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Marcas de tiros num veículo da polícia em Porto Príncipe, Haiti. Foto Ocha/Giles Clarke

Um país com medo e à deriva

Assassinadas 3.661 pessoas no Haiti, desde janeiro

| 27/09/2024

Marcas de tiros num veículo da polícia em Porto Príncipe, Haiti. Foto Ocha/Giles Clarke

Marcas de tiros num veículo da polícia em Port-au-Prince, capital do Haiti, onde foram mortas 860 pessoas na sequência de operações de patrulhamento. Foto © Ocha/Giles Clarke

Mais de 3.660 pessoas foram assassinadas no Haiti, desde janeiro, por ação dos gangues que tomaram conta de vastas zonas do pequeno país. A informação é fornecida pelo comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, num momento em que se continua à espera que um contingente de segurança internacional comece a atuar no país.

A situação foi reconhecida e assumida esta semana pelo presidente do Conselho de Transição Haitiano, Edgar Leblanc Fils, ao discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas reunida em Nova Iorque.

Segundo um relatório apresentado por Türk, a violência atingiu os níveis mais elevados desde 2003, tendo-se intensificado e, com isso, agravado ainda mais a crise humanitária, com quase 600 mil pessoas deslocadas no interior da ilha. Só na região de Port-au-Prince, a capital, as Nações Unidas referem que pelo menos 860 pessoas foram mortas e 393 feridas durante operações e patrulhas policiais, incluindo pelo menos 36 crianças, o que “pode constituir uso excessivo, injustificado e desproporcional da força”.

Na intervenção perante os líderes mundiais, o presidente do Conselho de Transição admitiu que “50 por cento dos membros de gangues da região da capital são crianças e adolescentes, meninas e meninos, frequentemente usados como carne para canhão durante operações” policiais.

Defendendo que “a restauração da segurança nacional é uma prioridade absoluta para as autoridades haitianas”, Edgar Leblanc Fils acrescentou que essas crianças e adolescentes estão sujeitas a todo o tipo de violências, “incluindo violência sexual”.

Recorde-se que o Conselho de Segurança da ONU aprovou em outubro de 2023 o envio de uma Missão Multinacional de Apoio à Segurança (MMAS) liderada pelo Quénia, para ajudar a polícia haitiana, mas dificuldades várias fizeram com que só este verão essa força começasse a ser constituída, tendo sido deslocados para o Haiti um pouco mais de 400 elementos.

Também presente na Assembleia Geral da ONU, o presidente queniano garantia que o envio de contingentes adicionais da força vai ocorrer até janeiro de 2025. Ao mesmo tempo aceitou que essa força deixasse de ser uma missão de segurança e passasse a ter o estatuto de força de manutenção de paz. Esse trabalho é crucial para que se possa pensar em organizar eleições, previstas para final de 2025.

A situação que se gerou praticamente paralisou o país. Na descrição feita pelo responsável pela transição, “os cidadãos vivem com medo, sem poder circular livremente pelo território nacional, ir trabalhar ou mandar os filhos à escola, sem risco”, sobretudo na região da capital. Esta paralisia “enfraquece as instituições, paralisa a economia, mina a esperança de um amanhã melhor”, acrescentou aquele responsável.

 

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