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Capas do livro de Carlos Basa Foto CASES
O livro apresenta as origens e os desenvolvimentos de um projeto de cooperativismo em meio rural. Foto © CASES

Livro apresentado em Vila Real

A cooperativa de jovens católicos que o Estado Novo perseguiu nos anos 1940

| 02/04/2025

Criou-se a ideia de que a resistência católica ao regime ditatorial de Salazar e Caetano se iniciou nos finais dos anos 50 do século passado. Nesta sexta-feira, 4 de abril, será apresentado em Vila Real, um livro do professor e investigador Carlos Balsa, que mostra que essa resistência é significativamente anterior. Intitulado Memórias do movimento Metanoia no Marão: Utopia cristã em tempos de ditadura, o trabalho apresenta-nos as origens e os desenvolvimentos de um projeto de cooperativismo em meio rural, inspirado quer nos valores do Evangelho quer nos valores da ação cooperativa, propostos por duas figuras de topo do Portugal do século XX: António Sérgio e o padre Joaquim Alves Correia.

A sessão de lançamento do livro de Carlos Balsa – que ficará em acesso aberto no sítio da CASES – decorre na Biblioteca Municipal de Vila Real esta sexta-feira, 4, às 17.30, com intervenções do presidente da Câmara Municipal da cidade; de Lino Maia, presidente do Conselho Nacional para a Economia Social; Margarida Felgueiras, historiadora; do autor; e de Eduardo Graça, presidente da CASES (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social), entidade que edita a obra.

Carlos Balsa (Vila Real, 1968) é, desde 1997, professor coordenador do Instituto Politécnico de Bragança e investigador integrado no Research Centre in Digitalization and Intelligent Robotics (CeDRI), depois de um percurso de formação até ao doutoramento na área das engenharias, na Universidade do Porto. Tem-se empenhado também na promoção e valorização dos recursos endógenos como potenciadores do desenvolvimento económico e social da região de Trás-os-Montes, através da organização de jornadas de reflexão e debate e da publicação de livros. Em paralelo com a atividade profissional, dedica-se à investigação e à divulgação da história e do património da serra do Marão, em particular as vias de comunicação e o sistema viário antigo do Marão, de que resultaram vários volumes.

O 7MARGENS publica a seguir um texto da sua autoria, que resume o livro. (M.P.)

Capa do livro de Carlos Balsa No final dos anos quarenta do século passado, um grupo de jovens católicos decidiu viver em conformidade com as primeiras comunidades cristãs descritas nos Atos dos Apóstolos, isto é, viver em comunidade partilhando a totalidade dos bens materiais. Estes cristãos comunitários iniciaram então uma ação missionária, dentro da própria Igreja, com vista à sua renovação, que os levou até à Campeã, na serra do Marão, onde criaram com alguns agricultores locais uma cooperativa comunitária, que viria a ser apelidada de «comunismo cristão do Marão».

A maior parte dos membros do grupo eram estudantes do curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre eles estavam Fernando Ferreira da Costa, João Sá da Costa, Maria Manuela Lobo da Costa, Lúcia de Carvalho Nobre e Maria Luísa Saraiva Pinto, que, depois de casar com Fernando Ferreira da Costa, adotou o nome literário de Luísa Dacosta.

Os jovens cristãos comunitários tiveram por mentores dois grandes pensadores do século passado: António Sérgio e o padre Joaquim Alves Correia. António Sérgio defendia a implantação de um sistema político-económico baseado no cooperativismo como forma de resolver os problemas económicos e sociais do país e instaurar uma sociedade democrática, alicerçada no socialismo. Considerava que a concretização deste projeto só seria possível se as pessoas desenvolvessem um espírito cooperativo, semelhante ao que era apresentado nos Evangelhos. Apesar de ser ateu, António Sérgio conhecia bem os quatro evangelhos canónicos incluídos no Novo Testamento, pelos quais tinha grande admiração.

O padre Joaquim Alves Correia era um grande defensor dos valores cristãos originais. Empenhava-se muito na sua divulgação e em demonstrar que estes pouco ou nada tinham a ver com o catolicismo em vigor. Republicano e democrata convicto, considerava que os princípios vindos da revolução francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – eram valores profundamente evangélicos. Defendia também que as hierarquias da Igreja Portuguesa se deviam demarcar do regime totalitário de Salazar. Chegou mesmo a manifestar esta posição por escrito ao cardeal-patriarca, Manuel Gonçalves Cerejeira.

 

Do sonho à cooperativa

Depois de começar por desenvolver ações de apoio social e de alfabetização junto das populações carenciadas da capital, o grupo de jovens cristãos comunitários criou uma editora artesanal, chamada Metanoia, com a qual publicaram 24 livrinhos de uma coleção intitulada Grandes Páginas Cristãs. Os últimos 7 foram publicados em Vila Real.

A designação Metanoia, pela qual o grupo viria a ficar conhecido, sintetiza a sua principal motivação: renovar as mentalidades de acordo com os valores fundadores do cristianismo.

A publicação terminou abruptamente na sequência da censura ao caderno intitulado Crença na Renovação da Terra, que continha o segundo capítulo do livro Utopia de Thomas Moore, prefaciado por Ferreira da Costa. Podemos desde já observar as contradições do Estado Novo, que se dizia conservador dos valores ético-morais da Igreja Católica. Como é sabido, Thomas Moore foi canonizado como mártir da Igreja Católica em 1935. Mas a sua descrição da ilha Utopia, com a sua organização social sem classes e sem forças armadas, era pouco abonatória de um país colonialista, marcado pelas profundas injustiças e desigualdades sociais.

Apesar da censura, os jovens católicos nunca abdicariam dos seus princípios. Fernando Ferreira da Costa recusou cumprir o serviço militar obrigatório por ser um pacifista convicto. Considerava o cristianismo uma religião de paz. Foi o primeiro objetor de consciência em Portugal por recusa ao serviço militar.

António Sérgio aproveitou então a experiência editorial do grupo e convidou-o a criar um Boletim Cooperativista, um folheto destinado a ser o órgão dinamizador e promotor do setor cooperativo. Apesar das muitas dificuldades, o Boletim viria a ser publicado, quase ininterruptamente, entre 1951 e 1975, num total de 242 números. Os 12 primeiros foram publicados em Vila Real, onde foram também impressos na tipografia Minerva Transmontana.

Contrariamente às correntes dominantes da Igreja Católica portuguesa, os jovens cristãos comunitários consideravam que cristianismo e democracia eram perfeitamente compatíveis e, no final da Segunda Guerra Mundial, na expetativa das primeiras eleições livres, aderiram ao MUD juvenil em representação dos jovens católicos portugueses. João Sá da Costa tornou-se mesmo membro da primeira Comissão Central desta organização.

Na Campeã, uma freguesia e sub-região da serra do Marão, criaram com algumas famílias locais uma pequena cooperativa destinada, principalmente, à produção de batata e de gado. Com ela quiseram ajudar os pequenos lavradores, grandes vítimas do sistema corporativista-fascista vigente. O granjeio das pequenas parcelas de terreno não era suficiente para suprir as necessidades das famílias numerosas. Os seus membros viam-se obrigados, desde tenra idade, a ir ganhar o dia nas grandes casas rurais da região. O trabalho de sol a sol era muito duro, essencialmente braçal, por vezes auxiliado pela força do gado maronês. Alguns agricultores, mais audazes, arriscavam e contraíam empréstimos a taxas de juro elevadas, hipotecando os seus bens. Mas isso apenas alimentava um círculo vicioso que conduzia, invariavelmente, à acumulação de riqueza por parte de quem já mais tinha. Fernando Ferreira da Costa e os amigos quiseram contrariar a situação, pondo em prática os seus conhecimentos sobre cooperativismo e associativismo.

O conjunto das terras que integraram o projeto cooperativo, designado por Quinta da Malhada, foi um espaço que, para os membros do grupo Metanoia, viria a converter-se numa espécie de Utopia. Ali quiseram viver em comunidade, de acordo com os seus ideais cristãos e as suas convicções político-económicas. Ali desenvolveram ações de alfabetização e de divulgação do espírito cooperativo. Foi também projetada a construção de uma escola, onde todos os membros da comunidade pudessem aprender e ensinar, cujas obras chegaram mesmo a ser iniciadas.

Mas o regime estava atento – estima-se que a PIDE tinha cerca de 20.000 informadores nessa época – e as ações do grupo Metanoia não passaram despercebidas, pois desafiavam o imobilismo instituído. Os membros do grupo foram duramente castigados por essa ousadia. O exílio, a prisão, a tortura, a proibição de lecionar, a perda de direitos cívicos são algumas das penas e dos castigos que lhes foram aplicados.

 

Os frutos e as sementes

Publicações do grupo Metanoia Foto DR

Duas das publicações do grupo Metanoia. Foto: Direitos reservados

A dissolução do grupo Metanoia não impediu que o movimento de renovação da Igreja prosseguisse o seu caminho por todo o país e continuasse a despertar as consciências para as responsabilidades cívicas e sociais dos católicos. São vários os testemunhos de ações nesse sentido em Trás-os-Montes.

No final dos anos 40, o padre Henrique Maria dos Santos criou uma cantina social que muito contribuiu para combater a fome e a miséria em Vila Real. O padre mogadourense Telmo Ferraz denunciou, através do livro O Lodo e as Estrelas, as condições inumanas em que viviam e trabalhavam os operários das barragens de Picote e de Miranda do Douro. O livro foi proibido pela PIDE pouco depois da sua publicação, em 1960.

Mas não é possível falar das consequências da dimensão cívica e social da fé cristã em Trás-os-Montes sem referir o padre Maximino Barbosa de Sousa. Uma pessoa de grande generosidade que, desde o princípio do seu sacerdócio, em 1967, pôs todo o seu talento e os seus conhecimentos ao serviço dos mais necessitados; ajudou, instruiu, mediou conflitos e, sobretudo, empenhou-se em resgatar os jovens de um destino certo, ligado à pobreza, à ignorância e ao alcoolismo. Foi brutalmente e cobardemente assassinado, juntamente com Maria de Lurdes Ribeiro Correia, na noite de 2 de abril de 1976. Este atentado foi perpetrado já depois da Revolução, no preciso dia em que foi aprovada a Constituição da República Portuguesa, por uma organização terrorista de extrema direita, alegadamente conservadora. Completaram-se esta semana 49 anos sobre este terrível acontecimento.

Este pequeno livro é assim, em primeiro lugar, uma simples, mas mais que justa homenagem a todos aqueles que se mantiveram fiéis à sua consciência, resistiram às pressões e ao aliciamento do antigo regime e lutaram por uma sociedade mais justa, mais solidária e mais humana, alicerçada nos valores do fundamentais do cristianismo. São exemplos notáveis de coragem e integridade que não podem ser esquecidos nos dias de hoje.

Em segundo lugar, aproveitando as palavras de D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, espera-se que as memórias do movimento Metanoia possam servir de exemplo e continuar a inspirar as novas gerações para a prática e defesa dos direitos e ideais floridos de Abril.

 

 

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