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Não-violência, cristianismo e pacifismo utópico num mundo ameaçado

| 28/07/2024

“Num mundo perfeito, inteiramente governado por Deus, não pode haver lugar para a violência.”

É extremamente atraente, sobretudo se se é cristão, defender a prática de um pacifismo absoluto, fundado no princípio da não-violência como regra moral indiscutível. Não foi o próprio Jesus a propor esta doutrina? É inegável que os princípios éticos expressos no chamado Sermão da Montanha (ou da Planície, consoante o evangelista) vão precisamente nesse sentido: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam. A quem te bater numa das faces, oferece-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, não impeças de levar também a túnica” (Lc 6, 27-29); Mateus dirá mesmo “não oponhais resistência ao mau” (Mt 5, 39).

É preciso encarar os preceitos éticos de Jesus no contexto da sua fé apocalítica na irrupção iminente do Reino de Deus sobre a terra, que, aliás, se mostrou errónea uma vez que nenhum Reino de Deus sobreveio e o mundo permaneceu uma mescla de bondade e maldade, justiça e injustiça, etc. Num mundo perfeito, inteiramente governado por Deus, não pode haver lugar para a violência. Esta é, segundo a crença comum daquele tempo, um sinal da ação do “Maligno” e do seu poder sobre a história humana. No processo histórico anterior à inauguração do Reino de Deus – o qual viria, de acordo com Jesus, por ação exclusiva do próprio Deus – o mundo é contraditório. A luz e as trevas convivem abertamente, numa luta sem tréguas. Numa tal situação, a violência ocorre e o poder dos mais fortes faz-se sentir sobre os mais fracos, transformando-os em vítimas. É certo que, mesmo nesse mundo injusto e contraditório, o discípulo de Cristo deve abster-se de usar a violência. Mas será essa regra exequível em todas as situações? Estou em crer que não.

Em primeiro lugar, convém lermos a doutrina de Jesus em diálogo com o seu comportamento. E Jesus não se absteve de usar a violência quando achou que era relevante. Todos nos lembramos decerto da expulsão dos vendilhões do Templo de Jerusalém e da violência física exercida por Jesus. Mas a violência não se manifesta apenas fisicamente, pode ser verbal. Todo o capítulo 23 do evangelho de Mateus é um exemplo claro da violência verbal usada por Jesus contra as classes religiosas dominantes. Talvez estes exemplos nos coloquem de sobreaviso a respeito de um pacifismo absoluto, sem margem para exceções.

Julgo que o princípio da não-violência que Jesus propôs será, antes de mais, um apelo claro à ação dos poderosos no sentido de se absterem de usar a sua situação de privilégio, recorrendo à violência para oprimirem os mais fracos.

 

Um juízo moral que decorre da situação

E quanto às vítimas, estarão elas obrigados pelo mesmo princípio a aceitar a violência a que estão sujeitas sem se oporem a ela, usando também as armas da violência? Eu diria que, sempre que tal seja possível, será também preferível. Contudo, a realidade é complexa, pelo que não poderemos erigir este mandamento a um princípio absoluto. Julgo que tudo se torna mais transparente se refletirmos sobre casos concretos, porque a vida é feita de situações específicas que em muitos casos não se enquadram nas regras previamente estipuladas.

Vejamos a situação em que um adulto exerce violência sobre uma criança. Se tal violência for testemunhada por outro adulto, não terá este o dever de usar os meios ao seu alcance, inclusive meios violentos, para deter a ação criminosa sobre a criança? Parece-me totalmente evidente que a integridade da criança está num patamar claramente superior ao dever de não usar meios violentos. Para alargarmos a nossa discussão às relações entre Estados, importa perguntar-nos se, de uma forma geral, a violência usada pelos Aliados contra os exércitos de Hitler (sem entrarmos aqui em pormenores, porque nem todo o uso de violência pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial pode ser justificado) não estará eticamente legitimada. Sem uma intervenção musculada, o ditador continuaria a invadir os restantes países europeus e teria alargado o seu projeto demoníaco à totalidade da Europa, aniquilando todos os que se não enquadrassem nas suas teorias absurdas. No que me diz respeito, não só a decisão de declarar guerra à Alemanha foi a mais acertada como era mesmo a que se impunha dada a situação da Europa naquele momento histórico.

São estas as razões que me levam a rejeitar o pacifismo absoluto e a considerar que o uso de violência, quando está em jogo a integridade e a vida de vítimas inocentes, é não só possível como até eticamente obrigatório. Não habitamos o Reino de Deus. No mundo em que vivemos, a violência dos poderosos (quaisquer que eles sejam: um político ditador, um marido prepotente, um pai violento…) é gritante. Não podemos pura e simplesmente, sob a capa de uma teoria pacifista inconsequente, permitir que o abuso do poder possa prevalecer sobre os direitos das vítimas, tornando-nos cúmplices dessas injustiças.

 

A invasão da Ucrânia e a resposta eticamente adequada

Amnistia Internacional, paz, Ucrânia

“Qual será a melhor solução? Não se opor à violência da Rússia, sob a capa de um projeto pacifista que não tem em conta a psicopatia dos ditadores, ou fazer-lhe frente não se deixando intimidar? Manifestação da Amnistia Internacional pela paz na Ucrânia.”  Foto © Amnistia Internacional

Vem isto a propósito da invasão russa da Ucrânia. Oiço um bom número de pessoas defenderem o uso de negociações para pôr cobro ao conflito sangrento. Em princípio, concordo que os conflitos devem ser resolvidos por meio de negociações e não pela via armada. Mas o problema é que a Rússia nunca quis quaisquer negociações que não partam das suas pretensões injustas. Por enquanto, anexou parcelas significativas do território ucraniano e, sem dúvida, se tal lhe fosse possível, anexaria a totalidade da Ucrânia e de mais uns quantos territórios limítrofes da Europa de leste. Não nos esqueçamos da forma como um ditador pensa. Foi assim com todos ao longo da história (infelizmente, pouco aprendemos com os factos). Todos eles desejam mais poder sobre parcelas cada vez maiores do mundo. Nunca estão inteiramente saciados.

Mesmo que a Ucrânia prescindisse definitivamente da Crimeia e das regiões ocupadas (o que não me parece de modo algum eticamente obrigatório), seria ingénuo julgar que as negociações com a Rússia iriam pôr cobro à vontade de poder que Putin e os seus assessores têm manifestado. Invadiram a Crimeia e anexaram-na, contra todas as regras do direito internacional. A Ucrânia teve de aceitar, dada a fragilidade da sua defesa. Todos os países do mundo consentiram nessa brutalidade. O ditador pôde cantar vitória sem qualquer oposição de peso.

Alguns anos volvidos, invadiu a região oriental da Ucrânia porque também aquela parcela do país vizinho lhe pertencia. Mas a retórica usada era clara e transparente: a Ucrânia não tem direito histórico a qualquer autonomia em relação à Rússia. Mais cedo ou mais tarde, Putin vai querer pôr em prática as suas teorias histórico-políticas imperialistas anexando a totalidade da Ucrânia. Com um tal ditador não há negociações possíveis, exceto se o discurso mudar. Os autocratas são, geralmente, mentirosos compulsivos. Foi assim com Hitler que estabeleceu um acordo com a Rússia, rasgando-o logo que viu abrir-se diante dele a possibilidade de expansão territorial também para Oriente.

Não sejamos ingénuos. Putin não quer negociar, quer exercer um poder imperialista sobre os países que considera sob a sua esfera de influência. Como deve a Europa agir perante uma tal situação? Os tempos atuais são instáveis e duros. Se a Europa viveu um longo período de paz, vê-se de novo sob o temporal da guerra e da violência. Qual será a melhor solução? Não se opor à violência da Rússia, sob a capa de um projeto pacifista que não tem em conta a psicopatia dos ditadores, ou fazer-lhe frente não se deixando intimidar? A primeira atitude incentiva o ditador a avançar com os seus projetos de poder e opressão. A segunda atitude é dissuasora, sendo também a única alternativa ao imperialismo russo e à eventual subjugação da Europa democrática ao poder despótico de Putin. Os valores que defendemos – a democracia, a liberdade, a dignidade da pessoa humana, a igualdade – são demasiado importantes para serem deixados ao arbítrio de um déspota.

 

O investimento da defesa

Segundo me parece, a Europa não tem alternativa. Deve apostar fortemente na defesa comum e numa indústria de “guerra” consistente com o seu papel no mundo e com a salvaguarda dos interesses dos seus cidadãos. Todos percebemos que não podemos confiar nos EUA para nos defenderem caso se torne necessário. A instabilidade da Administração americana, mercê da nova direita nacionalista e populista, não garante a defesa da Europa e dos valores democráticos em que assenta. Só há uma maneira de resolver a questão: promover políticas de defesa comum, investir no armamento e na formação de um corpo de Forças Armadas preparado para o pior.

Se o fizermos, talvez a guerra não nos bata à porta, dado o poder dissuasor da nossa força. Se o não fizermos, o mais provável é vermos as tropas russas invadirem parcelas sempre maiores dos estados limítrofes até nada restar que se lhe possa opor. Digo isto com a maior amargura no coração. Quem dera que todo esse dinheiro fosse gasto em investigação científica, em aplicações tecnológicas não bélicas, em saúde, em educação, em cultura, etc. Mas temos de ser realistas e acordarmos de vez para o filme de terror que se desenrola sob o nosso olhar distraído. É o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos que está em jogo.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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