O Padre Alberto Neto foi assassinado em 3 de julho de 1987. Faz-se memória de 37 anos, nesta quarta-feira, dia 3 de julho.
A 6 de Julho de 1987, passados que eram já 15 anos do 25 de abril, à beira da EN5, em Águas de Moura, perto de Setúbal, no meio do mato, foi descoberto o seu cadáver.
No Diário de Notícias de 12/07/1987, Óscar Mascarenhas escrevia, referindo-se ao assassínio de Alberto Neto, muito provavelmente, a melhor síntese que sobre o assunto foi escrita:
“A morte estúpida de um homem inteligente. A morte inglória de um homem histórico. A morte obscura de um homem de luz. A morte violenta de um homem de paz.“
Em 1989, escrevi (1) a solicitação de alguém, muito provavelmente do padre Peter Stilwell, enquadrado sob a epígrafe «Repudiar a Guerra para construir a Paz» as seguintes palavras em texto, igualmente, memorial:
Entretanto, a guerra colonial, com o seu espetro ideológico e as suas consequências físicas e morais, perfilava-se no concreto das nossas vidas e constituía um referencial por onde passava a separação entre os que se lhe opunham e os que a defendiam ou pelo menos a silenciavam. E, infelizmente, a Igreja Católica Portuguesa de então estava mais presente deste lado do que daquele.
Aqui, como aliás sempre que o essencial estava em causa, o testemunho da palavra e da vida do Padre Alberto era para todos nós um marco e uma referência fundamental.
De facto, uma das maiores tragédias da vida humana é os homens e as mulheres raramente saberem estabelecera ligação entre a ação e a palavra, entre a vida e o discurso. Por um lado, professamos, cheios de orgulho, determinados princípios nobres e sublimes; por outro, praticamos, exatamente, o contrário desses mesmos princípios. Quantas vezes as nossas vidas se caracterizam, dramaticamente, por uma alta intensão de convicções e uma anemia de atos. Referimo-nos com eloquência à nossa dedicação profunda pelos preceitos do cristianismo e, contudo, as nossas vidas andam saturadas de práticas pagãs. Proclamamos a nossa devoção à democracia e, na prática, fazemos, tristemente, tudo o que se opõe à doutrina democrática. Falamos, apaixonadamente, da Paz e, no nosso dia-a-dia, preparamos, assiduamente, a guerra. Defendemos, ardentemente, os caminhos da justiça e, depois, seguimos, inexoravelmente, os da injustiça.
Esta dicotomia, este fosso profundo entre o que deveríamos ser e o que somos, representa o trágico da humana peregrinação terrestre, só raramente está ausente da vida do Homem. O Alberto era uma dessas exceções e foi-o até ao fim. Um fim bem conotado com o daquele JESUS que ele tanto amou, pelos irmãos.
Amor e justiça pelos irmãos, coerência entre a palavra anunciada com desassombro e o quotidiano da vida, resumem a presença e a força do Alberto na comunidade em que se inseriu.
A autópsia, então realizada demonstra “sem margem para equívocos” que a causa da morte é a bala de 6,35 milímetros que o cadáver apresenta no interior do crânio. E mais não se sabe.
É sobre esta continuada ausência de informação, passados que são 37 anos sobre a sua morte, que devemos refletir.
Da homilia de D. António Ribeiro, proferida na missa de corpo presente, relevamos: “Esperamos, confiadamente, que as autoridades competentes consigam apurar toda a verdade dos factos e o causador ou causadores desta morte… Esperamo-lo confiadamente”, repetiu D. António Ribeiro que, não tendo “respostas humanas” ao porquê e para quê desta morte, elencou “respostas de fé”:
“A morte do padre Alberto é um desafio à nossa capacidade de iniciativa cristã para instalar no mundo uma ordem de Paz e Amor que vença o ódio. Foi para isso que ele trabalhou toda a vida”, disse, acrescentando que Alberto Neto “se dedicara sobretudo aos mais pobres e carenciados” e ainda “ao oferecer a sua vida fê-lo por todos nós, por um mundo mais pacífico, mais justo e mais fraterno” (A Capital de 10-07-1987, pág. 13). Mas as esperanças do Bispo de Lisboa, foram totalmente, frustradas.
Muito embora, concordando, inteiramente, com estas “respostas de fé” do Cardeal Ribeiro, repudiamos, denunciando, concreta e objetivamente, esta “espécie de manta de silêncio” até hoje ruidosamente ouvido, há que dizê-lo alto e bom som, que cobre este assassinato. Não é normal, diga-se o que se disser, a Polícia Judiciária (PJ) revelar-se incapaz de deslindar este tipo de ocorrências. Vejam-se, a propósito deste mesmo caso, as palavras de Ilídio Neves, em 2014, lamentando que a PJ de Setúbal nunca tenha conseguido deslindar o mistério. “A brigada era, altamente eficiente, 90 e tal por cento dos casos eram resolvidos”, assegura. Por sua vez, a 26 de outubro de 1987, o historiador e jornalista Fernando Piteira Santos escreve no Diário de Lisboa: “A projeção pública que o caso assumiu coloca a PJ numa situação delicada. Alberto Neto era uma figura prestigiada e respeitadíssima no mundo católico e cultural e, dificilmente, o curso das investigações deixará de ser lembrado. Não é possível deixar de dar uma satisfação à opinião pública. A cortina de silêncio é desprestigiante e é inaceitável”. Mas foi …, continuando a “cortina de silêncio”, contra tudo e contra todos, a manter-se.
Da mensagem de Mário Soares, à data Presidente da República, retemos: “A sua vida e a sua ação, norteadas pelos valores da solidariedade humana e da justiça constituem um exemplo de fraternidade e coragem que não será esquecido” …, mas quem hoje recorda Alberto Neto?
E esta pergunta deve fazer-se, em primeiro lugar, aos seus. Onde estão as estruturas da Igreja Católica, recordando a memória do seu servidor insigne? Onde estão os seus irmãos na fé, rezando pela sua vida eterna no seio do Pai?
Mas deve também colocar-se às estruturas da sociedade civil.
Onde se encontra a capacidade da PJ para resolver o “mistério” que continua a pairar, 37 anos passados, sobre o assassinato do Padre Alberto Neto?
Que diligências foram, ou não, feitas pelas autoridades competentes para o esclarecimento deste caso? Como dizia Piteira Santos, na frase já citada: “Não é possível deixar de dar uma satisfação à opinião pública. A cortina de silêncio é desprestigiante e é inaceitável”.
Por isso gritemos bem alto:
Pelo exemplo de vida em coerência plena, que foi a tua, pela nova visão entre a Igreja e o Mundo que construíste e nos legaste, pela força do Cristo vivo que até ao teu momento final mantiveste, nos transmitiste e continua a alimentar a vida de todos aqueles que contigo privaram e por ti rezam:
OBRIGADO PADRE ALBERTO
Como refere Jorge Wemans que acompanhou de muito perto o Pe. Alberto, “antes do mais quero dizer como é comovente estarmos, tantos anos depois da sua morte a recordar um Homem que não fundou obra, escola, partido, seita, ou qualquer instituição. Limitou-se a viver. Levou o viver a sério. Levou o viver a sério. Foi nosso amigo. E é essa amizade que nos traz hoje aqui.” (2)
(1) Padre Alberto – Testemunhos de Uma Voz Incómoda (Capela do Rato 68-73), Coordenação Peter Stilwell
(2) Terra da Alegria e da Justiça, A voz do Padre Alberto Neto (Capela do Rato 1968-1973). Paulinas Editora.
Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo.










