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Voluntariado missionário, Quénia, Missionários da Consolata, escola, crianças
Escola na região de Chumviyere, norte do Quénia, feita de chapas metálicas e que será substituída por uma nova: “O calor é intenso, a chuva entra e o barulho não deixa concentrar”, referem os voluntários. Foto: Direitos reservados. 

Portugueses dedicam verão a povos africanos

| 24/07/2026

Quatro grupos de voluntários portugueses partem, este verão, em missão para o Quénia e Moçambique, levando consigo o compromisso de construir estruturas dedicadas à educação e um espaço de encontro comunitário. Movidos pela fé e pelo desejo de servir, estes jovens e adultos dedicam semanas das suas vidas a apoiar algumas das comunidades mais vulneráveis de África.

 

A comunidade de Águas Santas dos Missionários da Consolata, no distrito do Porto, vão enviar este verão três grupos de voluntários para o Quénia e um para Moçambique, em missões que pretendem “promover a dignidade humana e o desenvolvimento das comunidades mais vulneráveis”, refere Antony Malila, responsável pelo voluntariado missionário da congregação na zona Norte de Portugal, numa nota publicada no site da congregação. Os grupos iniciaram a formação em outubro de 2025 e, desde então, têm dinamizado ações de angariação de fundos – como venda de lápis, de rifas e diversas iniciativas – para apoiar os projetos que irão desenvolver ao longo de um mês.

 

Pré‑primária em construção

Voluntariado missionário, Quénia, Missionários da Consolata

Grupos “Tijolo a tijolo” e “Es.tu.dar”, ligados aos Leigos Missionários da Consolata, que no Verão de 2026 vão construir e equipar uma escola pré-primária em Chumviyere, norte do Quénia. Foto: Direitos reservados.

Um dos grupos, composto por oito voluntários, já enviou parte do dinheiro angariado para a comunidade de Chumviyere, na região de Isiolo, no norte do Quénia, para que uma empresa local comece já a construir uma escola pré‑primária com três salas, destinada a crianças dos cinco aos sete anos. Trata-se de um espaço onde os mais novos têm contacto com os números e as letras, aprendem a fazer pequenas contas e começam a ler as primeiras palavras, preparando‑se assim para a entrada no ensino primário. A sua inauguração deverá acontecer a 23 de agosto.

De acordo com o padre Antony, esta comunidade “enfrenta enormes dificuldades no acesso à educação, uma vez que a maioria das crianças pertence a famílias nómadas em situação de pobreza”. A atual pré‑primária é construída em “chapas metálicas, o que torna impossível estudar adequadamente, especialmente nos dias de calor intenso”, acrescenta o missionário. Com o nome “Tijolo a Tijolo”, este projeto pode ser acompanhado na rede social Instagram, em voluntariadoquenia2026/, onde os voluntários explicam que, na atual escola feita de chapa, “o calor é intenso, a chuva entra e o barulho não deixa concentrar”.

Os voluntários têm entre 22 e 52 anos e alguns já estiveram em missão fora de Portugal. Ana Paula Santos recorda a missão em Oujda, em Marrocos, como uma das mais marcantes da sua vida: “Ali encontrei pessoas que tinham perdido quase tudo – menos a dignidade e a esperança”. Agora prepara-se para partir de novo, desta vez para o Quénia: “Levo comigo a maturidade dos meus 52 anos, a experiência de quem já viu realidades difíceis e a certeza de que cada pequeno gesto pode levar luz a alguém.”

 

Equipar três salas

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A escola de Chumviyere, que vai ser substituída: os fundos angariados já chegaram ao terreno e as obras começarão em breve. Foto: Direitos reservados.

Para complementar o projeto “Tijolo a Tijolo”, foi criado um segundo grupo missionário, denominado “Missão Es-tu-dar”, que vai equipar as três salas com material escolar, brinquedos, mobiliário, um painel solar e instalações sanitárias. A propósito da missão deste grupo, o padre Antony sublinha que a educação “é uma grande oportunidade para abrir novos horizontes às novas gerações, que muitas vezes não têm essa possibilidade por falta de condições básicas nas escolas”.

O grupo de voluntários é composto por dez elementos dos 19 aos 33 anos, quase todos estudantes, e a sua missão pode ser acompanhada na mesma rede social, em missao_estudar_quenia. Maria Azevedo, uma das voluntárias, resume o espírito da missão: “Sou muito ligada às crianças e nesta missão vou poder fazer exatamente aquilo que sempre desejei: apetrechar uma escola, para que as crianças possam ter melhores condições, e passar tempo com elas – aprender, brincar e crescer juntas.”

Ambos os grupos serão acompanhados pelo padre Antony Malila, natural do Quénia, e ficarão alojados no centro pastoral da Diocese de Isiolo. Os voluntários irão conviver de perto com os guerreiros Turkana, o povo nativo da região, algo que também deverá ser transformador para o grupo, considera o missionário. “Acredito profundamente que este projeto poderá fazer uma grande diferença para muitas gerações daquela comunidade. Estou certo de que o contacto com o povo local será uma experiência transformadora para os próprios voluntários, marcando as suas vidas de forma profunda e duradoura.”

 

Renovar uma escola

Escola de Santa Eugenia (Mujwa, Merua), no centro do Quénia): a escola apresenta condições de grande degradação e o grupo de escuteiros de Baguim vai ajudar a recuperá-la. Foto: Direitos reservados.

Para o mesmo país africano partirá um terceiro grupo, composto por 11 elementos, na maioria jovens escuteiros da paróquia de Baguim do Monte. A partida deste grupo para o Quénia é particularmente significativa porque Baden-Powell, fundador do escutismo, viveu e está sepultado neste país. Aos escuteiros juntam-se outros voluntários, entre os quais se destaca Mário Jorge Ferreira, o pároco de Baguim do Monte, de 40 anos.

O grupo foi batizado com o nome “Twende”, palavra suaíli, língua oficial no Quénia que, em português, significa “vamos lá”. A atividade pode ser acompanhada no Instagram, em twende.2026, onde os voluntários explicam que o objetivo do grupo é renovar as salas da escola infantil e primária de Santa Eugenia, na comunidade de Mujwa, na região de Meru (centro do país, 300 quilómetros a nordeste de Nairobi, a capital).

Este espaço escolar foi criado em 1998 para assegurar a educação de menores vulneráveis e atualmente “acolhe 60 crianças”. A escola depara-se com graves problemas estruturais, nomeadamente, “salas degradadas, chão danificado, falta de eletricidade fiável, necessidade de pintura adequada às crianças e sanitários próprios para a infância”. Os voluntários sublinham que a “renovação da escola terá um impacto direto em mais de 100 famílias”.

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Grupo de escuteiros de Baguim do Monte (Gondomar), que irá ajudar a renovar a escola Santa Eugenia: os trabalhos envolvem a requalificação dos espaços físicos. Foto: Direitos reservados.

Segundo o padre Antony, também esta comunidade “enfrenta sérias dificuldades no acesso a uma educação em condições dignas”, sendo que “a maioria das crianças pertence a famílias carenciadas e algumas vivem em orfanatos”. O projeto visa requalificar os espaços físicos, criar condições adequadas de conforto e segurança, instalar eletricidade e construir instalações sanitárias apropriadas.

Vasco Vilela, de 22 anos, sintetiza o espírito do grupo: “O que me move nesta viagem ao Quénia vai muito além do turismo; é o desejo profundo de conhecer novas formas de viver e de estar neste nosso grande planeta, despindo-me das minhas certezas para aprender com quem vê o mundo de outra forma.” O jovem admite que a realidade que irá contactar o pode mudar. “Parto para esta missão com o coração disponível para servir, para partilhar o que sou e, acima de tudo, para ser transformado pela realidade que vou encontrar”, assume.

Com idades entre os 17 e os 53 anos, os voluntários serão acompanhados pelo casal Paulo Rocha e Teresa Silva, Leigos Missionários da Consolata que já partilharam três anos de missão na Tanzânia. O grupo ficará alojado na Missão de Mujwa, dos Missionários da Consolata.

 

Espaço intergeracional

Alguns dos voluntários do grupo “Ponto de Encontro”, que irão criar um espaço intergeracional para a comunidade em Massangulo (Moçambique). Foto: Direitos reservados.

O quarto grupo, que partirá para Moçambique, é constituído por oito voluntários dos 19 aos 34 anos. Designa-se “Ponto de Encontro” e tem como propósito criar o Parque Comunitário da Missão de Massangulo (a sul de Lichinga, junto ao lago Niassa e à fronteira com o Malawi), um espaço pensado para que famílias possam brincar, conviver, descansar e partilhar momentos de alegria e fé.

A criação deste espaço assume particular importância numa comunidade onde “a maioria dos alunos não dispõe de um espaço seguro para estudar após a escola”, segundo o padre Antony. Além disso, também os idosos “não têm locais adequados de lazer e, muitas vezes, verifica-se uma fraca integração entre as diferentes gerações”.

Este projeto inclui a construção de um parque infantil com baloiços e escorregas, um parque geriátrico com exercícios leves e áreas de descanso, zonas verdes, um alpendre para atividades comunitárias e pastorais, e ainda um espaço de estudo e uma cozinha comunitária. O grupo ficará a pernoitar na Missão de Massangulo e será acompanhado por Cláudia Duarte, Leiga Missionária da Consolata, que já esteve em missão na Tanzânia, Argentina e Guiné-Bissau. O trabalho deste grupo também pode ser acompanhado no Instagram, em missao_pontodeencontro/.

O padre Davide Matamá, pároco de Gião e capelão dos Estabelecimentos Prisionais do Porto e do Estabelecimento Prisional Especial Feminino de Santa Cruz do Bispo, também fará parte desta missão. O presbítero de 51 anos afirma que a missão tem sido o seu “estilo de vida junto das periferias humanas”, mas admite que lhe “falta a missão ad gentes”, isto é, o serviço missionário de evangelização às nações mais pobres e longínquas do mundo, algo com que sonha desde a sua juventude. “Agora parece um sonho realizável, no rosto da comunidade de Massangulo, através dos Missionários da Consolata que nos dão a possibilidade de nos fazermos ‘Ponto de encontro’ junto das crianças e dos mais velhos, numa relação intergeracional”, afirma. São quatro grupos e quatro projetos diferentes, com o objetivo de melhorar o setor da educação e reforçar laços nas comunidades.

 

Texto publicado no âmbito da parceria 7MARGENS/Fátima Missionária.

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