em aceitar tudo isso (e muito mais) “com paciência e sem ter perdido a calma” (A Verdadeira e Perfeita Alegria, 14).

São Francisco de Assis

Giotto, Francisco renuncia às vestes.

No final do seu poema, Francisco louva o seu Senhor pela existência da “nossa irmã a morte corporal, à qual nenhum homem vivente pode escapar”. Ao compor esta frase, pensou decerto nas palavras do Mestre: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” (Mt 10, 28). Talvez tenha lembrado uma passagem das Confissões de Agostinho, onde se pede “a paz tranquila, paz do sábado que não entardece”, pois toda a “ordem formosíssima de seres excelentemente bons, há-de passar, depois de realizados os seus modos de existência” (XIII, 35).

Sejam quais forem as circunstâncias, a exaltação é sempre possível. Recordo, por exemplo, uma passagem dos escritos de Etty Hillesum (1914-1943). A poucos dias de morrer num matadouro nazi – e tendo plena consciência desse destino do seu corpo –, ainda assim louvava o esplêndido azul do céu, sobreposto às trevas circundantes e ao cheiro intenso a carne humana incinerada. Quem louva o seu Senhor pela finitude do corpo – colocando a morte no mesmo planalto onde se encontrou com todas as criaturas, “especialmente” o sol, a lua, as estrelas, o vento, o ar, as nuvens, o sereno, todo o tempo, água, fogo, terra, mas também aqueles que perdoam e suportam em paz as enfermidades e as tribulações – apresenta um caminho de libertação do mal, causado pela “segunda morte”. Nem todos os irmãos humanos dão origem ao louvor de Francisco. Apenas os corajosos: os que perdoam pelo amor divino; os que suportam em paz; os que cumprem a vontade superna. A cobardia, a impaciência, o desespero, o titanismo – não têm lugar na sua acção de graças. Por isso mesmo nos aconselha: “Louvai e bendizei… e dai graças e servi-O com grande humildade”. Na derradeira palavra estará resumido o Cântico: humildade. Humildade – abundância de húmus, garante da fertilidade da “irmã nossa mãe terra, a qual nos sustenta e nos governa e produz diversos frutos com coloridas flores e ervas”.

G. K. Chesterton, na obra que dedicou ao santo, avisou-nos: esse louvor “não poderá ser compreendido enquanto for identificado com o culto da natureza ou com um optimismo panteísta”. Deve, antes, ser visto como expressão “de enorme gratidão e de sublime dependência”, como “fundamento de toda a realidade”, o contrário de qualquer espécie de fantasia. É, quanto a nós, uma expressão eloquente de humildade. Responsabiliza quem lê, quem escuta – e quem escreve.

Confrontando-se com outro poeta em Marca de Ancona, Francisco encontrou alguém “prostituído completamente à vaidade”, “enredado nos laços da vanglória”. Chamava-se Guilherme Divini. Segundo conta Celano, “chamou-o à parte e admoestou-o com mansidão acerca das vaidades e do desprezo do mundo e, por fim, trespassou-lhe o coração”. O vate respondeu-lhe: “Para quê mais palavras? Vamos a obras. […] devolve-me ao grande Imperador”. Foi depois desse acontecimento, dessa mudança de vida, que o poeta, já então chamado Frei Pacífico, pôde ver na fronte de Francisco “um grande Tau de círculos ocelados e multicores” (T. Celano, Vida Segunda, 106): a derradeira letra do alfabeto hebraico que o Poverello tomaria como assinatura sua. Não será exagerado nem anacrónico dizer-se que o poeta foi transverberado pela Poesia (se a entendermos ao modo do poeta português Sebastião da Gama (1924 – 1952), como um dos nomes de Deus), deixando-se espicaçar pelo Poverello e pela sua esposa, Dona Pobreza.

Poesia, N'alma escrito, Agostinho da Cruz

Ilustração da capa do livro N’alma escrito, de Frei Agostinho da Cruz

“Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa mãe terra, a qual nos sustenta e nos governa e produz diversos frutos com coloridas flores e ervas”. Os poemas talvez nasçam da terra e sejam fertilizados pela humildade. Devem pertencer à classe das ervas, daquelas ervas indispensáveis que é necessário deixar crescer à vontade nos canteiros, nesses lugares de germinação de sementes e de flores, de canto vegetal. Afinal, na vida tal como na leitura e na escrita, “não há melhor manjar que liberdade”. Frei Agostinho da Cruz (1540 – 1619), um poeta franciscano, sabia do que falava. Aprendeu com seu pai, São Francisco de Assis, que soube entender como poucos o que são a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

 

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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