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Sombras sobre Francisco, num decepcionante início do Jubileu

Foi um início decepcionante do Jubileu da Igreja Católica: no sábado, no encontro com jornalistas e outros profissionais da comunicação, o Papa Francisco largou o discurso, disse que já eram horas de almoço (tinha já tido sete audiências, incluindo com os presidentes do Panamá e Haiti, dois países com situações complexas), propôs duas ideias sobre comunicação e encerrou o momento, antes de começar a saudar, durante 50 minutos, bispos, clérigos e outras pessoas presentes na audiência.

Em circunstâncias normais, o episódio, em si, não significaria muito. Já não é a primeira vez que o Papa remete para leitura posterior um discurso que tinha preparado, sem o proclamar. Mas neste texto, o Papa começava por designar o mundo da comunicação como “vital” e dizia que este Jubileu era celebrado num “momento difícil da história humana, com o mundo ainda ferido por guerras e violência, pelo derramamento de tanto sangue inocente”.

Agradecia, depois, “a todos os profissionais da comunicação que colocam as suas vidas em risco para buscar a verdade e relatar os horrores da guerra”, lembrando “todos aqueles que sacrificaram as suas vidas neste último ano, um dos mais mortais para os jornalistas” e pedindo uma oração “em silêncio” pelos “que assinaram o seu serviço com o próprio sangue”. Finalmente recordava “todos aqueles que estão presos simplesmente por serem fiéis à sua profissão de jornalista, fotógrafo, [operador de imagem], por quererem ir e ver com seus próprios olhos e tentar contar o que viram”, e pedia aos “que todos os jornalistas injustamente presos sejam libertados” – “Porque a liberdade dos jornalistas aumenta a liberdade de todos nós. A liberdade deles é a liberdade de cada um de nós.”

Substituindo o discurso preparado por umas curtas palavras, o Papa disse três coisas importantes: para todos os que trabalham na área da comunicação, lembrou que “comunicar é sair um pouco de si próprio para dar o meu ao outro; e comunicar não é apenas sair, mas também ir ao encontro do outro. Saber comunicar é uma grande sabedoria, uma grande sabedoria!”

Aos jornalistas, disse que o seu trabalho “constrói a sociedade, constrói a Igreja, faz avançar todos, desde que seja verdadeiro”. E renovou ainda um agradecimento: “Obrigado pelo que fazeis, muito obrigado! Fico contente.” O que também se pode entender como uma mensagem implícita para todos os que (apesar de por vezes fazerem profissão de fé no jornalismo) menosprezam os que fazem da informação a sua vocação e missão.

Mesmo deixando de lado o resto do discurso, o Papa poderia – deveria – ter acrescentado os dois apelos: a que se rezasse pelos (ou pensasse nos) jornalistas mortos e se libertassem os presos. É diferente a força da imagem com Francisco proferir aquelas afirmações, ainda mais perante jornalistas e na primeira iniciativa jubilar, do que simplesmente remeter para um discurso escrito.

Para um Papa que, como bem observava o cardeal Tolentino Mendonça, provoca imagens fortes, esta foi uma extraordinária ocasião perdida.

Este pequeno episódio é relevante porque traduz o ambiente poliédrico que se vive neste momento no Vaticano e no pontificado de Francisco: o lado luminoso tem sido afirmado por Francisco em vários gestos e decisões, mas percebe-se ao mesmo tempo que o Papa está mais frágil (isso verificou-se de novo na parte final da missa, e durante a alocução do Ângelus) e menos capaz de segurar algumas rédeas do governo.

A jornalista filipina Maria Ressa no encontro com jornalistas do mundo inteiro. Foto © Ricardo Perna | Diocese de Setúbal

A jornalista filipina Maria Ressa no encontro com jornalistas do mundo inteiro. Foto © Ricardo Perna | Diocese de Setúbal

Antes disso, no entanto, vale a pena reter ainda algumas curtas notas importantes deste fim-de-semana, incluindo da primeira iniciativa jubilar com jornalistas.

Maria Ressa, a jornalista filipina a quem foi entregue o Nobel da Paz em 2021 (a par do russo Dmitry Muratov) criticou veemente as grandes empresas tecnológicas, que acusou de promoverem a guerra e a manipulação através dos algoritmos. E o escritor irlandês Colum McCann destacou o poder das histórias e das narrativas, como instrumentos de aproximação. No discurso que deixou escrito, o Papa destacou os valores da coragem e pediu que as histórias narradas seja também histórias de esperança. Na véspera, na mensagem para a celebração jubilar das comunicações, também enaltecera a atitude corajosa de muitos jornalistas perante a desinformação. [No 7MARGENS voltaremos a esses textos durante os próximos dias).

Na homilia da missa deste domingo, o Papa insistiu, tomando o texto do evangelho, em que o “compromisso social” é fundamental no cristianismo e na forma de viver o Jubileu deste ano: “Este Evangelho é palavra de compaixão, que nos chama à caridade, a perdoar ao próximo, a um generoso compromisso social” e que chama todas as pessoas a serem “testemunhas apaixonadas de paz, solidariedade e reconciliação”.

No Ângelus, a oração do meio-dia, Francisco referiu a guerra no Sudão, que provocou já a “mais grave crise humanitária do mundo, com consequências dramáticas também no Sudão do Sul”, bem como a preocupação com a situação na Colômbia, com confrontos que já provocaram a morte “de muitos civis e a deslocação de mais de trinta mil pessoas”. O Papa evocou também os 80 anos da libertação do campo de Auschwitz, que se assinalam nesta segunda-feira, 27, e teve ao seu lado um jovem da Acção Católica Italiana, que promoveu uma “Caravana da Paz”: “Como seria bonito se os grandes da terra também atravessassem a Porta Santa de mãos dadas”, dizia o apelo dos jovens. “É um sonho, sim, mas acreditamos muito nele. Seria uma dádiva se eles passassem pela Porta Santa, pensando em todas as crianças vítimas da violência, sozinhas ou doentes, marcadas pela guerra, e pensando nas lágrimas de tantas mães, pais, avôs e avós.”

No sábado, vários debates no âmbito do Jubileu das Comunicações, abordaram também temas como o do papel dos média na construção da paz. O cardeal Matteo Zuppi, enviado do Papa à Ucrânia, afirmou que “não nos podemos habituar à guerra” – e o Papa tem sido uma voz insistente a trazer para a praça pública, domingo a domingo, muitos dos conflitos esquecidos, como de novo aconteceu com as referências ao Sudão e à Colômbia.

Foto de grupo dos sinodais na conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Foto final dos participantes do Sínodo sobre a sinodalidade: Papa assumiu as conclusões da assembleia como suas. Foto © Clara Raimundo

Voltando ao poliedro e a alguns exemplos recentes: a realização do Sínodo sobre a sinodalidade, que provocou resistências claras, mas que afirmou a continuidade com a melhor tradição cristã e com o próprio II Concílio do Vaticano – e que propôs uma Igreja mais coerente com o Evangelho que proclama, mais inclusiva e mais fiel à sua missão – que, como recordava o trecho do evangelho deste domingo, é enviada a “anunciar a Boa-Nova aos pobres, a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista” e “a mandar em liberdade os oprimidos”; a forma como o Papa assumiu como seu o documento final da assembleia do Sínodo; a insistência que tem feito, como consequência da convocação do Jubileu, no perdão das dívidas dos países pobres e em amnistias a presos (os jubileus, na tradição bíblica, eram tempos de repouso da terra e do perdão de dívidas) – ele próprio visitou uma prisão de Roma para abrir uma “porta santa”, num gesto que tem muito pouco seguimento da parte de outros bispos católicos; a nomeação da primeira mulher à frente de um dicastério da Santa Sé, como um “passo” num processo de reforma mais vasta.

Do lado das sombras que caem sobre Francisco, sente-se que a vulnerabilidade do Papa é maior e que, depois de toda a oposição interna que lhe foi movida ao longo dos anos (muitas vezes recorrendo à mentira), a capacidade de governo começa a ser um problema. Tal como a agenda de Francisco, num ano que será intenso, com todas as celebrações jubilares (há pelo menos 34 iniciativas dessas previstas, o que significa dois terços dos fins-de-semana ocupados com um programa muito mais preenchido do que o normal). Até que ponto isso reflecte uma vontade (teimosia?) pessoal do Papa ou uma inabilidade de quem o rodeia e lhe programa as diferentes actividades, está por esclarecer.

Bento XVI: o Papa alemão não teve forças para enfrentar uma sucessão de escândalos entre 2010-2013. Foto © Fondazione Vaticana Joseph Ratzinger-Benedetto XVI

 

Para quem deles se recorda, foram penosos os últimos anos do pontificado de João Paulo II, que morreu em 2005, permitindo que uma teia de cumplicidades se instalasse à sua revelia e deixasse crescer as ervas daninhas dos escândalos de abusos sexuais e de poder. E entre 2010-2103, o Papa Bento XVI também viu o perfume do escândalo a cercá-lo progressivamente, com fugas de documentos, conflitos entre responsáveis da Cúria, histórias pouco edificantes e outros casos. A ponto de essa situação o ter levado à renúncia em 2013.

Com Francisco não estamos ainda no mesmo nível, mas percebe-se já o plano descendente em que o seu pontificado está a entrar. Não é ainda um ambiente de fim o que se percebe no Vaticano, mas é já a antecâmara dele.

É certo que Francisco é suficientemente inteligente para perceber os sinais – da própria fragilidade, das oposições surdas ou de uma actividade que tem de abrandar. Mas há riscos, que vêm da sua própria personalidade – tenacidade, optimismo, vontade de lutar (inclusive contra as dores físicas que se percebiam, por exemplo duranta a alocução do Ângelus neste domingo). E outros que podem vir de circunstâncias exteriores.

O actual Papa fez várias declarações que apontavam para um “pontificado curto”, que trazem uma outra questão para a mesa: saber se não terá chegado a hora de, num futuro próximo (obviamente um próximo papado), a Igreja Católica debater se não deve haver um limite de idade para o exercício do papado, tal como existe para os bispos. A discussão, pelo menos, deve e pode ser aberta. Essas declarações foram sendo aplainadas, pelo objectivo de pôr em marcha o grande desígnio do Sínodo sobre a sinodalidade. Veremos agora até que ponto Francisco pode ainda segurar a vontade reformadora da qual não desiste.

Um ano jubilar é uma ocasião de mobilização dos católicos para que, a partir da mais profunda inspiração bíblica, possam contribuir de forma mais decisiva para uma Igreja mais espiritual e missionária, e para um mundo mais pacífico, mais justo e mais fraterno. Mas este Jubileu de 2025 pode tornar-se intempestivamente, também, um tempo difícil e menos jubiloso, se alguns dos sinais deste fim-de-semana se repetirem ou se agravarem.

 

(Foto de destaque: o Papa no encontro do Jubileu do Mundo das Comunicações. Foto © Ricardo Perna / Diocese de Setúbal)

 

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