
Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade. Roma, 6 de outubro de 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS
O dossiê das mulheres na Igreja Católica e no Sínodo que decorre em Roma, que começou por ser um dos assuntos mais realçados na fase inicial de auscultação dos cristãos, tem vindo a complicar-se por manifesta responsabilidade do Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF). O modo como o prefeito, o cardeal Victor Manuel Fernández, tratou os membros do Sínodo, na última sexta-feira, foi recebido com indignação por outros cardeais, bispos, padres, religiosas e leigos.
Na sequência de uma decisão tomada no início do mês, a tarde da sexta, dia 18, foi destinada a um encontro dos delegados sinodais com os responsáveis dos dez grupos de estudo aprofundado de temas mais complexos e polémicos, criados pelo Papa. Isto porque, a apresentação que cada um dos grupos fez logo no primeiro dia dos trabalhos da segunda sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade deixou dúvidas e inquietações (cf 7MARGENS), em particular o grupo n.º 5, atribuído ao DDF, que tem a seu cargo a questão dos ministérios, incluindo o acesso de mulheres ao diaconato.
Dado que havia perto de uma centena de membros sinodais que se inscreveram para reunir com os responsáveis sobre o grupo 5, foi necessário recorrer à sala que servia para os sínodos dos bispos até ao Sínodo sobre a Amazónia. Ali chegados, não apenas o cardeal Victor Fernandez não estava presente (ele teria anunciado que não poderia estar) como não enviou ninguém do grupo mandatado para dar explicações ou esclarecimentos. Em vez disso, apareceram dois funcionários do Dicastério, a informar de um email para o qual quem pretendesse poderia enviar contributos. Segundo fontes de sinodais presentes, este modo de proceder do cardeal, enviando duas pessoas não qualificadas para dar respostas e que nem sequer eram membros do grupo de estudo, causou indignação e foi visto como uma afronta à dignidade do Sínodo. Publicações católicas que têm repórteres a cobrir o dia a dia do Sínodo falam em “ultraje”, “vergonha” e “desastre” para o Sínodo. Outros citam participantes a dar conta de sentimento de “frustração” e “consternação”.
Alguns membros sinodais entenderam que deveriam prosseguir com a reunião, disponibilizando-se os funcionários do Dicastério para tomar apontamentos e fazê-los chegar aos superiores.
Informado do clima de mal-estar que se gerou, o cardeal prefeito emitiu um comunicado ao fim do dia de sexta, no qual dizia ter havido “um mal-entendido”. A ausência, referia ele, “não se deveu a nenhuma falta de vontade”, mas à sua “incapacidade objetiva de comparecer no dia e hora agendados”. Na nota, dava conta de que estaria disponível para se reunir com os delegados do sínodo numa outra data.
Estes factos, agravados pelo secretismo que tem caraterizado este grupo em particular — é o único do qual não se conhece a constituição e sobre o qual não foi dito nada de substancial a não ser que entende não ser o tempo oportuno para se pronunciar sobre o diaconado feminino — colocam em questão uma garantia dada pelo Papa Francisco, de que os grupos de estudo trabalhariam em estilo sinodal e em articulação com o Sínodo.
Por outro lado, o problema surge precisamente de um Dicastério que carrega consigo um historial que é tudo menos sinodal, apesar das intenções e orientações dadas pelo Pontífice, quando nomeou o cardeal Victor Manuel Fernández para o cargo de prefeito.
Entretanto, o Papa recebeu neste sábado de manhã, em reuniões separadas, os responsáveis máximos do Sínodo, as mulheres que são membros do Sínodo e os leigos. De acordo com informações recolhidas pelo 7MARGENS, a reunião com as mulheres decorreu em ambiente descontraído, mas não conseguimos saber se o que se passou no dia anterior veio à baila na reunião.
Os trabalhos sinodais prosseguem esta segunda-feira com uma celebração eucarística, seguida da apresentação do primeiro esboço de um documento final. Esse documento ocupará os participantes nos dias 22 e 23, em pequenos grupos e em congregação geral. Na quinta e na sexta, a equipa de relatores procurará reformular o texto, tendo em conta as observações e propostas feitas, de modo a que no sábado, 26, seja feita a apresentação da versão final pela manhã e a votação, ponto a ponto, de tarde. O Sínodo encerrará esta etapa no domingo, com uma celebração presidida pelo Papa Francisco.










