
O Hospital Garcia de Orta (Almada) visto a partir do Santuário do Cristo-Rei: “Um Serviço Nacional de Saúde nos limites, mas que me tratou com agradecida humanidade, malgrado as nove horas da espera.” Foto © Manuel Vilas Boas.
Uma queda nas escadas do prédio do meu dentista atirou-me, desconformado, para uma ambulância do Seixal que, apressadamente, me entregou na urgência do hospital Garcia de Orta, em Almada.
As 6h da tarde, hora a que cheguei, ficariam como marco do tempo que passei naquela unidade hospitalar. Já adivinhava o tráfego de doentes que ali chegam, constantemente, sabendo que o distrito de Setúbal apenas tem outro hospital, no centro da cidade sadina. E as pressas governativas continuam a não se mexerem para um Alentejo profundo e são castigo costumeiro de quem mora na “outra banda”.
Observei a delicadeza e o profissionalismo de um jovem casal de bombeiros que me acompanhava na ambulância, naquele fim de tarde de segunda-feira. Imediatamente acedi à triagem e depressa o sistema me enrolou no pulso direito, uma fita amarela, anunciando alguma gravidade no caso.
Corpo descansado numa cadeira de rodas, acautelado, próximo da parede, irmanei-me numa sala sem cuidados, por entre gritos de dor, de conversas sincopadas, de gemidos de gentes com feridas abertas e encobertas por vestuário rasgado. A impaciência de quem espera o nome pronunciado por uma coluna sonora roufenha, de som estridente, imperceptível e alucinante. (Os autores destas comunicações não sabem que o microfone é como uma pessoa a quem não se deve nunca gritar?) Ao meu lado uma senhora, maneirinha, dos seus 70 anos, sozinha, resmungava porque estava ali desde as 8h00 da manhã (aguardava já há 11 horas) e o nome dela – alegava – nunca tinha sido chamado através da malfadada coluna sonora.
Apesar de repetidas chamadas de atenção a diversos funcionários, nada se resolveu eficazmente. Saí, atendido, finalmente, cerca das 3h00 da manhã, depois de nove horas de aturada espera, entrecortada por uma radiografia, uma TAC e as respectivas consultas. A senhora da estatura pequena, agora embrulhada num lençol, continuava reclamando a ausência do seu nome, esvaído certamente na estridência do som enervante da coluna. Para trás ficavam, pelo menos, 19 horas de espera e disso fui eu testemunha, agoniado de decepção. “Os velhos não valem nada.”, comentava comigo a Margarida, que foi minha samaritana pelo interior desta saga dramática.
A noite verteu-se de personagens estranhas. Macas amontoavam-se, sem privacidade, ofendidas pela luz vibrante e os ruídos envolventes, ao longo das paredes da sala de espera. O filho, já andado nos anos, que acompanhava o pai entrevado, fazia de entertainer de serviço, prestando ajudas no levantar, carreando água para os sedentos, contando alguma história, para quebrar o stress crescente da noite. Não foi bem-sucedido. A autoridade local pediu-lhe que abandonasse tal comportamento…
E foi assim uma noite infinita. De silêncios dolorosos. Corpos abandonados. Intimidades feridas. Ausências muitas.
“A minha nora e o meu filho sabem que estou aqui e que não conto com ninguém.”
A discreta D. Matilde (ouvi-lhe o nome à neta) vogava no transe do tempo, acolhida pela doçura de uma descendente amorosa. Alguns respiros de humanidade onde os direitos humanos eram crucificados pelas vítimas que não deixavam de chegar àquela urgência de esperança cega.
Uma noite engolida em seco. Pessoalmente, estive a medir um SNS – Serviço Nacional de Saúde sem meios humanos e físicos, nos limites, mas que me tratou com agradecida humanidade, malgrado as nove horas da espera.
Manuel Vilas Boas é padre e jornalista.










