A curta distância, de apenas alguns meses, a obra poética de Sebastião da Gama chegou-nos por intermédio de dois livros: uma antologia, edificada com uma centena de poemas, e a colectânea – monumental e magistral – que nos oferece a sua poesia reunida. Qualquer das obras foi buscar os seus títulos a textos do autor: Por Mim Fora e O Inquieto Verbo do Mar.
Qualquer delas procura servir a obra deste jovem, falecido aos 27 anos. Como “cigarra que se preza”, teve a graça e deu-nos a graça de não “morrer a meio da canção”. Qualquer dos livros demonstra a veracidade das palavras de Ruy Belo: “a poesia faz-se com poemas e não com poetas”. Por mais toponímias que modifiquemos, por mais medalhas que atribuamos, por mais monumentos que levantemos, por mais murais que pintemos ou mandemos pintar, por mais conferências, congressos e colóquios que organizemos, por mais lançamentos que proponhamos – nada vale tanto quanto o acto, basilar, de colocar à disposição do maior número possível de leitores a obra plural e polifacetada de um autor. O resto é circunstancial, acessório, instrumental – e, demasiadas vezes, supérfluo ou até perdulário, apesar de tentador. Disso ficará pouco ou nada.
Convenhamos: quem lembra hoje as ferramentas que desenterraram uma obra de arte de que agora não prescindimos, os instrumentos que lhe deram forma ou trataram de transportá-la até ao museu onde, deleitados e enlevados, a contemplamos? Ninguém! Ficou-nos ela, só ela, a obra – e pouco mais! Assim sucede também na literatura e na poesia. Sem ferramentas, não a teríamos nas nossas mãos, nos nossos olhos, nos nossos ouvidos e no nosso pensamento. Neste processo, devemos ainda recordar aqueles seres que no-la apresentaram – tão importantes quanto aquele amigo que um dia, sem saber, nos apresentou aquela que seria, mais tarde, a nossa mulher amada.
Para isto servem os livros de que vos falo – para nos apresentar e dar a ler Sebastião da Gama. É bem verdade que, no caso do poeta de Vila Nogueira, temos também um ser humano e um docente exemplar, polido (convenhamos) por uma morte muito precoce que, talvez graças a Deus, não o submeteu ao envelhecimento pessoal, profissional e artístico. O que mais interessa é, todavia, o que escreveu, os seus poemas, os seus ensaios, as suas crónicas, as suas cartas, o seu diário. E, deles, o incómodo que nos causam ou deveriam causar, estética e eticamente falando. Se tal não suceder, se não formos incomodados pelo que deixou escrito, não vale a pena continuarmos a frequentá-lo e a prestar-lhe homenagem. Digo-o em relação a Sebastião, mas também o digo em relação a qualquer escritor ou poeta ou artista, em sentido lato, digno desse nome.
A antologia que hoje aqui se apresenta nasceu de 35 anos de leitura, desde os dias adolescentes acontecidos sob a larguíssima ramaria do enorme plátano do Rossio de Portalegre às horas dolorosas vividas num apartamento de refúgio temporário, situado numa das mais movimentas avenidas de Setúbal, perto do santuário do Bonfim. Refiro este pormenor circunstancial, respeitante apenas à biografia irrelevante do poeta que seleccionou a centena de poemas do livro Por Mim Fora, porque este volume foi, de facto, um bom fim. Bom fim – porque veio a lume no dia exacto em que se cumpriu o centenário do nascimento de Sebastião da Gama. Bom fim – porque chegou a bom porto, vendo-se publicado numa das melhores editoras de poesia deste país, a Officium Lectionis, do Porto. Bom fim – porque congregou o apoio dos dois municípios mais importantes na biografia de Gama, Estremoz e Setúbal. Bom fim – porque juntou também dois amigos, Ruy Ventura e João Reis Ribeiro. Os livros também se fazem de amizade, exprimindo-a discretamente.
Foram 35 anos de leitura, de adesão, de progressiva compreensão, de confronto com a chave de Sebastião da Gama. Se, em 2016, pude editar o meu entendimento dessa “chave” que abre “as portas verdadeiras”, com esta antologia reafirmo o pensamento de então, reeditando-o em parte, por ter confirmado quanto encontrara na obra surpreendente – e nada espontânea! – do meu vizinho de Azeitão. Confesso-vos: apesar de já conhecer de relance os poemas publicados por João Reis Ribeiro na obra reunida, dada à estampa na Assírio & Alvim, fui reler todos os dispersos e inéditos, com medo de ver contrariado nalgum poema o meu juízo, que alguma urticária causou, levando leitores e intérpretes (felizmente, poucos) a fazer à poesia de Sebastião o mesmo que sucedeu a certa personagem de Italo Calvino, o “visconde cortado ao meio”. O medo era, contudo, injustificado.

Sebastião da Gama olhando a Arrábida: espiritualmente ao lado de Péguy, Dylan Thomas, T. S. Eliot, Gerald Manley Hopkins ou Cinatti. Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama.
O título desta antologia, retirado do poema “Itinerário”, diz quase tudo, se lido em plenitude: “Meu caminho é por mim fora / té chegar ao fim de mim / a encontrar-me com Deus.” É essa a sua chave. É ela que abre a porta da sua poesia e do seu pensamento (e até da sua postura cívica de “poeta incómodo” e “poeta subversivo”, como lhe chamei em dois artigos, encomendados pelo jornal O Setubalense e pela revista Seara Nova). A paráfrase das primeiras frases do Evangelho segundo São João, patente na sua tese de licenciatura, onde identifica o Verbo / Lógos divino com a Poesia, não deixa margem para dúvidas. A partir daí, abre-se um poeta que se agiganta e que podemos pôr espiritualmente ao lado de Charles Péguy, Dylan Thomas, T. S. Eliot, Gerald Manley Hopkins, Ruy Cinatti, Daniel Turcea e dos seus pais poéticos, Teixeira de Pascoaes e José Régio. A antologia comprova-o e a obra reunida com grande competência por João Reis Ribeiro confirma-o. Negá-lo é mascarar Sebastião e atrofiá-lo, mumificando-o – algo que só pode merecer a nossa repulsa, pois estamos perante um autor eternamente jovem, de cara lavada, corpo atlético e bem vivo!
Se “Deus” é hoje uma palavra mal frequentada – e o mesmo se pode dizer de vocábulos como “espiritualidade”, “religião” e, não nos espantemos, “arte” e “poesia” –, Sebastião da Gama é um dos autores que nos dá uma visão purificada desses termos e do seu conteúdo mais profundo: uma visão aberta, de par em par, sem preconceitos. Usando uma expressão muito em voga nos meios eclesiais, e abusando descaradamente dela, podemos dizer que o azeitonense construiu uma poesia consequente, que nos obriga a tirar consequências da sua leitura, uma poesia “em saída”. Recordo, a título de exemplo, um poema gerado nesta rua principal da sua terra: “Lá fora é que sim / me apetece estar. / Não ao pé do altar, / Virgem de Belém. // E se eu for lá p’ra fora?… / Amava-te igualmente… / Só o modo era outro / de rezar e ser crente. // Lá fora também andas / sem manto, sem coroa, / simples, Nossa Senhora! / Que mais linda és lá fora! // […]”.

Sebastião da Gama: “Meu caminho é por mim fora / té chegar ao fim de mim, / a encontrar-me com Deus”… Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama.
“… por mim fora / té chegar ao fim de mim, / a encontrar-me com Deus”… Nada existe de introversão nesta proposta, embora haja, como condição, o necessário recolhimento interior. Encontrar-se com Deus é, como nos ensinou o filósofo judeu Martin Buber, encontrar-se com o Outro nos outros, transformando o Eu em Eu-Tu e destruindo, assim, o Eu-Isso que menoriza os nossos semelhantes – e até Deus e a Natureza – dando-lhes o estatuto de objectos descartáveis. Estaremos nós disponíveis para este encontro? Se a resposta for positiva, a receita também a escreveu Sebastião, no seu poema das três virtudes teologais, “O Sonho”: “Basta a fé no que temos. / Basta a esperança naquilo / que talvez não teremos. / Basta que a alma demos / com a mesma alegria, / ao que desconhecemos / e ao que é do dia a dia. // Chegamos? Não chegamos? // Partimos. Vamos. Somos”. Conseguiremos desinstalar-nos – e partir? Conseguiremos persistir nessa decisão – e ir? Seremos capazes de nos ver ao espelho – e ser? Chegaremos? Não chegaremos?
“Meu caminho é por mim fora”… A expressão que escolhi para título desta antologia seria, convenhamos, o melhor título da sua poesia reunida, pois resume com eloquência o que foi o seu percurso como ser, poeta e professor em construção. Não esqueçamos, todavia, qual era a sua meta…
Podemos preferir o Sebastião arrábido, o Sebastião alentejano, o Sebastião irónico e bem-humorado, o Sebastião interveniente e “social”, o Sebastião raparigueiro, o Sebastião quase carnavalesco, o Sebastião confessional, o Sebastião enigmático, o Sebastião mais certinho (se existe) ou o Sebastião destravado, outro Sebastião que descubramos nos seus textos… Não podemos é esquecer o que foi, é e continua a ser no que escreveu, o que abertamente nos propõe. Está escrito – à nossa disposição. Deixemo-nos desinstalar por ele – e saiamos do nosso conforto! Mais tarde ou mais cedo, seremos compensados.
Vila Nogueira de Azeitão, 7 de Dezembro de 2024
Sebastião da Gama
O Inquieto Verbo do Mar – Poesia reunida
Edição Assírio & Alvim, 2024
1200 pág., 44 €
Sebastião da Gama
Por Mim Fora – Antologia
Edição Officium Lectionis
166 pág., 14,84 €
Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra) e organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama.










