“As mulheres são o melhor que a humanidade tem”, escrevia o fotojornalista do Público Adriano Miranda numa das crónicas das suas duas reportagens na Ucrânia, com o país ensanguentado em consequência da invasão russa. “Mas o presente é outro. A fuga. O desespero. O deixar o homem que vai dar o peito às balas”, escrevia noutro texto. “O levantar as crianças com braços de grua por cima da multidão. O pisar. O empurrar. O gritar. O chorar. A raiva.”
Por duas vezes (entre 1 e 10 de Março de 2022, logo a seguir à invasão; e depois, em Abril de 2024), Adriano Miranda esteve na Ucrânia em reportagem. Fotojornalista com uma rara sensibilidade para fotografar rostos e deles extrair toda a emoção humana, Adriano mostrou, nas páginas do jornal onde trabalha, “o impacto brutal da guerra sobre aqueles que a vivem na pele”. Entre Março e Abril, mostrou algumas dessas fotos na Casa da Imprensa, em Lisboa; agora, elas poderão ser vistas de novo (ou pela primeira vez) durante mais um mês, na Casa de São Mamede, das Servas de Nossa Senhora de Fátima (Rua São Mamede, 100), em Lisboa. Coincidindo com a abertura da exposição, decorre nesta quarta-feira um debate sobre Guerra e Paz
As fotos também nos mostram uma fila de caixões abertos alinhados; ou um tanque militar com o camuflado pendurado, como que numa pausa da guerra. E vários olhares, apesar de martirizados, mostram a esperança: uma mulher (quem mais?) entretendo duas crianças com peluches enquanto tenta dar-lhes de comer (ai, somos todos tão semelhantes pelo mundo fora…) e uma outra, sentada numa cadeira de rodas, com um gato ao colo.
Numa das crónicas, dedicada precisamente às mulheres, o fotojornalista aveirense colocava em contraste as mulheres e os homens: “Pela cidade, as mulheres suportam malas e cuidam das crianças. São milhares, sem o companheiro. Só elas e os filhos. Os homens estão a combater. Outros, estão de prontidão. Acariciam a Kalashnikov para matar russos. Que ironia. Matar é o seu grande desejo. O ódio é imparável. As mulheres somente acariciam os rebentos de um país invadido.”
Filho de um refugiado da Segunda Guerra Mundial que lhe gravou a palavra paz, Adriano Miranda viu-se, “na terra desumana”, a chamar pelo pai várias vezes enquanto fotografava a destruição, os escombros, o medo, a coragem ou a resistência. “Não tenho Deus. Tenho no céu o meu pai. O bastante para ser resistente.”
E confessava: “O visor da minha máquina fotográfica já me limpou os olhos várias vezes. É difícil não chorar. Caros leitores, aqui o sofrimento é atroz. Podemos ser comentadores, analistas, de esquerda ou de direita. É sempre fácil no conforto do sofá. Aqui deixou de haver sofás. E berços só nos braços fortes das mães e das avós. Gosto de olhar olhos nos olhos. As mulheres são lindas. Transportam uma beleza que nem o desespero consegue vencer. São serenas. São solidárias. Carregam com elas o futuro de dois países. Meninos e meninas. Em Kiev ou em Moscovo, todos gostam de brincar. Bonecas e carrinhos. Existem linguagens universais.”
A exposição de fotografia Adriano Miranda poderá ser vista até todas as quintas, sextas e sábados, das 14h às 19h, até 21 de Junho.
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Sobre este contraste que nos habita e inquieta – o da guerra e da paz – o espaço da Casa de São Mamede promove, além da abertura da exposição, o primeiro debate do ciclo Mundo [en]contraste, sobre guerra e paz (os seguintes serão sobre vazio e cheio, silêncio e ruído, inclusão e exclusão), para “reflectir o mundo e repensar o que somos”. Será a partir das 19h30 desta quarta-feira, 21 de Maio, e na conversa intervêm Lívia Franco, investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (IEP-UCP) e comentadora residente na SIC Notícias; Sandra Chaves Costa, coordenadora do Gabinete de Escuta; e Inês Marques, Serva de Nossa Senhora de Fátima, que se dedica à pastoral vocacional e universitária e é investigadora no Instituto Superior Técnico, na área de Engenharia e Gestão de Sistemas.
Paralelamente, será exibido também o documentário do filho do fotojornalista, João Miranda, com o título Os Cães Voltaram a Ladrar, uma curta-metragem após um ano de guerra entre a Rússia e a Ucrânia:







