Tão assídua quanto contida, epifânica,
tão abstrata quanto precisa no jogo mais meticuloso das emoções,
equilíbrio brilhante entre elegância, discrição e confissão,
a poesia de José Rui Teixeira torna-se uma inteligência imprescindível.»
[Valter Hugo Mãe]
Li e reli UZUME. Vezes sem conta, devo confessar. Quando José Rui Teixeira me solicitou que apresentasse este seu livro, ignorava a escrita ‘estilhaçada’, como ressonância da sua voz, a refulgir desde certos silêncios telúricos. De um habitante a convidar, digamos assim, para «um lugar desprotegido». O dele, nem mais. Imaginava, porém, que algo o tangia para abraçar o corpo ― primeiro o dela e, supostamente, outros mais ―, após um qualquer tumulto. Isso me sugeria uma das suas epígrafes: «Tumulto en el norte, me abrazo a tu cuerpo astillado».

Enviado em primeira versão, ele não contava ainda com o Prefácio, escrito em língua galega, pela jornalista e poeta Nieves Neira Roca, de Lugo. Apenas o nome dela era revelado. Nada mais. Ao nome, as páginas sucediam-se em branco. O lugar aguardava. Eu também. E, digo-o agora: «Ainda bem!». Porquê? Porque Nieves escreveu um texto deveras iluminador. Aliás, como a sua voz é, lendo poesia. Sim, dela me recordava, pois tinha-me fulgurado no Theatro Gil Vicente, por ocasião do último «Poeta à Solta», encontro de poetas promovido pela Câmara Municipal de Barcelos, em parceria com o projeto editorial Officium Lectionis, com a coordenação da Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner Andresen, da Universidade Católica Portuguesa. Na verdade, no Prefácio que escreveu ― sob o mote da sentença «Ler um livro é somar-lhe páginas» (Maria Gabriela Llansol), e lido mais tarde, já com o corpo de UZUME publicado em mãos ―, verifiquei que ela acende ritualmente uma lâmpada, como sucede em cada farol na Costa da Morte. Se o litoral é generoso no estuário dos rios, ela avança, porém, por um outro rio adentro, escalando até aos olhos d’água dos afluentes. Avança pelo pensamento. Avança com as gaivotas. E sobe ao sabor de uma canção de Zeca Afonso: «Vejam bem/ Que não há só gaivotas em terra/ Quando um homem/ quando um homem se põe a pensar».
Submergindo na liquidez e compacidade de UZUME, ainda aquém desta iluminação ― que, neste momento, agradeço, e é fonte de felicitações para Nieves e José Rui Teixeira ―, procurei investir noutras lentes, cinco ao todo, comungando das mesmas paisagens poemáticas. Para afiná-las, desde logo, servi-me da onírica pintura da capa, do pintor Agostinho Santos. Recordado da sua exposição «Ao contrário do inferno», promovida pela Câmara de Paredes, fui tomado de assalto e vi na pintura da capa uma ‘infiltração’ do «outono esconso» (poema 11, v.2) no corpo do poeta. Sim, vermelha no sangue da erva, da palavra e dos rostos alados. Poeta que, de corpo aberto, desliza já sobre um trenó branco no vale escuro do inverno. Pelo que me revi nas palavras de Valter Hugo Mãe, curador da exposição, quando disse que ela surge como modo de «meditar sobre a questão do paraíso, uma vez que as obras de Agostinho Santos surgem a partir de um ponto de vista do acidente, do defeito, do erro, a partir da nossa incapacidade, da nossa incompletude e, por isso, é como se estivesse a discursar sobre o paraíso, mas inevitavelmente, tem um pouco a sensação de que nós estamos com um pé no inferno». Donde, veremos mais adiante, José Rui Teixeira gostaria de ver-se livre, persuadido por quem lhe diz: «Antes ser uma sombra/ esculpida pela luz do que tipógrafo no inferno.» (poema 16, vv.13-14). Não será, também, desses pontos de visão, que José Rui Teixeira escreve UZUME? Detenhamo-nos, pois, nas cinco lentes, progressivas e com diversos campos focais, a partir de certos desvios. E, desde o início, escutemos o «rumor meridional» (poema 11, v.1) que zune nos gestos de quem nos acena.

[Valter Hugo Mãe, juntamente com Rui Santiago, na sessão comemorativa dos 50 anos de José Rui Teixeira no auditório do Colégio Luso Francês © Elisa Leal]
Sob o signo da «ottobrata»
Aproximemo-nos de UZUME através de aparentes desvios meridionais. As suas tonalidades levam-me, primeiro, até à insularidade da Sicília, aos declives do Parco dell’Etna. Ao longe, mas não assim distante, imaginemos o Etna, em magma escurecido, com os seus vapores diáfanos de corpo aberto, fumegando no seu altíssimo cone. De vez em quando, um jorro espargindo-se alaranja a sua atividade. E há esplendor escorrendo pelas fragas noturnas. Que faremos ali? Sentemos. Sim, sobre as cinzas vulcânicas. Bem, é só para isso? Já veremos. O convite, notemos bem, é tanto para contemplar o sol do entardecer em Zafferana Etnea, pequena cidade encostada ao Etna, como para usufrui-la, desde a manhã, com passeios na natureza por atalhos sobranceiros ou entre os vinhedos. Outubro é ainda mês de vindimas, da casta Donnafugata, cujos vinhos surpreendem em transparência e requinte. Colhidas durante a noite, as uvas conservam propriedades que o sol das tardes não garante. E o vinho, fazendo jus à frescura dos noturnos, acende-se como uma constelação de aromas.

[Contemplando os declives do Parco dell’Etna © Joaquim Félix]
Em pleno centro histórico, durante os domingos de outubro, festeja-se a dionisíaca «ottobrata zafferanense». Iluminadas pela luz solar, refletida nas pedras negras e no cascalho lávico das vertentes do Etna, a praça central e as ruas adjacentes enchem-se de tendas e bancas com produtos locais exalando os seus perfumes: azeitonas, azeite, uvas, vinhos, pistácios, castanhas, maçãs, nozes, mel, licores, cogumelos porcini, cabaças, malaguetas, etc. É possível degustá-los, tal como outras iguarias da culinária siciliana. Também as exposições de fotografia, o artesanato em madeira e pedra lavar, os espetáculos dos artistas, acrobatas e músicos alargam a experiência sensorial da fruição do lugar.
Espero que esta atmosfera tenha invadido a imaginação, abrindo-a de forma cinésica. Porém, porque introduzi esta apresentação em plural, distendo-a até outra famosa ottobrata. Isso mesmo, as «ottobrate romane». É o segundo desvio. Sim, desloquemo-nos para Roma, a cidade das sete colinas. Por este itinerário, não pretendo criar uma paráfrase temática, associada a um outro livro do José Rui Teixeira, isto é, «Entre a ínsula e a península», com posfácio de Jordi Cerdà. É verdade que passamos da ínsula à península itálica. Mas, tão-pouco, desejo sugerir-vos o esplendor da luz solar de outubro, em Roma. Tal maravilha é um segredo aos olhares sensíveis que só se desvela in loco.

[Contemplando o adeus de uma ottobrata romana, junto do Pantheon © Joaquim Félix]
Prefiro conduzir-vos a um claustro, próximo da Piazza Navona. Precisamente, ao Chiostro di Bramante, integrado no complexo da igreja de Santa Maria della Pace. É uma das obras-primas do renascimento italiano, desenhada por Donato Bramante, somente concluída em 1504. Nos últimos anos, o claustro tem funcionado como galeria de arte contemporânea. Muitas das obras de arte nele apresentadas são concebidas especificamente para o lugar. Por experiência própria, posso garantir-vos que não se trata de mais uma galeria que acomoda obras de arte. Antes, pretende-se proporcionar formas absolutamente diversas de vivenciar a arte, através de caminhos invisíveis, imersivos mesmo, que convocam os contemplativos a interagir com as obras, aventurando-se em perceções imprevistas. Quem nos conduz? Nem mais nem menos, a voz poética dos artistas, todos eles escolhidos entre os mais reconhecidos e provocantes da contemporaneidade. Voz que se faz ouvir desde o mês de fevereiro ― em pleno inverno, portanto ―, prolongando-se até ao inverno do ano seguinte.
Porquê esta abertura, das ottobrate até ao Chiostro di Bramante? Porque, em UZUME, José Rui Teixeira leva-nos até ao anoitecer sobre este claustro, no poema 29: «Anoitecerá sobre o Claustro/ de Bramante como mais cedo/ ou mais tarde anoitece/ em todos os lugares.» (vv. 11-14). E, com a sua voz poética, por um caminho longo e invisível, contemporiza-nos com as suas ottobrate, os seus poemas, como quem nos faz participar de um officium lectionis na sua pars autumnalis. Isto é, num ofício de leitura na sua parte outonal. Neste outono, ele faz-nos sentir o que escreveu, ou se lhe atribui, Albert Camus: «O outono é uma segunda primavera, na qual cada folha é uma flor».
No outonal, um mês, mais que todos os demais, me parece central: outubro. Muita coisa sucede no outono, sobremaneira, em outubro. Desde logo, a celebrada nos poemas, sobrevindo como num memorial, explica o outono que se apresenta sem ela. Assim o confessa José Rui Teixeira: «A tua presença explicava o outono,/ trazia a integridade da terra,/ um silêncio orbicular alteado/ sobre a turbulência de não saber ainda/ a morte nas folhas caídas.// Hoje, o outono vem sem ti./ Já não me acode o teu silêncio.» (poema 2, vv.1-5). E, assumido o mesmo não-saber, acrescenta: «E não me apercebi que para sempre nos despedíamos/ nessa tarde de outubro.» (poema 3, vv.8-9).
Humidificado pelo gume da despedida, esse corte instala-se no outono, zunindo como uma abelha na chuva. Na travessia do diurnal minguante, José Rui Teixeira sente adveniências: «Pressinto o outono esconso/ nos dias que minguam, que zunem.// Sei que vivemos sob a chuva./ Somos como num posfácio,/ mas este não será o último outono.» (poema 11, vv.2-6). E lendo a liminaridade dos dias outonais, que contagiam até as ruas, não teme o entardecer: «E são mais outonais as ruas desertas/ ou as pessoas que as esvaziam,/ despidas como árvores caídas/ de haver folhas pelo chão/ e dias pequenos e lâmpada nenhuma/ de fazê-los crescer.» (poema 15, vv.7-12). A imaginação, porém, devolve-o à esperança, numa aparente inconciliação de paradoxos: «Imaginei uma casa dessas praças/ em que todos os dias o outono/ entardece a vida.» (poema 21, vv.1-3). Entardecer consentido, mesmo se, no claustro do outono, ele não se desprende de nenhum minuto, antecipando a nudez contra a dura transparência: «É tarde, mas a magnólia ainda não se despiu.// As moscas exercitam o outono contra os vidros/ com a abnegação de imaginá-la despida,/ mas sem tempo de vê-la florir.» […] «Quando abro os olhos/ a solidão devolve-me qualquer ermo/ onde o outono me conforta com frieiras.» (poema 27, vv.1-4 e 10-12). Todavia, o conforto, que abre o corpo nas extremidades, não lhe confere pousio à interrogação de fundo: «Como sobreviverei ao outono, pergunto» (poema 29, v.6). Na espera que há de florir? Em qual estação? No inverno, ainda? Ou terá de esperar março? Transumante para o inverno-primavera, UZUME proporciona as ottobrate de José Rui Teixeira.

[José Rui Teixeira nas ottobrate dos cinquenta © Elisa Leal]
Fuyuzare, Kaeribana, Shimiji
O presente livro compõe-se de trinta poemas, distribuídos por três secções, intituladas com termos japoneses: Fuyuzare, Kaeribana, Shimiji. Cada secção reúne dez poemas. Tendo presente o estudo que fez em Furusato. O Japão de Valter Hugo Mãe, depreendo que José Rui Teixeira não procurará ‘explicitar’ estas três categorias. Estou persuadido de que, também sem preocupações epistemológicas no campo da antropologia cultural, com estas categorias, ele nidifica os seus poemas num organismo implícito, que converte o espaço e o tempo numa paisagem que […] se expressa na intimidade que se estabelece entre a representação e a significação, pela reiteração poética» (Sinopse do livro Furusato).
Em quaisquer dos casos, se nos interrogarmos, poderemos aventar plausibilidades. Sentir-se-á José Rui Teixeira no estado de Fuyuzare, em pleno inverno? Que desgastes poderá ele, o inverno, ter originado com o frio, as despedidas e a intransitividade dos caminhos? Que ante et post mortem habitarão o desprotegido na solidão? Que afluente desagua neste imaginar: «Imaginei que seríamos tristes/ por amor ao silêncio das árvores mais antigas/ e aos pássaros impossíveis que nas suas copas/ nidificassem para sempre.» (poema 21, vv.4-7)? Os rigores do inverno desfolham o ânimo? E a fé?
Porventura em adstringência às estações do ano, como é típico, por exemplo, da poesia haiku, José Rui Teixeira estabelece-se no tempo em regime de transumância. E, já em Kaeribana, quem sabe, sente-se como flor que abre no tempo inesperado. E fora do tempo. Como rosa branca ou mundo em botão, em pleno inverno, confia à geada as pétalas. Ele cuida o milagre, na ambiguidade do sinal: prolongamento do estio, ou profecia da primavera? Ou ambas as estações reunidas na flor aberta? Corpo aberto, como flor fora de tempo, assim se imaginará? Cerzido à memória, até da infância, ele torna-se oblata estilhaçada ― porque reaberta no altar da vida ― do futuro: «E no sacrifício de cada futuro/ imaginadamente disperso/ entrego-te o corpo reaberto» (poema 15, vv.31-33).

[UZUME vai crescendo e dá lugar a HITORITABI, na elipse de um certo existencialismo nipónico © Elisa Leal]
Na última parte do livro, despontada sob a ideia de Shimiji, ideia talvez mais íntima do que abstrata, José Rui Teixeira desloca-se para o seu interior, no refúgio dos pensamentos. Sente-se só, na recapitulação do seu ser longínquo, à procura do lugar para o corpo: «Sei ser do tamanho da minha infância,/ esse exercício tão equívoco de ocupar um lugar.» (poema 24, vv.8-9). E assim descobrimos, entre outros desejos, aquilo que sempre o atingiu: uma queda mortal sem dor, como forma de amar guardada «em certas falsas promessas» (poema 21, v.12). Uma delas é esta: «Caísses talvez entre os que morrem/ sem amparo e não mais te doesse/ o lugar de ser homem.» (poema 22, vv.12-14).
Creio que José Rui Teixeira se reconhecerá, no espanto que a sua vida lhe dita de forma poética, sempre sem autocompadecimento, pelo que deve ser. E nisto, o poderia dizer como Fernando Pessoa, nos seus Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal: «Pois a poesia é assombro, admiração, como de um ser caído dos céus que toma plena consciência da sua queda». E, porque também com ele comungando, poderia acrescentar: «Nunca vi em mim senão uma romaria de inconsciências para o Outono das minhas intenções». Talvez, digo eu, como um regresso do corpo ao seu lugar de ser. Sim, «o lugar de ser homem». Por qual dos mares poderá ele regressar?

[Serão as ottobrate de José Rui Teixeira fulgurações do seu EQUINÓCIO DE OUTONO? © Officium Lectionis]
Penélope espera o regresso do tardo
Sem consultar arúspices, descobrimos, no final do poema 13, que a amada espera o corpo tardo: «Estar aqui, Penélope,/ é o corpo esperar e ser tarde e eu tardo.» (vv.9-10). Esta ideia percorre todo o livro, como fio vermelho na rede de veias e artérias do corpus poemático. Como se fosse possível estabelecer um oxímoro entre a alegria e a morosidade. E, nele, José Rui Teixeira confessa-lhe, como quem lhe suplica perdão pela falta de fé, na indistinção do azul: «És a alegria da água e eu tardo./ És a transparência imanente da manhã e eu tardo.// Estar aqui é o lugar do teu corpo./ Estar aqui é dizer para sempre e não acreditar/ e repeti-lo e não acreditar ainda/ e pedir-te que esperes/ e não distinguir-te do azul/ e pensar antes de ti não sabia e não saber ainda.» (poema 13, vv.1-8).
Penélope, se bem recordamos, é a mítica amada que não se cansa de esperar. Esperou anos e anos o tardo Ulisses, seu esposo, que tinha ido para a guerra de Troia. Engenhosamente, conseguiu evitar o segundo matrimónio que seu pai, Icário, lhe sugeria perante a demora de Ulisses. Penélope pôs como condição terminar um sudário ou dossel funerário para Laerte, pai de Ulisses. Só depois escolheria um pretendente. Porém, enquanto de dia o tecia, de noite, desmanchava-o. Entretanto, poderia chegar Ulisses. Descoberta a estratégia, mas querendo ser fiel ao seu primeiro marido, ela urdiu uma nova condição: casar-se com aquele que encordoasse o arco de Ulisses. Duríssimo era o arco de Ulisses. Que homem o encordoaria? Um humilde camponês. Quem seria? Nem mais nem menos, Ulisses! Tinha chegado, assim disfarçado. Tarde, mas chegou a tempo.
José Rui Teixeira, parece-me, dita a distância e a demora, nos seus poemas, através de várias metáforas: nos minutos contados um a um, após apagar a luz (cf poema 1); na queda e travessia da noite, no outono e seus frutos sobre a mesa, nos dias pequenos e na chuva, nos crepúsculos… no corpo feito tarde, no nome «debaixo da terra ou sob escombros» (poema 23, v.1). E porque se sentirá assim ‘tardo’ e ‘distante’? Porque ele se assume como longínquo: «Quatro minutos depois de apagar a luz/ penso que o escuro tem barcos ao longe/ e há um mar imenso sob a espessura das sombras./ Na hora da morte,/ um homem longínquo/ assemelha-se aos seus antepassados/ e diz é tarde por amor ao que é vago.» (poema 1, vv.22-28). E esta é a hora do poeta, a hora da morte. Estar aqui. No ataúde, em espera.

[Também nós esperamos José Rui Teixeira © Elisa Leal]
Nessa simultânea ubiquidade, aventada do que é eterno, ele a reconhece. Sim, a custo de «não acreditar ainda» e de «não saber ainda» (poema 13, vv.5 e 8), como possa ter ela ― Penélope, a amada do princípio, a avó, as outras amantes ― chegado: «Quando vieste eu estava preparado/ para a morte.» (poema 14, vv.1-2). E porque longínquo, digamos assim, ele reconhece: «Quando vieste eu tinha o corpo feito tarde» (poema 14, v.14). Ah!, e como a aranha na ciência da sua teia, ou ao espelho, urdia o sudário, dizendo-se a si próprio: «Como quem urde insónias e cansaços/ no rumor desse precipício, disse a mim mesmo:/ Não te ausentes da morte. Não acredites.» (poema 14, vv.17-19).
Ao dizer-lhe: «e não distinguir-te do azul/ e pensar antes de ti não sabia e não saber ainda», fui transportado aos versos de Hölderlin: «É deus desconhecido?/ Ele apareceu como céu? Acredito mais/ que seja assim». Sem distinguir-se do azul, do lápis-lazúli ao índigo e ao meia-noite, ela está. E pode reconhecê-la como sucedeu a Jacob, que, acordando do sono, se espantou com a presença do Senhor, dizendo: «Na verdade o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia.» (Gn 28,16). Enfim, o amante, antecipando-se como amor que é, chega a quem espera (cf. 1Jo 4.10).

[O azul toma conta de José Rui Teixeira © Elisa Leal]
Uzume e a dança da nudez para sorrir
Em relação à crença, José Rui Teixeira faz perguntas indiscretas: «O que sabes de deus, pergunto diante do espelho» (poema 30, v.4). E, evitando um itinerário, talvez previsível, investe na história ‘metafórica’ de uma deusa xintoísta: Uzume. Que, aliás, dá título ao presente livro.
Quem era Uzume, para que possamos abrir o corpus poemático? Conta-se que Susanoo, deus das tempestades, sabendo que iria ser expulso da terra dos mortos, como castigo dos prejuízos que causava, pediu a seus pais para visitar o palácio da sua irmã mais velha, Uzume, deusa do amanhecer, da alegria e da dança. Queria despedir-se dela. Porém, aproximando-se do palácio, ele destruiu os arrozais, atirou um cavalo esfolado para o seu tear e assassinou de forma brutal uma das suas donzelas. Sabendo disso, Amaterasu, deusa do sol, escondeu-se numa caverna. Privado o mundo da luz solar, os deuses foram até à porta da caverna, a fim de lhe pedirem para que saísse e voltasse a iluminar. Estando eles assim expectantes, algo de impensável acontece: Uzume começa a dançar. E as suas roupas caem-lhe. Surpreendidas, as divindades começam a sorrir. Ouvindo o seu riso, Amaterasu abriu a caverna e saiu para fora, cessando assim o seu eclipse sobre o mundo.

[José Rui Teixeira começa a dança da voz © Joaquim Félix]
Perante a tempestade da história, que levou os amantes, até por um hipotético suicídio, ou por falta ao suposto «processo», José Rui Teixeira depreende que «Nenhum cadáver é suficientemente esquisito/ e ninguém pode competir com o seu passado.» (poema 24, vv.1-2). Onde se esconde o poeta? Ele o diz: «o meu nome debaixo da terra ou sob escombros/ assemelha-se àquelas paisagens/ de que só guardamos as cores mais frias. // É um nome subterrâneo, um nome sem unhas/ com que raspar a vida, um nome ainda sem agulhas, / quase sem fluidos, simulacro de um fim ocasional/ ou da extinção das espécies.// O meu nome debaixo da terra ou sob escombros/ assemelha-se a fechar os olhos/ para imaginar a cegueira.» (poema 23, vv.1-10). Nesse fundal, nesse nome eclipsado, pode ele dizer, perante a violência abatida sobre os campos e as criaturas, numa espécie de comprazimento de esconderijo: «De todas as paisagens, a escuridão é a mais bela.» (poema 24, v.10).
Que diriam os deuses, ou os leitores, que passassem diante desse lugar telúrico? O próprio poeta o admite: «Alguém que passasse diria:/ Como é triste imaginar a cegueira/ quando se é cego a fingir.» (poema 23, vv.11-13). A fingir? Sim, porque ele o confessa, logo a seguir, no poema 24: «Antes de apagar a luz,/ memorizei todas as arestas da casa,/ mecanizei cada movimento,/ aprendi que poderia ser cego/ e ainda assim ver.» (vv.3-7).
E que cegueira será esta? Deliberado fingir? Mas não é o amor fingimento? «Nenhum amor é maior do que o que se guarda/em certas falsas promessas.» (poema 21, vv.11-12), confessa o poeta. Que disse Camões nos sonetos de fingimento? Também Bocage, assim comunga: «E se entre versos mil de sentimento/ Encontrardes alguns, cuja aparência/ Indique festival contentamento,/ Crede, ó mortais, que foram com violência/ Escritos pela mão do Fingimento,/ Cantados pela voz da Dependência.». Poderá o poema ser, a seu modo, o lugar para o corpo? Um lugar para a morte? Será possível resgatá-lo, o nome no poema, para na luz que se abre, só e rutilante, dentro da caverna? Por certo. Porque, tal como corpo dela, também o seu «nunca coube no poema» (poema 3, v.7).

[No final da apresentação de UZUME, capela da Imaculada, Braga © Joaquim Félix]
Tantas são as perguntas que nos podem cegar a voz, só de as fazer. Nem precisaremos de alastrá-las, porque desnecessárias. O próprio José Rui Teixeira no-lo diz, agora, sem subterfúgios: «O poema constrói um baixio para a morte/ repetir a morte. Não, tu sabes. O poema/ é um açougue para os danos colaterais,/ amores impossíveis, amores/ impossíveis,/ amores/ impossíveis,/ amores. Não.» (poema 27, vv.1-8). Um açougue? Quem o poderia dizer melhor? Talvez só Francis Bacon, que, entrando nele, voltaria a perguntar-se: «Porque no lugar deste cadáver não estou eu?». Pois! Ele, que é o artista do «corpo vivido», soube filosoficamente estabelecer as bases de um certo empirismo, da imanência. Na força daquele refrão cantado por José Rui Teixeira: «O corpo é a memória que nos resta» (poema 28, vv.11 e 14). Eis porque, entre tantos reptos a acreditar e a não acreditar, mergulhado nas suas incertezas, conclui: «A fé é uma ferramenta sem descanso» (poema 4, v.7).
Acordando nos poemas, ao sorriso de quem está fora, pressentindo a dança da nudez do nome, o poeta acrescenta, no poema 16: «Acordo na caverna como quem reincide/ no escuro, esse exercício ubíquo de regressar/ ao lugar de onde nunca saí e aí abrir os olhos/ e ver nada e repetir,/ de abulia em abulia,/ os últimos versos.» (vv.1-6). Para ouvir de quem lhe responde, sem apaziguamento: «Antes ser uma sombra/ esculpida pela luz do que tipógrafo no inferno» (vv.13-14).

[Contemplando o atelier de Fancis Bacon © Joaquim Félix]
Como sobreviver ao outono?
Quase a terminar, voltemos à questão de fundo do poeta: «Como sobreviverei ao outono, pergunto» (poema 29, v.6). José Rui Teixeira irá, porventura, cuidar agora dos bonsais? E, como diz, amaciar «a lâmina no ventre» (v.8)? O outono não lhe será ingrato. Antes, ver-se-á ao espelho antecipado, no prolongamento do estio, como a primavera de março: «Esperarei por ti no primeiro dia de março,/ na quarta hora da tarde.» (vv.9-10). Oh, sim, recordemos ainda, como uma música que volta à sua chave: «Anoitecerá sobre o Claustro/ de Bramante como mais cedo/ ou mais tarde anoitece/ em todos os lugares.» (vv.11-14). Mas agora, prossigo a citação, sem ignorar as suas letras diminuídas, tão típicas da pobreza e da morte, comungando nisso com Rainer Maria Rilke, tomando-as como chave da esperança: «E apenas duas coisas podem acontecer:/ a vida num intervalo da primeira morte/ ou a segunda morte» (vv.15-17).
Precisamente com esta chave, vejo-o já mergulhado nas suas ottobrate. Não enumerando a lista dos frutos e produtos locais de Zafferana Etnea, na sua praça central, mas com poemas à semelhança deste, onde rebrilha, em todos os sentidos, como vulcão em atividade ou tsunami sobrevindo à praia onde diante do mar espera: «Foste lírio, hoje, azul e madrugada,/ mapa-múndi, pêndulo,/ instante,/ água.// Foste sul, planície, fome, cio, fio,/ promessa, noite aberta,/ entrada.// Foste som, rumor, silêncio, adeus,/ porta fechada.» (poema 19, vv.1-9).
José Rui, permite este ponto final: podes dizer que foste «pouco,/ menos, quase», ou então «Hoje sou nada» (vv.10-12). Recorda, porém, como memento eterno, mesmo que não saibas o que fazer do corpo ― dela, do teu e dos outros ―, na procura do seu lugar, nesse lugar que não doa tanto, nem um pássaro descerá: nunca arrefecerá o corpo, nem do abraço o apertar. Pensa, sim, no fígado de Prometeu, que crescia para matar a fome às aves. Não valerá o fogo descido à terra? Então, talvez não vejas ainda, mas eu já vislumbro a hora de assistir, entre os teus livros, este como todos os outros, o «fogo de artifício/ da festa/ do fim/ do mundo.» (poema 30, vv.15-18). Até porque, como bem o afiança Nieves Neira Roca, «Se “nenhum pássaro desce/ ao lugar de ser homem” menos ainda ascende un froito á boca. Se a desolación invernal existe faino porque non hai só gaivotas en terra, porque no sabemos que hacer co desexo nin coa morte, porque é a festa do fin do mundo coando un home pensa».

[Saudações finais na apresentação de UZUME © Joaquim Félix]
Tem calma, porém! Porque todos te podemos reiterar em ressonância de fundo ― na similitude das melodias do shutri box (harmónio indiano), tocado pela Nieves, enquanto lias alguns dos teus poemas ― o título que se encontra escrito no saco de pano de uma jovem, que aqui se encontra a escutar-nos: «Ainda não é o fim/ nem o princípio do mundo/ calma é apenas um pouco tarde». Sim e, outra vez, sim, escuta perenemente este poema (título), de Manuel António Pina, que apareceu nesta floresta ‘cheia de graça’, junto ao grande monólito de granito, atento no seu ouvido branco. Ouvir-te-emos ditar «e eu tardo», na sonoridade da tua voz harmónica, quando e quanto queiras.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.










