O sonho de um novo humanismo…

O desmatamento na Amazónia, 900 quilómetros a sudeste de Manaus: o Papa diz que “hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente ligado, e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e das soluções dos problemas estruturais da economia mundial”. Foto © Gérard Moss/Projecto Brasil das Águas-2006
A Carta Convocatória para o Encontro “Economia de Francisco” (Economy of Francisco), a ter lugar em Assis, de 26 a 28 de março de 2020, corresponde a um desafio crucial para a reflexão séria sobre uma nova economia humana. Dirigida aos e às jovens economistas e empreendedores, pretende procurar e encontrar uma alternativa à “economia que mata”. Contra a idolatria do dinheiro e do imediato, contra os novos bezerros de ouro, apela-se à compreensão de que o que tem mais valor não se vende nem se compra. E diz o Papa Francisco: “Esta Carta é para vos convidar para uma iniciativa que muito desejei: um evento que me permita encontrar quem, hoje, está a formar-se, a começar a estudar e a praticar uma economia diferente que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, que cuida da criação e não a degrada. Um evento que nos ajude a estar juntos e a conhecer-nos, que nos leve a fazer um pacto para mudar a economia atual e dar uma alma à economia de amanhã”.
De facto, para combater a “economia do mal” importa pensar e agir. Nesse sentido, o Papa lembra a encíclica Laudato Si’: “Sublinhei como hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente ligado, e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e das soluções dos problemas estruturais da economia mundial. É preciso, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado pela família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores, os direitos das futuras gerações. Infelizmente, continua ainda por escutar o apelo a tomar consciência da gravidade dos problemas, sobretudo, a concretizar um modelo económico novo, fruto de uma cultura de comunhão, baseado na fraternidade e na equidade”. Não basta repetirmos a defesa da equidade entre gerações, quando o que se repete são os gestos vãos, que nada alteram de substancial. Às rotinas inúteis temos de saber contrapor o combate permanente ao inútil e ao desperdício, ao consumismo e ao egoísmo.
Como criar valor e aproveitar melhor os recursos disponíveis? Como evitar a destruição irreversível do planeta? Como pôr um travão no endividamento? Como gerar poupança para o investimento reprodutivo? Como recusar a solução de pôr dinheiro em cima dos problemas da sociedade? E assim o Papa Francisco fala de um “pacto comum”, “um processo de mudança global que veja, em comunhão de propósitos não só quantos têm o dom da fé, mas, todos, mulheres e homens de boa vontade, para além das diferenças de credo e de nacionalidade, unidos por um ideal de fraternidade, atento sobretudo aos pobres e aos excluídos”. Eis que somos convocados e convidados a ser protagonistas de um novo pacto, “assumindo a tarefa de um compromisso individual e coletivo para cultivarmos juntos o sonho de um novo humanismo que responda às expectativas do ser humano e do desígnio de Deus”.
Em Assis, o Papa pretende refletir e dialogar sobre uma economia que ponha as pessoas no centro. Assim, as instituições, os corpos intermédios devem tornar-se mediadores de justiça, “estaleiros de esperança”, de modo a criar valores humanos, a combater a “cultura do descartável”, de modo a dar voz a quem não a tem e a desenvolver novos estilos de vida. Muitos usam a palavra “sustentável”. Não basta, é preciso que não gastemos os recursos que temos sem pensar na responsabilidade que temos no tocante à justiça distributiva – horizontal, no tocante a uma partilha entre contemporâneos, mas também vertical, a pensarmos nos que ainda estão para nascer.
O verdadeiro desenvolvimento sustentável parte da ideia essencial de que os bens que recebemos para administrar são sempre uma responsabilidade partilhada por todos, devendo os direitos de iniciativa e de propriedade privada ser respeitados, do mesmo modo que não podemos esquecer o abuso de direito e a função social da propriedade e do mercado. É a compreensão dos limites que se revela essencial – singularidade e comunidade coexistem e completam-se, chegando-se à subsidiariedade, que significa decidir no nível correto, próximo das pessoas, mas compreendendo o que é comum e o que é próprio.
Eis por que razão a chamada “Doutrina Social da Igreja” recusa um carácter ideológico, antes se propondo buscar pontos de encontro que permitam, num mundo global, receber e mobilizar todas as mulheres e homens de boa vontade, vivendo situações muito diferentes. A liberdade igual e a igualdade livre têm de ser lembradas e postas em prática. Em boa hora, por isso, é lançada esta ideia de um Encontro em Assis, visando pensar a economia à luz da dignidade humana e do bem comum. Urge aproveitar bem as boas vontades e as boas ideias…
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