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Foto retirada do trailer oficial da série "Adolescence".

Os adultos de Adolescence

| 01/07/2025

 

Há uns meses, Adolescence deixou as pessoas sensíveis em sobressalto. Aquele sobressalto “tapa na cara” que chega num rotineiro olhar ao espelho numa manhã de quinta-feira, e em que as olheiras, a pele mortiça, e o cabelo quebradiço confirmam os estragos inevitáveis de tempo a mais no carreiro da negação.

Espelho, não. Sala de espelhos. Talvez seja isso que a série seja. Uma sala de espelhos muito desconfortável.

Queremos que aquele miúdo seja um irredimível sociopata, deformado pela ideologia machista que engoliu na Internet. Dormimos todos melhor quando só as aberrações cometem crimes, e quando negamos que o homicídio é o crime mais fácil de cometer de todo o Código Penal. Há muitos sinais de alerta – a manipulação, a raiva acumulada, a confusão -, mas também há um miúdo com jeito para o desenho e o cérebro feito em puré, completamente aos papéis e desesperado por qualquer coisa. Mas não será ainda um sociopata.

Queremos aferir o comportamento de um miúdo de 13 anos pelos padrões de racionalidade, regulação emocional, controlo de impulsos, e formação de vontade próprios de um adulto maduro. Absurdo, não surpreendente. Afinal, terá sido assim que a maioria dos adultos de hoje foi educada, para se controlar e reprimir emoções como um suposto adulto. Será por isso que boa parte de nós continua a ser uma criança assustada de 8 anos. Corpo e cabeça de adulto, mas emocionalmente tão aos papéis como o Jamie. E isso talvez explique o estado do mundo mais do que o que gostamos de admitir. Well done, post modern adulthood (só que não).

Queremos explicações e culpas a todo o custo, preferencialmente bem centrífugas. Entram então em cena as maléficas redes sociais. São inescapáveis, vieram para ficar, todos usam, blá, blá, blá…  E o que será da coesão social quando deixarmos de fazer exactamente o mesmo que todos os outros parecem estar a fazer, porque achamos que é isso que esperam que façamos, e estivermos dispostos arcar com a responsabilidade de fazer o que nos serve e nos é ajustado? Hipótese: será muito mais saudável.

Queremos muito mais, queremos mesmo com muita força que aquela família seja um concentrado de horrores da working class britânica, disfuncional, violenta à moda antiga, um vespeiro de machismo clássico e piadas porcas, a tresandar a álcool, drogas, pornografia, e pais desestruturados e mal-amanhados a fazer dos filhos armas de arremesso dos seus vícios. Eu assumo que os quis broncos, labregos, a roçar o inimputável. Uma mistura explosiva de Shameless com Peaky Blinders.  Sorry to disappoint you, mate.

“Infelizmente, é isso que os adultos de Adolescence são, incompetentes emocionais.” Foto retirada de vídeo da Série.  © Netflix

Não são. São normais. A família do lado. Boas pessoas a viver a sua vida. Não particularmente iluminada, mas funcional, que é tudo o que se quer neste quarto de século do século XXI: o funcional conforma-se, consome e não chateia, louvada seja Maria Santíssima, e ocupa, sem história, o seu lugar na curva de Gauss. Até matar a Katie, Jamie era funcional. Normal.

E a tragédia da Adolescence é essa: a normalidade. Uma normalidade doente, que mata, e na qual parecemos viciados, de tão incapazes que somos de a confrontar, muito menos de sair dela.

Tudo ali é plausível. Aquele dia-a-dia, aquela escola desastrosa, onde os adultos parecem seguir um guião e umas fórmulas, mas nenhum parece saber o que anda ali a fazer. E não conseguem enganar os alunos, que os olham com um desprezo tão mais profundo do que o clássico conflito de gerações. Os miúdos não reconhecem aos adultos credibilidade ou autoridade para cuidar seja do que for, e passam-lhes um gigantesco atestado de incompetência emocional. Plenamente justificado, aliás.

Infelizmente, é isso que os adultos de Adolescence são, incompetentes emocionais. É irrelevante se por escolha, se por falta de confiança, ou por incapacidade para fazer diferente, porque o resultado é invariável: apatia, desorientação e uma capacidade bastante limitada de ler a realidade e de agir sobre ela. Quando alguém escrever o Evangelho dos nossos tempos, poderá bem começar assim: “Naqueles dias, valia tudo menos olhar para a realidade.”

Voltando à família, percebe-se mesmo que muito do que correu mal se explica pela falta de ferramentas para fazer diferente, e para reverter o deserto afectivo que terá sido a infância daqueles pais. Aliás, as cenas em que tentam pôr em prática o que vão aprendendo na terapia são dilacerantes e comoventes por isso mesmo. Não basta querer fazer diferente, é preciso ser capaz. E no meio do inferno, porque aqueles quatro, de alguma forma, também morreram, vão tentando aprender.

No fundo, a origem da tragédia é só uma: todos aqueles adultos não passam, também eles, de adolescentes. Sim, faço parte daquela geração, pelo que estou hiper-legitimada para nos dar a sacudidela. Acabar com os smartphones alivia – e sim, andam a estupidificar-nos, e era acabar com essa porcaria, já – mas não resolve.

Estarmos dispostos a arriscar ser adultos a sério, com toda a dor que isso traz, talvez. O Jamie e a Katie agradecem.

 

Marta Saraiva é diplomata.

 

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