
O Papa Francisco e participantes na vigília penitencial: “O pecado é sempre uma ferida nas relações.” Foto © Agência Ecclesia/OC
Pedidos de perdão pela “falta de coragem na busca da paz”, por atentados contra a vida humana, pela falta de protecção do planeta, pela discriminação dos migrantes, pelo desrespeito dos povos indígenas, pela desvalorização de mulheres e jovens. E ainda pelos abusos sexuais e de poder por parte de membros da Igreja Católica ou pela primazia dada à doutrina como pedra de arremesso e de desumanização.
Um a um, sete cardeais leram pedidos de perdão escritos pelo Papa na vigília penitencial com que Francisco pretendeu marcar o início da segunda assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade. Uma celebração que fez lembrar, pelo sentido e pelo simbolismo, idêntica iniciativa do Papa João Paulo II com os pedidos de perdão em relação aos pecados históricos da Igreja, realizada em Março de 2000, duas semanas antes da histórica viagem do Papa Wojtyla à Terra Santa.
“Quis escrever os pedidos de perdão lidos pelos cardeais porque era necessário chamar pelo nome os nossos principais pecados. O pecado é sempre uma ferida nas relações: a relação com Deus e a relação com os irmãos”, justificou o Papa na homilia que proferiu no final. Trágica coincidência, enquanto a celebração se desenrolava, aumentava a tensão no Médio Oriente, com os 180 mísseis disparados pelo Irão sobre Israel e novos ataques de Israel a Beirute.
Um dos momentos marcantes da celebração, que contou com vários testemunhos de diferentes protagonistas, foi quando Laurence, um sobrevivente de abusos sexuais, contou como foi vítima de um padre católico aos 11 anos. Na África do Sul, disse, sofreu “castigos físicos e manipulação psicológica” durante 53 anos. “Tirou de mim o que nunca deveria ter sido tirado de uma criança”, afirmou, referindo-se ao agressor.
Falando de um “véu de silêncio”, referiu que “durante décadas, as acusações foram ignoradas ou tratadas” pela hierarquia católica “em vez de serem denunciadas às autoridades”. O sofrimento “está tão presente hoje como estava quando” aconteceram os factos e continua a haver “muitos sobreviventes sem nome e sem serem ouvidos”, acrescentou, numa intervenção saudada no final pelos aplausos que irromperam na Basílica de São Pedro. E esse encobrimento permitiu que os agressores continuassem a abusar de outras pessoas, acusou ainda.
Além da questão dos abusos, o tempo actual vivido no mundo e na Igreja Católica, com as questões da emergência climática, da guerra, dos migrantes e da pobreza e desigualdade, foram evocados por outros testemunhos. Os migrantes atravessam o deserto, passam fome e sede, referiram Solange, uma mulher da Costa do Marfim, e Sara, da Fundação Migrantes. A primeira comparou os barcos que atravessam o Mediterrâneo aos campos de extermínio nazi, “onde homens e mulheres perderam a sua identidade como indivíduos, como comunidade e como povo, e deixaram de ser pessoas”.
“Como podemos ser credíveis na missão se não reconhecermos os nossos erros e não nos baixarmos para curar as feridas que causamos com os nossos pecados?”, perguntaria depois o Papa, na homilia.
“Restaurar a confiança na Igreja”

“Não poderíamos invocar o nome de Deus sem pedir perdão aos nossos irmãos, à Terra e a todas as criaturas.” Foto © Agência Ecclesia/OC
A irmã Deema, uma freira oriunda da cidade destruída de Homs, na Síria, atestou sobre as possibilidades da resistência “não-violenta” num conflito que subsiste desde 2011. A desumanização cresce e vai até à justificação da “morte” do outro, visto como “inimigo”. A violência é “cada vez mais hedionda”, diria o Papa na homilia.
“Não poderíamos invocar o nome de Deus sem pedir perdão aos nossos irmãos, à Terra e a todas as criaturas”, acrescentou o Papa na sua intervenção final. “Pedimos perdão por todos os nossos pecados, ajuda-nos a restaurar o teu rosto que desfiguramos com a nossa infidelidade. Pedimos perdão, sentindo vergonha, àqueles que foram feridos pelos nossos pecados.”
A confissão dos pecados é “uma oportunidade para restaurar a confiança na Igreja”, porque esta não pode ser “sinodal sem reconciliação”.
Na cerimónia estavam todos os participantes desta segunda sessão da XVI Assembleia Geral do Sínodo sobre a sinodalidade, cuja primeira parte decorreu há um ano e que constitui um órgão de aconselhamento do Papa. Ao contrário do que é habitual, esta XVI assembleia do Sínodo dos Bispos integra também padres, religiosas e leigos, incluindo mulheres.
Nesta quarta-feira, o Papa preside à missa com a qual se dá início formal aos trabalhos, a partir das 9h30 (8h30 de Lisboa); à tarde, decorre a sessão de abertura, durante a qual será apresentado o ponto de situação dos grupos de trabalho estabelecidos pelo Papa, sobre vários temas: pobreza, missão no ambiente digital, ministérios (incluindo a participação das mulheres na Igreja e o acesso das mulheres ao diaconado), relações com as Igrejas Orientais, vida consagrada e movimentos eclesiais, formação do clero, ministério dos bispos, papel dos núncios, ecumenismo e questões doutrinais, pastorais e éticas “controversas”.
Quer a missa quer a primeira sessão de trabalho serão transmitidos pelos canais de informação do Vaticano.
A vigília penitencial não é o único acto fora da rotina da assembleia. Já no próximo dia 11, assinalando os 62 anos do início do II Concílio do Vaticano, a comunidade monástica de Taizé anima uma vigília ecuménica de oração. Nos dias 9 e 16 haverá dois fóruns teológico-pastorais sobre questões como a autoridade do bispo numa Igreja sinodal e a relação entre Igreja local e Igreja universal. No dia 21, tal como sucedeu nos últimos dias [ver 7MARGENS], haverá um novo retiro, antecedendo a redacção do documento final do Sínodo, iniciado em 2021.









