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O outro menino de Cabul

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“Chega-nos agora a descrição de uma mulher. Talvez a sua esposa. Não recordo exatamente. A blusa de alsa é mencionada. A leveza de movimentos. O sorriso sem pudor. Os cabelos soltos. Foi a imagem que me ficou.” Foto © Luís Pinto

 

A imagem da mochila às costas apontava uma infância como tantas outras. A escola, os amigos, os jogos na rua. De menino, contava-nos estórias de descoberta e deslumbre. Sorrisos rasgados. Sol e neve. De mão dada. Montanhas ao redor. As ruas sem asfalto feitas pátio de brincadeiras. Disciplina parental em quantidade tragável. O sabor da liberdade dado a provar gradualmente. Doses de responsabilidade bem medidas. A mãe, o pai, as irmãs. O ninho seguro deste menino de Cabul.

Neste relato, as travessuras de infância deram lugar às aventuras do adolescente. Com elas, a consciência da realidade para lá do bairro. E dos lugares menos tangíveis. O lugar de Deus e da política. O do conhecimento.

A universidade era naquela narrativa um lugar de liberdade. O saber milenar condensado em matérias avulsas. O orgulho de um tesouro cultural. A inveja do ocidente moderno. E outra vez a sabedoria que vem com a idade de um povo. Para lá dos calendários. Uma cultura outra. Não transcrita nos manuais de estudo. A sensibilidade do belo para lá da lógica. Do divino para lá da religião.

Chega-nos agora a descrição de uma mulher. Talvez a sua esposa. Não recordo exatamente. A blusa de alsa é mencionada. A leveza de movimentos. O sorriso sem pudor. Os cabelos soltos. Foi a imagem que me ficou. Desta mulher descreve-nos as suas escolhas, sem condicionalismos. Estudos, carreira, família, paixões. Podia ser um romance. O conto de um amor não impossível, mas comum. Sem originalidade que se aponte. Como tantos outros. Há uma beleza intrínseca neste guião de quotidiano, enraizado na cultura inquestionada de cada povo.

Como que colorindo esta novela de realidade, também nela entravam os maus. Esguichos de tinta em tela cuidada, surgiam aqui e ali os momentos de tensão. Os Talibã, quase sempre. Os vilões da história. As afrontas à liberdade. A obsessão pelo controlo. Das consciências. Das universidades. Dos cérebros. Apostados em moldar a forma como se entende o mundo. O certo e o errado. O permitido e o proibido. O verdadeiro e falso. Os corações depois. A alma. O medo. Sempre o medo. E a ignorância.

Passaram agora 30 anos.

Estamos em Nairobi. À mesa. Quatro pessoas. Um português. Uma ruandesa. Uma equatoriana. Um afegão. Este relato chega-nos na primeira pessoa. Pelas palavras de Ahmad, chamemos-lhe assim. Outrora o miúdo de Cabul.

O sobrolho levanta-se agora. Fala-nos do momento da partida. A 15 de Agosto de 2021 os Talibã ocuparam Cabul. Semanas depois a Administração norte americana anunciou a retirada definitiva das tropas no Afeganistão. Ahmad e a família estavam em fuga. A retirada dos EUA precipitou aquilo que Ahmad e muitos outros já sabiam. Há muito. O país que chamavam seu deixava de existir. Seguem-se as corridas ao aeroporto. As evasões. As perseguições. Pedidos de asilo. Desencontros. O medo. Sempre o medo. Muito medo. E a incerteza.

Passaram apenas três anos. Em apenas três anos a fábula de Ahmad converteu-se na descrição de uma tragédia. No Afeganistão assiste-se hoje a uma das mais miseráveis violações dos Direitos Humanos expostos ao mundo. Especialmente das mulheres. Estima-se que 75% das meninas – cerca de 1.4 milhões de crianças – tenham sido obrigadas a abandonar a escola. O ensino secundário foi banido para as mulheres. Os atentados à liberdade das mulheres não são apenas contínuos, a cada minuto. Não apenas abundantes, em massa. Tornaram-se o terror calado de cada menina. Cravado na alma para a eternidade.

Nesta altura do relato, as feições de Ahmad contraem-se. A dor, a raiva e a desesperança tomam conta. O último parágrafo desta estória ouve-se em quase silêncio. Momento breve. A dor imperscrutável de um pai que não garante aos seus o ninho de menino que um dia habitou em Cabul. Solta-nos a pergunta do seu filho mais novo.

Where is home now?

Foi nesse momento – e apenas nesse momento – que a lágrima presa num soluço contido se mostrou. O músculo que treme. A convulsão reprimida. Silêncio profundo. Desejado. Partilhado. Talvez antes uma oração comungada entre quatro culturas, quatro línguas, quatro Deuses. Nenhum deles nomeado. Todos em uníssono. À mesma mesa.

 

Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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