“Aquilo é um padre?” Aqueles são jovens que sofrem? E são jovens que cantam e querem um cristianismo de alegria? O encontro Rejoice! junta três mil jovens católicos neste fim-de-semana, numa memória nacional da JMJ Lisboa 2023. A paz está no centro da reflexão.

Perante o apelo de Matay, rodas gigantes, filas de abraços enchem o espaço enquanto os jovens cantam. Foto © António Marujo/7MARGENS
“Aquilo é um padre?” A pergunta vinha de um adolescente acabado de chegar, com ar incrédulo, ao olhar para o palco e ver o “DJ” padre Guilherme Peixoto, 50 anos, enquanto um grupo de agentes da GNR filmava a atuação com os seus telemóveis.
Aqueles são jovens que sofrem? Nicola trouxe a voz dos cristãos de Belém, na Palestina, onde as guerras e o ódio obrigam muitos cristãos a colocar a vida toda numa mochila; uma jovem enfermeira contou a história de uma família síria que não perdeu a esperança, apesar de o seu bebé ter sido afogado por outro refugiado durante a travessia porque não parava de chorar e os outros tinham medo que o barulho alertasse a polícia marítima; e uma outra jovem veio do Líbano para Portugal depois da explosão no porto de Beirute, mas não consegue ter paz porque o primo de dez anos está no Líbano a fugir das bombas.
E aqueles são jovens que cantam, se divertem e querem que o cristianismo seja alegria e não tristeza, esperança e não desalento? Entre um festival de música durante a tarde, uma vigília de oração e testemunhos à noite e um conjunto de tendas onde se mostravam os mais diversos carismas e caminhos no interior do catolicismo, assim se fez o primeiro dia do Rejoice!, encontro nacional de jovens católicos que este fim-de-semana decorre em Lisboa.
Os três testemunhos trazidos à noite do Rejoice! (palavra inglesa para dizer “Alegrai-vos”) marcaram a noite de vigília de oração com que encerrou o primeiro dia da iniciativa que pretendeu assinalar um ano da realização da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa.

Nicola Ghobar, cristão palestiniano de Belém: “Se esta guerra não acabar, a minha vida ficará resumida a duas malas, a Terra Santa ficará sem cristãos e os santos lugares estarão em perigo.” Foto © António Marujo/7MARGENS
Perante cerca de três mil jovens de todo o país – mesmo se predominava Lisboa –, Matilde Salema, jovem enfermeira contou como um dia viu a foto do pequeno Alan Kurdi, de três anos, que morreu afogado em 2015, perto de uma praia na Turquia, juntamente com a mãe e um irmão, quando a família tentava chegar à Grécia. “Fui tentar perceber o que era a guerra na Síria e decidi ir para um campo de refugiados.” Foi para Lesbos, na Grécia, onde acabou por conhecer uma família a quem outros refugiados tinham afogado o bebé de colo, que não parava de chorar e podia, com o barulho, chamar a atenção das lanchas da polícia grega.
Nicola Ghobar falou da realidade dos cristãos palestinianos: “Entre guerras, a covid e esta guerra que parece não ter fim, já não temos muitas oportunidades de ficar e aguentar. A pobreza, a fome e o ódio aumentam cada vez mais e nos sentimos estrangeiros na nossa própria terra. Se esta guerra não acabar, a minha vida ficará resumida a duas malas, a Terra Santa ficará sem cristãos e os santos lugares estarão em perigo.”
“O Senhor me fortalece, Deus está sempre a meu lado – o Senhor, que vem ao meu encontro”, cantam os jovens no intervalo dos testemunhos, ajudados pelos cantos fundos e intensos da comunidade ecuménica dos irmãos de Taizé.
Patriarca: “Abrir estradas de oportunidades e de futuro”

Hila Maria, do Líbano: “Como posso ter paz se o meu primo, só com dez anos, anda a fugir das bombas?” Foto © António Marujo/7MARGENS
Hila Maria, jovem libanesa de 15 anos, conta que veio para Portugal depois da explosão no porto de Beirute, em Agosto de 2020. Os pais tinham medo da situação conflituosa que o Líbano já vivia. “Sem paz no mundo, não podemos ter paz espiritual”, diz. “Como posso ter paz se o meu primo, só com dez anos, anda a fugir das bombas? Falta a resposta à pergunta: qual o papel de cada um de nós para alcançar a paz?…”
No momento em que a pergunta fica no ar, o incenso que dá solenidade à vigília perfuma o espaço da pala do Pavilhão de Portugal no Parque das Nações, onde decorrem os actos centrais do encontro – neste domingo, 20, será ali que os jovens se reunirão para a “missa de envio”, a partir as 14h.
Momentos antes dos testemunhos, aliás, os jovens tinham ficado em absoluto silêncio, quando convidados a um momento de contemplação, ajoelhados perante o santíssimo sacramento, a hóstia consagrada.
O patriarca de Lisboa, Rui Valério, tinha feito a sua homilia insistindo na ideia de os jovens serem “artesãos da esperança”. E a propósito contou uma curta história do diálogo que teve há dois anos com o arcebispo católico de Bangui (República Centro-Africana), cardeal Dieudonné Nzapalainga: depois de 2013, com a guerra civil, a vida tinha parado, dizia ele; não havia trabalho nem escolas a funcionar. Mas nesse momento já havia condições para as crianças se reaproximarem das escolas e deixarem as ruas onde vegetavam durante o dia. A sua urgência era reequipar escolas e “abrir uma estrada de oportunidades e de futuro para as crianças”.

A canção vencedora do festival no momento da aclamação: ganhou Leiria-Fátima. Foto © António Marujo/7MARGENS
O mesmo devem fazer os jovens, pede o patriarca: “A quem vive na berma de uma estrada, a quem perdeu o emprego, a quem está na cama de um hospital”, deve propor-se “uma nova vida, um novo horizonte”.
Horas antes desse grande silêncio, dos testemunhos, dos cantos meditativos, os tinham dançado e pulado ao som de música eletrónica, de um festival de canção e de um concerto de Matay. O padre Guilherme Peixoto, o mesmo que na JMJ Lisboa 2023 despertou os jovens na madrugada de domingo no Campo da Graça, antes da chegada do Papa para celebrar a missa do envio, abria desta vez o encontro e de imediato se instalou o ambiente de festa.
Depois, 15 dioceses apresentaram as canções vencedoras dos respectivos festivais da canção de mensagem. Lisboa, com “Brilhou uma grande luz”, era claramente a canção preferida da maioria – não só por serem da diocese a maior parte dos participantes no encontro, mas também pelo ritmo forte e crescente que a música impunha. Mas Lisboa (“Brilhou uma grande luz”) tinha uma letra mais desviada do tema proposto a nível nacional, embora com uma inspiração mais bíblica (“Uma fonte já brotou no seco deserto/ E a paz reinará no universo”), o que acabou por dar a vitória a “Chama viva”, de Leiria-Fátima: “Esperança, chama viva que ilumina e aquece os corações,/ Fazei presente o amor de Cristo, em todas as gerações.”
Música: forma de unir um mundo dividido

Martim Azevedo Pereira: “Tem de haver decisões, qualquer dia não temos futuro.” Foto © António Marujo/7MARGENS
Martim Azevedo Pereira, 17 anos, estudante da área de Ciências/Biologia, que quer seguir medicina, toca violino desde os cinco anos e está ligado à paróquia lisboeta do Campo Grande. O padre Guilherme mostrou como ela pode ser também um modo de “mostrar uma Igreja diferente, com energia”. Acrescenta que a música “é muito importante, é uma forma de expressão e de união”. E “é tocante as pessoas juntarem-se para criar momentos como este”. Mesmo num mundo dividido, acrescenta. E conta a história de um professor que tem insistido na ideia de que a música deveria ser levada mais vezes às pessoas como forma de as unir. Martim acrescenta uma frase que já ouviu a alguém: “A guerra é feita por pessoas que não se conhecem, não se odeiam e se matam entre si, e comandada por pessoas que se conhecem, se odeiam e não se matam.”
Preocupa-se Martim com as guerras e com a emergência climática que se vive no planeta. Já esteve numa manifestação contra a invasão russa da Ucrânia, sente-se “inquieto”; e queria ver mais decisões para arrepiar o caminho de destruição do clima e do planeta. “Tem de haver decisões, qualquer dia não temos futuro”, e não ficar pela indiferença – “os indiferentes serão sempre indiferentes”, diz, ao mesmo tempo que no ecrã gigante passa um vídeo do Papa Francisco a afirmar que não quer os jovens sentados no sofá.

Inês Almeida: “Ser cristão não é só estar numa igreja a rezar.” Foto © António Marujo/7MARGENS
Matay vai pontuando o seu concerto de música soul com apelos de mais atenção a problemas como a saúde mental. “Está cada vez mais presente e começa cada vez mais cedo.” Por isso pede que os mais novos olhem para o lado e percebam se algum amigo, colega, irmão está bem. E pede que todos dêem abraços. Rodas gigantes, filas de abraços enchem o espaço enquanto cantam.
Inês Almeida, 33 anos, rosto aparentando menos, confessa que a música de Matay não é a que mais a chama. “Talvez seja geracional”, diz esta bioquímica de formação, a trabalhar na indústria farmacêutica. Admite que os mais novos que ela, abaixo dos 20, se sintam mais próximos. São eles, aliás, que dominam entre os participantes, muitos são mesmo novinhos, percebem-se os 14, 15 anos, adolescência à procura da vida.
Gostos à parte, Inês, animadora de um grupo de Dois Portos (Torres Vedras), gosta muito de usar a música “como forma de rezar, de contemplar, de experimentar a fé”. No caso do grupo que anima já sentiu que a música pode ser o centro da oração. “Ser cristão não é só estar numa igreja a rezar, o padre Guilherme também quebrou essas barreiras, cada vez mais a Igreja é para todos. E se para todos a experiência do grupo e da multidão é importante (“sentem que há outros a viver a mesma fé, mesmo que de outras maneiras”), diz que os que estão em idades universitárias sentem já a consciência de que “a mensagem de Jesus é para levar e trabalhar em favor de um mundo um pouco melhor”.
Jogos, rifas, seitas e surpresas ao espelho

Colocar o coração nas mãos, durante o concerto de Matay: “já estava com aquela saudadezinha da JMJ.” Foto © António Marujo/7MARGENS.
Enquanto as músicas desfilavam no palco, ali ao lado, na “Cidade da Alegria” também não faltava animação. Duas dezenas de tendas amarelas e azuis albergavam mais de 40 congregações, movimentos e organizações católicas, que pretendiam dar a conhecer a sua missão aos jovens participantes no encontro.
Desde jogos para testar vocações até rifas para ganhar pulseiras com frases inspiradoras, passando por jovens mascarados de santos, não faltou criatividade às diferentes instituições presentes para tentar cativar os jovens. Junto a algumas das tendas chegavam a formar-se filas.
Uma das mais concorridas era a do Opus Dei, que desafiava os jovens a responder a uma pergunta: “Quem será o próximo santo?”. Para descobrir a resposta, cada pessoa tinha de entrar na pequena tenda e espreitar o que estava atrás de um biombo. “Opus Dei não é uma seita? Se calhar é melhor não entrarmos!…”, dizia, meio a brincar, meio a sério, um dos jovens na fila. Entrou e saiu sorridente. “Era um espelho! Muito bom…”
“Isto mostra como esta iniciativa é muito importante para ficarmos a conhecer as diferentes dimensões da Igreja. Confesso que também não sabia bem o que era a Opus Dei, achava que era uma editora…”, diz ao 7MARGENS o jovem que estava imediatamente a seguir na fila. Alexandre Fernandes, 18 anos, veio ao Rejoice com alguns amigos do grupo de jovens “Rumo à Vida”, da paróquia de São João dos Montes (Vila Franca de Xira), ao qual pertence, porque “já estava com aquela saudadezinha da JMJ”.

Mariana Freire e Alexandre Fernandes, de Vila Franca de Xira, vieram ao Rejoice com alguns amigos do grupo de jovens e fizeram questão de percorrer todas as tendas da Cidade da Alegria. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.
Ao seu lado, Mariana Freire, de 17, acena com a cabeça em sinal de concordância. Juntos percorreram todas as tendas da Cidade da Alegria e são unânimes naquela que foi a sua preferida: a do Serviço de Animação Vocacional do Patriarcado de Lisboa, porque lhes proporcionou algo que nunca tinham imaginado que pudesse acontecer, e muito menos ali: falar ao telefone com irmãs de clausura.
“Eu nem sequer sabia que existiam freiras que não podiam sair dos conventos…”, confessa Mariana, que teve oportunidade de conversar com uma irmã do Carmelo de S. José, em Fátima. “Gostei tanto de falar com ela…”, diz, emocionada. “Ela explicou-me que a oração podia fazer toda a diferença na minha vida, mas que não era preciso fazer determinadas orações… o importante era que eu fosse sempre conversando com Jesus. E combinámos que ela ia rezar por mim, e eu ia rezar por ela. Foi mesmo especial”, conta.
Neste domingo de manhã, haverá certamente mais momentos especiais. Os jovens repartem-se, a partir das 9h30, por dez locais de Lisboa para debater a paz: além da Universidade Católica, Seminário dos Olivais e Colégio Salesiano de Lisboa, estarão nas igrejas de Moscavide, Olivais Sul, Parque das Nações, Portela, Vale de Chelas, Alto do Lumiar e São João de Deus.










