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Leão XIV durante a entrevista com a jornalista do Crux, Elise Ann Allen, a 30 de julho de 2025. Foto Crux
Leão XIV durante a entrevista com a jornalista do Crux, Elise Ann Allen, a 30 de julho de 2025. Foto © Crux

Biografia chega em janeiro

Ucrânia, sinodalidade, polarização e mundial de futebol: o que disse o Papa na sua primeira entrevista

| 15/09/2025

Acabam de ser revelados os primeiros trechos da entrevista que Leão XIV deu à jornalista do Crux, Elise Ann Allen, autora de uma biografia que será lançada em espanhol no próximo dia 18 de setembro, e cuja edição em inglês e português está prevista para o início de 2026. Nela, o Papa conta como é sentir-se norte-americano e peruano ao mesmo tempo (e revela por quem torceria num mundial de futebol…), fala sobre as negociações de paz na Ucrânia, sobre a sua visão da sinodalidade e a polarização que divide o mundo.

Reconhecendo que “o papel de papa é certamente novo” para si e que ainda tem “uma enorme curva de aprendizagem pela frente”, Leão XIV partilhou que, neste início de pontificado, o mais fácil foi “a parte pastoral”, e o mais desafiante o papel no “mundo diplomático”. O Papa falou em particular sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, explicando que “a Santa Sé, desde o início da guerra, tem feito grandes esforços para manter uma posição que, por mais difícil que seja, não seja de um lado ou de outro, mas verdadeiramente neutra”. E defendeu que “vários atores precisam de pressionar com força suficiente para que as partes em guerra digam: chega, e vamos procurar outra maneira de resolver nossas diferenças”.

Leão XIV partilhou ainda que acredita que “o modo de construir pontes é principalmente através do diálogo” e que uma das coisas que conseguiu fazer nestes primeiros meses “foi ter pelo menos algum tipo de diálogo”, nomeadamente com vários líderes mundiais. “Em teoria, as Nações Unidas deveriam ser o local onde muitas dessas questões são tratadas. Infelizmente, parece ser amplamente reconhecido que as Nações Unidas, pelo menos neste momento, perderam a sua capacidade de unir as pessoas em questões multilaterais”, lamentou.

Preocupado com a crescente polarização no mundo, Leão XIV considera que a origem pode estar na perda do sentido do “valor da vida humana, da família e da sociedade”, bem como na “crescente diferença entre os níveis de rendimento da classe trabalhadora e o dinheiro que os mais ricos recebem”. Mas “precisamos de continuar a lembrar-nos do potencial que a humanidade tem para superar a violência e o ódio que nos dividem cada vez mais”, pois essa polarização “não está a ajudar ninguém. Ou, se está a ajudar alguém, são pouquíssimos, enquanto todos os outros estão sofrer. Portanto, continuar a levantar essas questões, acredito, é importante”, defendeu.

E a sinodalidade pode ser “uma espécie de antídoto” para essa polarização, ou pelo menos “uma forma de abordar alguns dos maiores desafios que enfrentamos no mundo de hoje”, assinalou. “Acredito que a sinodalidade é uma maneira de descrever como podemos unir-nos, ser uma comunidade e buscar a comunhão como Igreja, de modo que seja uma Igreja cujo foco principal não esteja numa hierarquia institucional, mas sim num senso de ‘nós juntos’, ‘a nossa Igreja’. Cada pessoa com a sua própria vocação: padres, leigos, bispos, missionários, famílias. Cada um com uma vocação específica que lhe foi dada tem um papel a desempenhar e algo a contribuir, e juntos buscamos o caminho para crescer e caminhar juntos como Igreja”, esclareceu.

Não se trata, portanto, de “tentar transformar a Igreja em algum tipo de governo democrático, o que, se olharmos para muitos países ao redor do mundo hoje, não é necessariamente uma solução perfeita para tudo”, explicou ainda. “Mas de respeitar, entender a vida da Igreja como ela é e dizer: ‘Temos que fazer isto juntos’. Acho que isso oferece uma grande oportunidade para a Igreja e uma oportunidade para a Igreja se envolver com o resto do mundo. Desde a época do Concílio Vaticano II, acho que isso tem sido significativo, e ainda há muito a ser feito”, disse Leão XIV.

Confrontado com o facto de ser “duas coisas ao mesmo tempo” – o primeiro Papa dos Estados Unidos e o segundo com a perspetiva da América Latina – e questionado sobre com qual delas se identifica mais, Leão XIV não conseguiu escolher. “Acho que a resposta é ambos. Sou obviamente americano e sinto muito que sou americano, mas também amo muito o Peru, o povo peruano, isso faz parte de quem eu sou”.

Mas recordando que metade da sua vida ministerial foi passada no Peru, o Papa considera que isso transparece no apreço que tem pela vida da Igreja na América Latina, e que isso foi “significativo” tanto na “conexão com o Papa Francisco”, quanto na “compreensão de parte da visão que o Papa Francisco tinha para a Igreja, e como podemos continuar a levar isso adiante em termos de uma verdadeira visão profética para a Igreja hoje e amanhã”.

E, na eventualidade de os Estados Unidos da América defrontarem o Peru num mundial de futebol, Leão XIV não tem grandes dúvidas. “Provavelmente torceria pelo Peru, e só por causa dos laços afetivos. Mas salvaguardou: “Também sou um grande fã da Itália… As pessoas sabem que sou adepto do White Sox [clube de beisebol de Chicago], mas como papa, sou adepto de todas as equipas”. Até porque, partilhou ainda, a sua mãe era adepta do clube rival, o Cubs. “Então [em casa] não podíamos ser um daqueles adeptos que se isolam do outro lado. Aprendemos, mesmo no desporto, a ter uma postura aberta, dialógica, amigável e não competitiva e raivosa em coisas assim, porque talvez não tivéssemos jantar se assim fosse”, concluiu, com bom humor.

Os trechos da entrevista podem ser lidos na edição de domingo, 14 de setembro, do jornal Crux.

 

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