AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Ordenem mulheres; Conferência pela Ordenação de Mulheres; Sínodo

Inquérito 7MARGENS às mulheres do Sínodo (2)

Diaconado feminino? Talvez sim, mas não é o mais importante, dizem elas – e têm propostas concretas

| 26/10/2024

Ordenem mulheres; Conferência pela Ordenação de Mulheres; Sínodo

Manifestação da Conferência pela Ordenação de Mulheres, no início de Outubro 2024, em Roma, a pedir a ordenação de mulheres na Igreja Católica, coincidindo com a abertura do Sínodo sobre a Sinodalidade. Foto: Direitos reservados

A avaliar pelas 25 respostas ao inquérito do 7MARGENS às mulheres que participaram no Sínodo católico sobre a sinodalidade que este sábado se concluiu em Roma, a maior parte delas considera que é mais importante e positivo aprofundar o debate sobre a possibilidade de ordenar mulheres como diáconos, do que tomar já uma decisão; e dizem também que o fundamental, em existindo um ministério, é que ele deve ser exercido de modo diferente do modelo de padre que existe actualmente. Apesar de diversos matizes ninguém diz que não ao tema – a não ser para dizer que não vale a pena repetir o modelo clerical existente –, mas há quem aponte caminhos diferentes e até faça propostas inovadoras.

Esta foi uma das questões polémicas entre a assembleia de há um ano e a que agora termina. Ainda nos últimos dez dias, no próprio fórum sinodal, o modo como o cardeal Victor Fernandéz geriu o tema foi muito criticado pelos membros do sínodo, dando origem a uma reunião, quinta-feira passada, dia 24, do prefeito da Doutrina da Fé com os participantes da assembleia, que terá sido esclarecedora e pacificado os ânimos.

Entre as mulheres que participaram no Sínodo e responderam às perguntas do 7MARGENS, cinco dão um “sim” claro à ordenação de mulheres diáconos e uma outra admite estar dividida: “Se queremos uma Igreja sinodal, o reconhecimento de cada pessoa não deve estar ligado à ordenação… Será que a clericalização das mulheres é a solução?”, pergunta a professora francesa Anne Ferrand, responsável pela formação permanente na diocese de Rodez (sudeste).

O diaconado, na tradição cristã, é um ministério instituído nas primeiras comunidades: a par dos que tinham a função da pregação e do anúncio da Palavra, havia pessoas responsabilizadas pelo cuidado com pessoas mais frágeis – órfãos e viúvas, por exemplo. Durante séculos, o diaconado desapareceu, subsistindo apenas como grau de acesso ao presbiterado ou ordenação como padre.

Na Igreja Católica, o II Concílio do Vaticano (1962-65) instituiu o diaconado permanente mas apenas reservado a homens – que substituem os padres, muitas vezes, em funerais ou baptizados, mas fazem também assistência a doentes ou a presos, por exemplo. Mas há quem considere que, em muitos casos, se reduz o diácono permanente a um padre de segunda categoria.

Manifestação da “Revolta das Mulheres na Igreja”, em Madrid, em 2020. Foto reproduzida da página da associação, na rede social Twitter

A espanhola María Luisa Berzosa, que esteve no Sínodo com o papel de facilitadora (animadora de dinâmicas de grupo) diz que a ordenação de mulheres diáconos “seria uma boa ajuda do ponto de vista pastoral”, não só pela diminuição do número de padres, mas também porque muitas mulheres podem sentir-se convidadas a esse ministério.

Solange Nirina, de Madagáscar, religiosa das Irmãs Paulinas formada em filosofia e teologia, considera que as mulheres já exercem a diaconia em muitos serviços que prestam, com a diferença de que não são ordenadas. Nirmala Nazareth, indiana, presidente da Conferência das Religiosas, é pessoalmente “a favor das mulheres como diáconos”, porque a história mostra que elas “desempenharam um papel importante na Igreja”. E a brasileira Sônia Gomes de Oliveira, presidente do Conselho Nacional do Laicato, diz que o ministério “é urgente”, mas para redescobrir a perspectiva da ministerialidade e do serviço.

Outras opiniões sugerem que a decisão deve seguir-se a um debate profundo e prudente e que a opção por uma comissão que o possa liderar, como aquela que foi criada pelo Papa para estudar o assunto, é positiva. Rosalia Minus Cho Cho Tin, de Myanmar (Birmânia) considera que a comissão pode ser “uma forma equilibrada de explorar um assunto sensível”, permitindo “um processo de discernimento, diálogo aberto e consulta com vários especialistas”.

Claire Jonard, suíça, diz que “a questão da ordenação é secundária”, mas também pergunta porque não pode o compromisso das religiosas levar “a um maior reconhecimento das mulheres na Igreja”. A venezuelana naturalizada francesa Eugenia Alvarez recorda que “as mulheres tiveram papéis importantes na Igreja primitiva” e que “redescobrir estes modelos pode abrir novos caminhos para o presente”.

Anne Béatrice Faye, senegalesa, acrescenta que “há regiões do mundo onde o diaconado das mulheres – como na Amazónia – é um tema existencial para a sobrevivência de comunidades muitas vezes de difícil acesso”; Valérie Duval-Poujol, cristã baptista e “delegada fraterna” ao Sínodo, sugere, em contraponto, que em África o diaconado não existe, pelo menos “da mesma forma que na Europa”. Antes de mais, acrescenta, “temos de redefinir o que é este ministério e encontrar uma forma de dar mais espaço aos dons que Deus deu às mulheres para edificar a sua Igreja e servir este mundo”.

Foto de grupo dos sinodais na conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Foto de grupo dos participantes do Sínodo sobre a Sinodalidade depois das votações do documento final, neste sábado, 26. Foto  © Clara Raimundo/7MARGENS

No cardápio das respostas, há lugar ainda para outras duas propostas concretas. Cristina Inogés Sanz, teóloga espanhola e colaboradora do 7MARGENS, diz que “partindo do princípio de que o modelo de ministério sacerdotal” actual “não é útil nem para a Igreja nem para a sociedade (…) ordenar mulheres diáconas não seria uma boa ideia”. Seria importante, isso sim, “pensar num ministério que reconhecesse o serviço das mulheres à comunidade, mas que não passasse pela ordenação”, sugere.

Lisa Lucchese, que esteve no Sínodo como assistente, é favorável ao exercício do diaconado por mulheres e homens, admite também, no entanto, ser necessário repensar os modelos que existem e mudar gradualmente as estruturas existentes. Por isso, propõe: “Para já, penso que seria bom ordenar casais cristãos como casais diaconais (ministérios instituídos?), para que possam exercer conjuntamente o seu ministério conjugal e honrar assim o seu sacramento matrimonial.”

Estas são as respostas à segunda das cinco perguntas que o 7MARGENS enviou a todas as participantes do Sínodo, no final de Setembro e início de Outubro, coincidindo com o início da assembleia que termina formalmente neste domingo, com a celebração da eucaristia de encerramento. A assembleia convocada pelo Papa pretendeu debater como alargar a participação de todos os crentes na vida e na missão da Igreja Católica. A primeira sessão decorreu em Outubro do ano passado e oito dezenas de mulheres participaram com os estatutos de membros, peritas, facilitadoras, convidadas especiais, assistentes ou delegadas fraternas (representantes de outras igrejas cristãs).

Na primeira das perguntas, quisemos saber como cada uma encara a sua experiência no Sínodo, enquanto mulher.

Mulheres sinodais ousam “questionar Igreja pensada só por homens” e falam num Sínodo para todos os católicos

Nas restantes, além daquela de que neste texto damos conta, pretendemos também auscultar a opinião das participantes sobre a estratégia do Papa de nomear pessoas do sexo feminino para lugares de destaque dentro da Igreja e da Cúria Romana; sobre o lugar das mulheres nas estruturas de decisão da Igreja e a percepção da sua participação na vida eclesial nos últimos anos. Durante os próximos dias, publicaremos os trabalhos com as respostas sobre os restantes temas.

A seguir, reproduzimos na íntegra as respostas sobre o tema que aqui ficou sintetizado.

 

Considera que a Igreja Católica deve ordenar mulheres diáconos? Porquê?
E a remissão do tema para uma comissão de estudo é positiva?

 

Anne Béatrice Faye: Abrir portas às mulheres 

Senegal; perita no Sínodo; religiosa da Congregação da Imaculada Conceição de Castres; doutorada em Filosofia; membro da Associação de Teólogos Africanos.

Anne Béatrice Faye. Foto: Direitos reservados

 

A questão do diaconado para as mulheres foi levantada em diferentes regiões do mundo e foi abordada – ainda que muito brevemente – no documento preparatório do Sínodo, o Instrumentum laboris (2023). Podemos ler no ponto 2.3 do texto: “As assembleias continentais do Médio Oriente, América Latina, Oceânia e Europa, bem como os resumos de numerosas conferências episcopais pedem para reconsiderar a questão do acesso das mulheres ao diaconado. É possível prever isso e de que forma?” Isto significa que o diaconado das mulheres é um tema central nos vários processos sinodais de algumas Igrejas locais e durante a XVI Assembleia Geral em Roma.

Durante esta mesma Assembleia, o diaconado das mulheres foi tema de discussão, sendo que no documento final [da primeira sessão, em 2023], o “Relatório Síntese” intitulado “Uma Igreja Sinodal em missão”, é feita referência ao diaconado das mulheres em vários locais: sobretudo no contexto da renovação fundamental da Igreja no sentido de uma Igreja diaconal ao lado das pessoas necessitadas e a importância que aqui se dá a um diaconado renovado. Trata-se muito claramente de uma Igreja fraterna e da igual dignidade dos homens e das mulheres, baseada no batismo, o que implica “co-responsabilização em cada nível da vida da Igreja”.

Na segunda parte, no capítulo 9 sobre “As mulheres na vida e na missão da Igreja”, podemos ler na alínea b): “Em Cristo, as mulheres e os homens são revestidos da mesma dignidade baptismal e recebem igualmente a diversidade dos dons do Espírito.” (cf. Gálatas 3,28). Homens e mulheres são chamados a formar uma comunidade caracterizada pela corresponsabilidade não competitiva, que deve ser implementada em todos os níveis da vida da Igreja. Como nos disse o Papa Francisco, somos em conjunto “um povo chamado e convocado pela força das Bem-aventuranças”.

Diferentes posições, como se lê no subcapítulo “As mulheres na vida e na missão da Igreja”, foram expressas em relação ao acesso das mulheres ao ministério diaconal. Para alguns, tal abordagem seria inaceitável, porque implicaria uma descontinuidade com a Tradição. Mas, para outros, abrir o acesso das mulheres ao diaconado restauraria a prática da Igreja primitiva.

Os debates em torno desta questão mostram claramente que se trata de esclarecer fundamentalmente a ancoragem teológica ministerial do diaconado feminino. A reflexão deve ser continuada. Há regiões do mundo onde o diaconado das mulheres – como na Amazónia – é um tema existencial para a sobrevivência de comunidades muitas vezes de difícil acesso, e outras [onde tal não acontece].

A minha esperança é que esta reflexão abra portas às mulheres dentro da Igreja Católica e elimine a ambiguidade da sua possibilidade de exercer ou não um ministério eclesial e de partilhar poderes de decisão na missão. Ao integrarem os conselhos episcopais e algumas ordens menores, podem ajudar a Igreja a tornar mais transparente a sua missão. Através da sua dedicação, do seu sacrifício, do acolhimento e da escuta dos mais necessitados, as suas vozes podem ser mais ouvidas.

Como sublinha o próprio Papa, “não podemos compreender uma Igreja sem mulheres, mas sim mulheres activas na Igreja, com o seu perfil, que avançam…” A sua voz é esperada nas questões ambientais, na paz, na reconciliação e na justiça. As vozes das mulheres estão a faltar na nossa Igreja. Contudo, são elas que muitas vezes actuam, profissionalmente ou voluntariamente, nas áreas da diaconia.

 

 

Anne Ferrand: Estou dividida

França; professora; a terminar licenciatura em teologia na Faculdade Loyola, em Paris; trabalha na formação permanente na diocese de Rodez.

 

Estou dividida quanto a esta questão. Se queremos uma Igreja sinodal, o reconhecimento de cada pessoa não deve estar ligado à ordenação… Será que a clericalização das mulheres é a solução? Ao mesmo tempo, ter apenas clérigos homens não é uma instituição justa ao serviço de todo o povo de Deus…

O equilíbrio dos ministérios poderia ser questionado, para uma alteridade fecunda para a missão de Jesus Cristo…

 

Claire Jonard: Uma questão secundária

Claire Jonard. Foto: Direitos reservados

Suíça; facilitadora no Sínodo; responsável da pastoral juvenil na Suíça romanda e coordenadora de formação de animadores de jovens

 

Para mim, a questão da ordenação é secundária; se a Igreja não está preparada, isso não é um problema. Para mim, é importante dar às mulheres um ministério que inclua a pregação e o governo. Se se trata de uma ordenação, de uma instituição, de uma bênção, de uma consagração… isso é outra coisa. Por vezes, também me interrogo sobre a consagração religiosa… porque é que este compromisso não leva a um maior reconhecimento das mulheres na Igreja?

 

Claire Said: Depende dos contextos

Líbano; pegadoga; membro do conselho pastoral da diocese greco-melquita de Sídon; coordenadora da animação pastoral da rede dos Irmãos das Escolas Cristãs do Líbano e Próximo Oriente.

 

É uma questão que remete para os contextos em que a Igreja se encontra. Por exemplo, em alguns países do Médio Oriente, é impensável falar sobre este assunto, enquanto nos países europeus ou americanos se está a tornar uma exigência premente. Penso que é bom colocar esta questão a uma comissão, porque é complexa e precisa de ser aprofundada.

 

Claudia Patricia Molina: Onde está a Igreja com um rosto feminino?

Argentina; assistente no Sínodo; missionária claretiana a prestar serviço na prelatura de Humahuaca (Norte, junto à fronteira com a Bolívia)

 

O diaconado é um serviço, e nós, mulheres, temos muita experiência disso a todos os níveis. O diaconado das mulheres é um aspecto de uma questão mais vasta. O que deveríamos realmente perguntar é: como é que a Igreja com um rosto feminino está a ser realizada? As mulheres estão a desempenhar os novos ministérios que o Espírito está a criar?

Se há um verbo que se pode salvar dos que foram usados na sala sinodal, é “escutar”. Espero que este processo que estamos a viver como Igreja nos tire das nossas zonas de conforto e nos ajude a compreender que a sinodalidade é um “estilo” que temos de recuperar, onde o mais importante não é se o serviço prestado é feito por um homem ou por uma mulher, mas por uma pessoa baptizada que vive e vibra com a sua fé.

Cristina Inogés Sanz

Cristina Inogés Sanz. Foto © António Marujo/7MARGENS

Cristina Inogés Sanz: Não, só prolongaria a agonia de um ministério que não é útil

Espanha; teóloga; autora da meditação de abertura do Sínodo; autora de vários livros, alguns deles publicados em Portugal; colaboradora regular do 7MARGENS

 

Antes de mais, temos de aceitar que a vocação (seja ela qual for) é recebida no batismo. Portanto, temos de aceitar que as mulheres podem ter essa vocação e, como tal, temos de aceitar essa realidade.

Por outro lado, desde a Assembleia de 2023, tenho vindo a refletir sobre esta questão devido ao que então vi. Penso que, partindo do princípio de que o modelo de ministério sacerdotal que temos actualmente não é útil nem para a Igreja nem para a sociedade, porque é do Concílio de Trento, do século XVI, ordenar mulheres diáconos não seria uma boa ideia.

Porquê?

Porque só serviria para prolongar a agonia de um ministério que não é útil; porque seria uma forma de reforçar a estrutura clerical que temos atualmente; e porque colocaria as mulheres sob a obediência do bispo e, se o bispo não é sinodal, de que serviria? Para mais clericalismo…

Por outro lado, penso que seria importante pensar num ministério que reconhecesse o serviço das mulheres à comunidade, mas que não passasse pela ordenação. Vamos desclericalizar o serviço eclesial!!

E é bom remeter a questão para uma comissão de estudo? Desde que esteja a trabalhar em conjunto com um dicastério, sim. Caso contrário, já temos a experiência de duas comissões falhadas….

 

Eugenia Alvarez: Redescobrir modelos pode abrir caminhos para o presente

Venezuela, naturalizada francesa; facilitadora no Sínodo; doutoramento em teologia; licenciatura em educação e desenvolvimento; conselheira geral no Instituto Regnum Christi

 

Penso que é importante continuar a reflectir sobre o lugar que as mulheres podem ocupar na Igreja. A história mostra que as mulheres tiveram papéis importantes na Igreja primitiva. Redescobrir estes modelos pode abrir novos caminhos para o presente.

Submeter esta questão a uma comissão de estudo é um passo necessário, porque nos permite aprofundar a reflexão teológica e eclesial sobre o assunto. No entanto, o debate não deve permanecer apenas académico; deve ser um processo que inclua também as vozes das comunidades locais e das próprias mulheres, que viveram e serviram a Igreja de forma profunda durante séculos.

 

Josée Ngalula: Bispos podem discernir as urgências actuais

Congo; integra a congregação das Religiosas de Santo André; professora de teologia em várias instituições africanas; directora do Observatório das Violências e Integrismos Religiosos na República Democrática do Congo.

teóloga e religiosa congolesa Josée Ngalula foto direitos reservados

Josée Ngalula. Foto: Direitos reservados.

No Livro dos Actos dos Apóstolos, a instituição dos diáconos masculinos foi uma resposta a uma necessidade pastoral urgente, após um discernimento dos apóstolos, numa escuta colectiva do Espírito Santo: foi uma questão de criatividade ministerial, para o bem do Povo de Deus.

Penso que também hoje os sucessores dos apóstolos podem discernir as urgências actuais e responder-lhes com criatividade, quer inspirando-se na experiência das mulheres diáconas da Igreja primitiva, quer criando algo de novo. Pessoalmente, deixo os bispos livres nas suas decisões finais, depois desta escuta colectiva do Espírito Santo que estamos a viver no sínodo sobre a sinodalidade.

 

Lalitha Thomas: Paciência para absorver todo este caminho

Índia; doutoramento em sociologia; animadora de pequenas comunidades cristãs

Lalitha Thomas. Foto: Direitos reservados.

Esta questão exige que se considerem os pontos de vista dos fiéis leigos de vários continentes e que se tenha paciência para absorver todo este caminho de sinodalidade de todos os fiéis. E o mais importante é a efusão do Espírito Santo para abrir as nossas mentes e os nossos corações para este modo de vida sinodal e procurar a sua orientação sobre este tema.

 

Lisa Lucchese: ordenar casais cristãos como casais diaconais

Itália; doutoranda em teologia.

 

Sim, creio que o diaconado pode ser exercido tanto por mulheres como por homens, em virtude do batismo. Mas para isso, penso que é necessária uma séria reformulação da teologia do ministério (mas também dos ministérios e do “sacerdócio”), que aborde a questão da reserva masculina de uma forma mais fundamentada. De facto, teologicamente, não encontro razões suficientemente convincentes que impeçam as mulheres de entrar no sacramento da Ordem. Talvez ainda não seja o momento oportuno, até porque pode não resultar introduzir as mulheres num sistema “masculino”, que deveria ser repensado de forma partilhada.

Aliás, se sairmos dos nossos quadros teológicos e observarmos a realidade, muitas mulheres já actuam como diaconisas de facto, desempenhando funções de serviço cristão e de caridade a tempo inteiro. Não sei se uma comissão de estudo é suficiente, porque ainda há muita resistência à aplicação do Vaticano II, quanto mais à introdução de outras “novidades”. Provavelmente, o que é necessário é a sensibilização, um tempo adequado de oração colectiva e a mudança – gradual mas decisiva – das estruturas que mencionei acima.

Para já, penso que seria bom ordenar casais cristãos como casais diaconais (ministérios instituídos?), para que possam exercer conjuntamente o seu ministério conjugal e honrar assim o seu sacramento matrimonial. Sei que muitos cursos de pastoral juvenil se desenvolvem desta forma: o padre de referência rodeia-se de casais, que muitas vezes fazem reuniões no seu lugar e colaboram com ele do princípio ao fim.

 

Margret Fekry: Depende do ambiente

Egipto; religiosa das Irmãs Egípcias do Sagrado Coração, fundada no país em 1913 e presente também no Sudão, Sudão do Sil, Tunísia e Líbano.

 

Penso que o facto de uma mulher se tornar diácono na Igreja depende do ambiente e da cultura que a rodeiam. Há quem aprove o diaconado feminino e há quem o rejeite; por isso prefiro formar uma comissão para estudar a questão do que vê-la composta por canonistas, teólogos, consagrados e consagradas e padres, não só da Igreja do Ocidente, mas também da Igreja do Oriente, porque há diferentes religiões e grupos eclesiásticos nos seus arredores.

 

Maria Cristina dos Anjos: A grande pergunta do momento

Brasil; leiga; socióloga, especialista em projectos sociais e assessora da Cáritas Brasileira.

 

Essa é a grande pergunta do momento. Eu acredito que numa Igreja onde o batismo nos confere uma igual dignidade, a mulher precisa ter o seu lugar, conferido à ela. Não pode ser apenas concessões. Se é o diaconado ou outro ministério, não sabemos, mas será necessário definir. Eu entendo que a criação da comissão pode indicar que o diálogo ainda não finalizou.

 

Maria Grazia Angelini: redescobrir o sentido do ministério diaconal

Itália; religiosa beneditina; autora de meditações introdutórias durante a assembleia.

Maria Grazia Angelini, religiosa beneditina. Foto: Direitos reservados. 

Antes de mais, é preciso redescobrir o sentido do ministério diaconal enquanto tal. E parece-me que, em geral, toda a ministerialidade não pode partir da “mesa”, mas do discernimento da experiência eclesial concreta, em todas as suas dimensões: espiritual (o discernimento requer um profundo enraizamento na Origem e uma grande liberdade de espírito), teológica, antropológica, cultural. Hoje, no Sínodo, vimos com uma nova e deslumbrante clareza o grande pluralismo e a diversidade dos contextos eclesiais. A primeira geração cristã foi compreendendo o que o Espírito suscitava na realidade concreta: não criava, nem instituía senão em obediência ao Espírito que actuava na história.

 

María Luisa Berzosa González: Uma boa ajuda

Espanha; facilitadora no Sínodo; religiosa das Filhas de Jesus; participou na comissão de peritos do Sínodo sobre os jovens (2018), e do Sínodo da Amazónia (2019); consultora do secretariado geral do Sínodo; acompanha pessoas e grupos de diversidade sexual em vários países e vítimas de abusos de vários âmbitos.

 

Penso que seria uma boa ajuda do ponto de vista pastoral, porque o número de padres está a diminuir; não apenas como um substituto, mas também como uma vocação que muitas mulheres podem experimentar como um convite para realizar este serviço.

Sim, uma comissão de estudo pode oferecer fundamentos teológico-pastorais ou o que for necessário, mas também neste domínio as mulheres devem ser escutadas nos seus desejos e apelos.

 

Nirmala Nazareth: Dar esta oportunidade às mulheres

Índia; ex-presidente da Conferência Nacional dos Religiosos; presidente da Conferência das Religiosas; mestrados em contabilidade e educação.

 

Pessoalmente, sou a favor das mulheres como diáconos; afinal de contas a nossa história mostra-nos que as mulheres desempenharam um papel importante na Igreja. Deve ser dada esta oportunidade às mulheres, não tanto para competir com os homens, mas simplesmente porque as mulheres trazem uma qualidade e uma experiência do seu espaço.

Rosalia Minus Cho Cho Tin: Forma equilibrada de explorar um assunto sensível

Myanmar (Birmânia); diplomada em gestão e contabilidade.

A questão de saber se a Igreja Católica deve ordenar mulheres como diáconos é complexa, envolvendo considerações teológicas, históricas e pastorais. Aqui está uma análise de ambos os lados da questão.

  1. Deve a Igreja Ordenar Mulheres Diáconas?

– Precedente Histórico: os apoiantes das mulheres diáconos apontam frequentemente para a evidência histórica da Igreja primitiva. Documentos e pesquisas históricas indicam que as mulheres serviram como diáconos em várias funções, particularmente nos primeiros séculos do cristianismo. Por exemplo, a Didascalia Apostolorum e alguns textos da Igreja primitiva referem-se a mulheres diáconos que realizavam baptismos e ministravam a outras mulheres.

– Expansão do papel das mulheres: ordenar mulheres diáconos seria um passo significativo para expandir os papéis oficiais das mulheres dentro da Igreja. Uma vez que os diáconos são ordenados para o serviço e não para o sacerdócio, isso poderia permitir que as mulheres assumissem maiores responsabilidades, especialmente em áreas como a pregação, o ensino e o alcance social. Dado o extenso trabalho que as mulheres já fazem nos ministérios, ordená-las como diáconos reconheceria formalmente as suas contribuições.

– Necessidades pastorais: Há uma necessidade premente de ministros em vários contextos, como hospitais, prisões e áreas rurais onde os padres são escassos. A ordenação de mulheres diáconos poderia aumentar a capacidade da Igreja para servir estas comunidades. As mulheres, em especial, podem trazer perspectivas e experiências únicas aos cuidados pastorais e ao trabalho de justiça social.

– Resposta aos movimentos de igualdade de género: A ordenação de mulheres como diáconos pode também ser vista como uma resposta a movimentos sociais mais amplos que defendem a igualdade de género. Este passo poderia colmatar algumas das disparidades de género dentro da Igreja e torná-la mais sensível às preocupações contemporâneas dos seus membros, particularmente das mulheres.

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade, em Outubro 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS

Preocupações e desafios

– Preocupações teológicas: Alguns argumentam que a ordenação de mulheres diáconos poderia ser vista como um trampolim para a ordenação de mulheres como sacerdotes, uma mudança que o Papa João Paulo II excluiu firmemente na Ordinatio Sacerdotalis (1994). Para aqueles que defendem este ensinamento, qualquer passo no sentido da ordenação de mulheres poderia ser entendido como um enfraquecimento da posição da Igreja relativamente ao sacerdócio exclusivamente masculino.

– Tradição Sacramental: A Igreja distingue entre os papéis de diáconos, padres e bispos e alguns teólogos defendem que, historicamente, as mulheres diáconos não foram ordenadas no mesmo sentido sacramental que os diáconos masculinos. Esta distinção é importante para aqueles que vêem o sacramento da Ordem sagrada como reservado aos homens nas funções específicas de diácono, padre e bispo.

– Risco de divisão: A ordenação de mulheres diáconos poderia potencialmente causar divisão no seio da Igreja. Muitas comunidades tradicionalistas e países onde as visões patriarcais estão profundamente enraizadas poderão resistir a esta mudança, levando potencialmente a tensões e a um sentimento de fratura no seio da Igreja Católica global.

 

  1. Remeter a questão para uma comissão de estudo é uma coisa boa?

Remeter a questão para uma comissão de estudo é geralmente visto como um passo prudente por algumas razões:

– Discernimento cuidadoso: As questões teológicas e históricas que envolvem a ordenação de mulheres como diáconos são complexas. Uma comissão de estudo permite que a Igreja reúna a opinião de especialistas, teólogos, historiadores e agentes pastorais. Isto assegura que qualquer decisão seja tomada com base numa compreensão profunda tanto da tradição como das necessidades contemporâneas.

– Inclusão de vozes: As comissões de estudo incluem frequentemente diversas vozes, incluindo homens e mulheres, leigos e clérigos. Esta inclusão é valiosa porque traz perspectivas de diferentes partes da Igreja e reflecte o desejo do Papa Francisco de uma abordagem mais sinodal à tomada de decisões.

– Uma abordagem passo-a-passo: Uma comissão de estudo permite à Igreja abordar a questão de forma gradual, considerando cuidadosamente as implicações históricas, doutrinais e pastorais antes de efetuar quaisquer alterações definitivas. Para aqueles que são cautelosos quanto à alteração das práticas da Igreja, este método oferece a garantia de que as decisões não serão apressadas.

– Consideração global: A Igreja é global, e a questão das mulheres diáconos pode ter um eco diferente em vários contextos culturais. Uma comissão de estudo pode considerar as implicações para a Igreja universal e, ao mesmo tempo, ser sensível às realidades locais.

Será a solução correta?

Muitos argumentariam que remeter a questão das mulheres diáconos para uma comissão de estudo é uma forma equilibrada de explorar um assunto sensível. Permite um processo de discernimento, diálogo aberto e consulta com vários especialistas, todos eles essenciais para uma decisão que pode ter implicações significativas na estrutura e missão da Igreja.

 

Rosemery Castañeda: Falta mais maturidade no processo

Colômbia; professora na Pontifícia Universidade Bolivariana de Medellín; directora do Instituto de Teologia para Agentes de Pastoral e da Escola de Pastoral Bíblica, no Panamá.

São muitas as vozes que o expressam e ultimamente é de destacar algumas conferências episcopais (embora poucas); mas já são pequenos avanços e embora se tenham feito comissões para continuar o estudo, ainda falta mais maturidade no processo…

 

Samuela M. Rigon: Não é uma questão central

Itália; superiora geral das Franciscanas da Mãe Dolorosa;  psicóloga clínica; membro da presidência da União Italiana de Superiores Maiores.

 

Honestamente, devo dizer que, a nível pessoal, não é uma questão central: quero viver a minha vocação e missão como mulher e consagrada, e nunca alimentei tal desejo. Certamente, considerando a atenção e também os debates acesos em torno desta questão, pode ser positivo que uma comissão de estudo aborde a questão do diaconado do ponto de vista doutrinal, histórico, litúrgico e antropológico.

 

Shizue Hirota: Tratar com a participação de todos

Japão; religiosa; convidada especial no Sínodo; especialista em literatura anglo-americana.

 

Sim. Se a Igreja é sinodal, esta importante questão deve ser tratada de forma sinodal, ou seja, com a participação de todos.

 

Solange Nirina: As mulheres já exercem a diaconia

Madagáscar; religiosa das Irmãs Paulinas, ou Filhas de São Paulo; formação em filosofia e teologia.

 

Diaconisas em que sentido? Se “diaconia” se refere às obras de caridade, ao “serviço do amor ao próximo exercido de forma comunitária e ordenada”, segundo o Papa Bento XVI, não vejo que seja errado ordenar mulheres diáconas, tal como ordenamos homens como diáconos permanentes. De facto, as mulheres consagradas exercem a diaconia através dos seus respectivos carismas, mas também há mulheres – mães, jovens, viúvas, etc. – que se dedicam à diaconia na nossa Igreja. Só que não somos “ordenadas diáconas”!

Quanto a remeter esta questão para uma comissão. Há muitas maneiras diferentes de lidar com uma situação, por isso, se o organizador achar que a questão será tratada numa comissão, não vejo nada de mal nisso. Suponho que a comissão não decide, por isso veremos o que propõe à reunião.

 

Sônia Gomes de Oliveira: Sim, é urgente

Brasil, assistente social a trabalhar em projectos de apoio a populações desfavorecidas; presidente do Conselho Nacional do Laicato.

Sônia Gomes de Oliveira, presidente do Conselho Nacional do Laicato, do Brasil, a segurar no cartaz, do lado direito. Foto: Direitos reservados

Sim, é urgente; porém não é uma ordenação somente para dizer que estão ordenando mulheres; creio que diante dos modelos eclesiológicos que vivenciamos, é preciso redescobrir a eclesiologia da ministerialidade, do diaconado; é preciso que aconteça em nossas comunidades a redescoberta e a valorização destas que já estão e fazem a vida eclesial acontecer; é preciso protagonizar em cargos de decisão, é preciso curar muitas feridas que ainda estão abertas por conta de tantas questões colocadas e vivenciadas por mulheres na Igreja; daí acredito que o diaconado é necessário.

 

Valérie Duval-Poujol: Não há um baptismo cor-de-rosa e um batismo azul

França; teóloga baptista; especialista em história das religiões; vice-presidente da comissão para a doutrina da Aliança Baptista Mundial; delegada fraterna no Sínodo

 

O encaminhamento para uma comissão tem por objetivo ajudar o sínodo a concentrar-se no seu tema: a sinodalidade! E quando tivermos revisitado a governação, a forma como caminhamos juntos, a forma como “sinodalizamos” como povo de baptizados, a Igreja poderá abordar estas e outras questões: não só as mulheres, mas também a crise dos abusos.

Há continentes, como a África, onde o diaconado não existe da mesma forma que na Europa; por isso, de que serve abri-lo às mulheres se ele não existe? Antes de mais, temos de redefinir o que é este ministério… E encontrar uma forma de dar mais espaço aos dons que Deus deu às mulheres para edificar a sua Igreja e servir este mundo. À imagem das mulheres do Novo Testamento que exerceram responsabilidades (Júnia, Febe, Priscila…), como partilhei na minha intervenção no Sínodo de Praga (sínodo preparatório a nível europeu), na Bíblia não há um baptismo cor-de-rosa e um batismo azul, um para as raparigas, um para os rapazes; há apenas um baptismo e é o conjunto dos baptizados que pode exercer a missão. Há um só baptismo e são todos os baptizados que podem exercer a missão a que o Senhor nos chama: ser testemunhas do seu amor por este mundo.

Se retomarmos a imagem do apóstolo Paulo aos Coríntios de que a Igreja é um corpo, podemos dizer que é um corpo paralisado, uma vez que os dons das mulheres não foram utilizados em todo o seu potencial durante séculos… Assim, este sínodo é como se um corpo paralisado tivesse mexido um dedo mindinho! Não podemos deixar de nos regozijar, mas é apenas o começo… Karl Rahner disse sobre o Concílio Vaticano II que era apenas o começo de um começo… Isso é certamente verdade para este sínodo! E estou ansiosa por ver o que vai acontecer a seguir…

 

Xiskya Lucia: Muito útil para lugares com falta de padres

Nicarágua; religiosa.

 

Parece-me bem a decisão do Papa de criar esta comissão para estudar a possibilidade de um diaconado feminino permanente. Seria muito útil em muitos lugares onde há falta de padres e onde as mulheres estão a tomar conta das paróquias e das celebrações litúrgicas. Devido à decisão do Papa João Paulo II, não vejo atualmente como viável o diaconado da ordem sacerdotal, mas sim o diaconado permanente feminino.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.