
“Continuamos, em pleno século XXI, a assistir a uma clara dicotomia entre o “nós” e os “outros”, entre puros e impuros, entre os eleitos e os perdidos.” Ilustração de Albert Robida (1848-1926), “Jesus come com publicanos e pecadores”.
Entre o querigma do Reino anunciado por Jesus e o nascimento da Igreja, passando pela instituição do batismo e da eucaristia, foi-se tornando cada vez mais evidente aquilo que fundamenta qualquer sistema religioso, ou seja, o sentido de pertença e de exclusão, a divisão entre os que estão dentro e os que estão fora. A afirmação atribuída a São Cipriano de Cartago, e muitas vezes repetida pelos Pais da Igreja, de que extra ecclesiam nulla salus (fora da igreja não há salvação), tem contribuído para delimitar as fronteiras da Igreja.
É preciso salientar que não deixa de ser importante o papel da Igreja enquanto instituição. O modelo eclesiológico dos primeiros cristãos, bastante mais simples na sua essência, identificava-se mais como um movimento daqueles que eram conhecidos por “os do Caminho” (Atos dos Apóstolos 9:2;24:13-16). Jesus, antes da Sua partida para o Pai, soprou sobre eles o Espírito enviando-os em missão pelo mundo (Evangelho de João 20:22). Assim, neste seu estilo de vida, os primeiros cristãos, com uma nova vida, entendiam-se a si mesmos como peregrinos espalhando o Reino, sempre em movimento em direção a um novo mundo que idealizavam como melhor. Mas as expetativas goradas de uma escatologia imediata impuseram a necessidade de uma progressiva institucionalização da Igreja, a qual resultaria numa eclesiologia estruturalmente hierárquica e ortodoxa, isto é, bem delimitada no seu corpo doutrinário e dogmático.
Nos inícios do século XX, um teólogo católico e entretanto excomungado pela Igreja, Alfred Loisy, afirmara certa vez que “Jesus anunciava o Reino, mas o que veio foi a igreja”, expondo assim essa tensão entre o movimento de Jesus e o peso da instituição, com todas as consequências que daí advieram. Muito provavelmente, o Jesus histórico jamais terá tido intenção alguma de formar uma igreja, pelo menos no sentido institucional como a entendemos hoje, fortemente fundamentada em hierarquias ou rígidos sistemas dogmáticos. O grande teólogo jesuíta Karl Rahner, que influenciou o Concílio Vaticano II e que é considerado um dos grandes pioneiros da abertura moderna da Igreja ao mundo, declarou, e muito corretamente, que Jesus é o fundamento da Igreja e não o seu fundador. Também o Cardeal Walter Kasper afirmava que, ao longo do seu ministério público, Jesus nunca falou explicitamente acerca da fundação de uma igreja, mas sim proclamou o Reino de Deus, o qual, encarnado na Sua própria pessoa, se manifestava nas suas palavras e atos. Se até ao grande Concílio Vaticano II a Igreja se apresentava como um grande sistema fechado, monolítico e hostil aos avanços da ciência e ao pensamento crítico, a partir desse momento, fortemente influenciada pelo contributo progressista do pensamento da Nouvelle Theologie — sendo Karl Rahner um dos seus principais representantes –, deu finalmente sinais de abertura ao mundo.
Mas o sentido de pertença e exclusão não é apanágio de uma igreja específica. Os fundamentalismos religiosos, existentes em todos os espectros da vida religiosa, advogam igualmente para si a exclusividade da verdade através de leituras literalistas das escrituras e da alienação das diversas culturas seculares vigentes. Continuamos, em pleno século XXI, a assistir a uma clara dicotomia entre o “nós” e os “outros”, entre puros e impuros, entre os eleitos e os perdidos. Veja-se os recentes fenómenos populistas, nos quais a religião se alia à esfera política, promovendo uma autêntica guerra cultural que recorre, não raramente, a uma retórica de ódio e de exclusão.
Como debater, então, esses limites de pertença e exclusão? Como resolver o confronto entre o dogma exclusivista de certa religião e o Reino preconizado por Jesus, que a todos acolhe e convida à mesa? São notáveis as palavras do Papa Francisco proferidas aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, em Roma, no Angelus, em Setembro de 2021:
“Todo o fechamento, de facto, afasta quem não pensa como nós e isso – sabemos – está na raiz de muitos males da história: do absolutismo que tantas vezes gerou ditaduras e de tantas violências contra quem é diferente”.
De referir também o papel relevante da pneumatologia nestes últimos tempos e que tem levado alguns teólogos a destacar, não tanto a Igreja visível, institucional, mas a Igreja mística – entendida como aquela que é invisível, conhecida unicamente por Deus, até porque se percebe que o “Espírito sopra onde quer” e fora dele não existe liberdade. Nesse sentido, alertou o Papa Francisco, “O Espírito Santo não quer fechamentos; quer abertura, comunidades acolhedoras onde haja espaço para todos”. É precisamente isso que Jesus deseja, uma Igreja que, estendida de braços abertos, é local de acolhimento para um mundo tantas vezes alienado do Seu amor infinito por todos nós.
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.








