
No limiar do elementar. Foto © João Paulo Costa
É urgente pensar e praticar uma filosofia regenerativa a par de uma filosofia da criatividade. O que seria uma filosofia re-generativa? Hoje o problema fundamental já não será tanto gerar ou produzir algo, mas recuperar e regenerar os desperdícios dos excessos do consumo. O mesmo acontece na filosofia propriamente dita, em particular de tradição católica. Já não se trata simplesmente de criar novas formas ou expressões crentes, isso pode sempre acontecer, até nos modos mais extravagantes e narcísicos das redes sociais, mas em recuperar o centro das questões e de regenerar esse núcleo fundamental a partir das grandes fontes da experiência humana e de estabelecer novos vínculos e intersecções entre as diversas dimensões do ser.
Para tal, é preciso voltar ao núcleo central da experiência filosófica do mundo e saber que núcleo é esse que pode fazer a diferença no contexto plural e concupiscente das experiências religiosas e do conhecimento humano. Uma filosofia assim concebida terá de partir da ressonância do crente com aquilo que o envolve. Uma ressonância que só é possível escutar e sentir a partir de uma desaceleração do ritmo produtivo de pensamento e práticas mecanizadas e padronizadas pela lógica empresarial do sempre mais.
Se entendermos a filosofia como «exercício espiritual» (Pierre Hadot), ou como maneira de viver e pensar o mundo, então a filosofia regenerativa é uma filosofia da generatividade capaz de gerar e de reabilitar novas maneiras de ser, pensar e agir a sua grande tradição, não para a imitar ou recopiar, mas para reparar a fragmentação do tecido diante das múltiplas sensibilidades polarizadas com que o humano hoje se confronta. Não se trata de colocar num grande tudo o que de si é diverso, mas de encontrar o ponto comum entre os humanos crentes, independente das diversas expressões rituais, litúrgicas ou canónicas da ἐκκλησία crente.
A filosofia regenerativa não é de todo uma filosofia restaurativa, mas antes o seu contrário, na medida em que visa regenerar os elementos da tradição a partir da linguagem contemporânea, ou melhor, a colocar em relação texturas novas e antigas (veja-se, por exemplo, o debate actual em torno do mobiliário litúrgico contemporâneo da catedral de Notre Dame). Ela é, em primeira mão, uma filosofia da recriação ou da regeneração de um tecido rasgado ou de uma estrutura corpórea a partir do encontro comum entre diversas expressões da mesma fé, contra todo o tipo de homologação generalista sem ter em conta as especificidades próprias de cada região, grupo ou instituição.
Para tal regeneração, será necessário encontrar um espaço comum, de encontro real e concreto, não imposto e não artificial, a partir do qual se possa encontrar uma plataforma de diálogo e de vivência em torno das questões centrais do crer religioso no interior de uma instituição. O espaço vivido, o lugar arquitectónico, faz o pensamento e a reflexão, na medida em que cria uma ambiência ou atmosfera propícia a esse estado de coisas (veja-se, por exemplo, todo o ideal monástico e a arquitectura que deu corpo a essa cosmovisão). A filosofia regenerativa não procurará simplesmente novas formas ou inovações, mas de estabelecer e concretizar, por via da reflexão (pensar), da aisthesis (sentir) e da poiésis (fazer), relações inéditas e antigas entre formas de fé que façam sentido para a comunidade dos crentes no interior de cada expressão crente concreta.

O que é uma casa ressonante? Foto © João Paulo Costa
Trata-se de praticar, paciente e sabiamente, o dito latino in medio virtus, num tempo em que vigoram os extremismos políticos e ideológicos, à esquerda e à direita, de exclusivismos posicionais sem qualquer matização temperamental. Mas o tempo futuro será dos moderados, se estes resistirem à tentação fake. Pois será essa virtude do equilíbrio ou do espaço intersticial que dará frutos, após a moda da polarização, que, como todas as modas, passa sem deixar saudades. É neste equilibro que a prática religiosa, enquanto relação ressonante privilegiada com o mundo, poderá exercer a sua verdadeira essência, na medida em que seja capaz de lançar a gratuidade incondicional e dom de si como bem maior e assim contribuir para a estabilidade do tecido comunitário da sociedade, aplacando iras e traumas.
Neste ponto, como noutros, estamos em consonância com o filósofo alemão Hartmut Rosa, herdeiro da conhecida escola de Frankfurt, que não era propriamente a mais devota nem religiosa, que, no seu livro «Porque é que a democracia precisa da religião: A propósito de uma relação de ressonância singular», escrevia o seguinte: «Assim, o que perderíamos com o apagamento da religião não é apenas uma série de histórias, crenças ou rituais, mas sobretudo uma capacidade de entrar em ressonância com o mundo, de o deixar chegar até nós e de lhe permitir curar-se dos traumas que nós lhe infligimos».
Não se trata de estabelecer uma síntese ou uma amálgama de diferenças juntas num mesmo espaço, mas de constituir uma pensar comum em torno das diferenças entre expressões crentes da mesma fé. Se é certo que o cristianismo em si mesmo é extremamente compósito e multifacetado, se no interior de cada tradição cristã há diferenças acentuadas entre as diversas formas de exprimir o mesmo credo, seja do ponto de vista ritual-litúrgico, seja ao nível da disciplina e dos costumes, isso não é impeditivo de restabelecer as bases ou o núcleo central a partir do qual podemos pensar juntos novas formas filosóficas e novas expressões da experiência religiosa cristã.
No fundo, trata-se de inventar ou imaginar uma nova filosofia sapiencial fundamental (profético-poiética), a filosofia da regeneração que recria as coisas antigas em novas formas de vida, que se coloque à escuta, que interrogue e aprofunde as diversas possibilidades de ser crente no mundo contemporâneo a partir do tesouro da tradição, que só existe para ser reinventada e recriada. Essa é certamente a forma autêntica de estar numa determinada tradição, não para simplesmente a copiar ou imitar, o que revelaria uma certa preguiça mental e imaginativa, muito próprio dos crentes rígidos e ossificados no imobilismo de um passado paradisíaco inexistente, mas para a fazer existir e vivenciar, com sentido e verdade, no tempo próprio que nos é dado viver.
A filosofia regenerativa é um pouco como aquela mulher idosa cheia de maleitas ósseas que resistia em fazer hidroterapia, por um conjunto de escrúpulos religiosos de desprezo do corpo e de vergonha moral, mas que quando experimentou entrar na água e sentiu os efeitos desse exercício para a vida do seu corpo e do seu espírito, nunca mais quis sair da piscina terapêutica. Às vezes, só experimentando essa filosofia regenerativa na carne, poderemos voltar a acreditar que a filosofia é possível de novo no espaço público e na vida dos crentes. É preciso sentir os seus efeitos para haver mudança real nas ideias e nas práticas. Aqui entra agora a imaginação para a tornar encarnada e viva no contacto com as expressões artísticas, poéticas e ecológicas do mundo.

Fragmentos de mundo. Foto © João Paulo Costa
Na verdade, só buscando o melhor da criação humana, que está ao virar da esquina, à espera de ser encontrado e desejado, e o melhor do tesouro crente, que está ocultado por uma certa estrutura populista da religiosidade, se revelará um novo modo de sermos humanidade, sem complexos nem escrúpulos inúteis. Portanto, uma filosofia regenerativa que será um certamente uma expressão poética da ressonância do homem no mundo e do mundo no homem. É este sentimento de maravilhamento ou de espanto originário que acomuna o homem incrédulo diante de uma floresta virgem e o homem crente às portas da Notre Dame de Paris.
Uma filosofia regenerativa – tal como na dita medicina terapêutica-regenerativa – mais do que inovar arbitrariamente nas terapêuticas, consiste em regenerar competentemente e criativamente o tesouro antigo da tradição, que é, o que a seu modo fizeram alguns dos melhores artistas, literatos, poetas e filósofos. Uma filosofia regenerativa é uma filosofia da «ressonância» (Hartmut Rosa), de uma maneira particular de ser e de sentir o mundo, não simplesmente para o afectar e transformar, mas também ela própria ser afectada e transformada por essa ressonância, em particular neste momento histórico em que se vive uma alienação geral fruto da aceleração desmesurada de processos tecnológicos decisórios da ética ou da moralidade da existência humana.
Uma filosofia assim entendida, enquanto filosofia regenerativa da ressonância crente com o mundo, Deus e o humano, é a realização radical de uma filosofia política da carne ou da encarnação, do nosso ser encarnado no mundo, para o pensar a partir de uma abertura vertical para o que não é somente mundo horizontal nem nós mesmos. Mais do que nunca, em tempos de escombros e de esmagamento de princípios fundamentais do humano, fazem-nos falta, para usar uma expressão sapiencial salomónica, «corações que saibam escutar». Portanto, corações humanos sábios, pois, como nos diz o filósofo canadiano Charles Taylor, no seu prefácio à obra de Rosa acima citada, «o único antídoto ao fechamento interior, à mania do controlo e da consumação, à obsessão devastadora do toujours plus, é a abertura à interpelação, na experiência da ressonância».
João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).









