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"Este é um objeto inclassificável e muito bonito, uma verdadeira obra de arte." Capa do livro.

Novela gráfica de Richard McGuire

“Aqui”: arte e literatura numa obra maior

| 29/09/2025

 

Este é um objeto inclassificável e muito bonito, uma verdadeira obra de arte. Para começo de conversa, é o que conta. Falamos de um livro, que já tem mais de dez anos (foi publicado em 2014), mas só ficou disponível em português no último ano. E em boa hora.

Aqui, como se chama esta novela gráfica, é o registo de um quotidiano que passa pelos nossos olhos ao longo de 304 páginas e milhões de anos – sim, milhões de anos. Este é o ponto de partida criativamente notável da obra de Richard McGuire.

Num traço seguro e clássico, o autor retrata o mesmo espaço ao longo dos tempos, seja 1962, seja 110.000 AC, seja 1990, seja 1609, seja no futuro… e por aí fora, em saltos temporais aleatórios, sempre desconcertantes, que nos levam por entre gargalhadas, silêncios, dramas e afetos, pela doença ou pelas brincadeiras, pelo amor e pela morte, pela infância e pela velhice.

“Num traço seguro e clássico, o autor retrata o mesmo espaço ao longo dos tempos”. Imagem do livro.

O espaço é o interior de uma casa, nomeadamente o canto de uma sala de uma casa, mas essa sala antes de ser sala foi uma floresta, um lago, um jardim, e só depois a casa, que foi mudando de cor e decoração, umas vezes com um escadote ou um berço, outras vezes um sofá-cama, outras um espaço para brincar ou namorar. O canto da sala é protagonista e testemunha, vista e vivida por árvores e plantas, crianças, adultos, mais jovens, menos jovens, velhos, animais, uma lareira ou o pinheiro de Natal.

É praticamente impossível traduzir o que nos oferece Aqui em cada página, e muitas vezes numa mesma página abrem-se várias janelas, que registam anos distintos, da pré-história ou do século XX. É esta narrativa visual, com diálogos curtos, quando os há, que abre todas as possibilidades para a forma como o leitor e a leitora constroem a história.

Richard McGuire recebeu os maiores elogios com esta novela gráfica, revolucionando a linguagem deste género, que também tem cada vez mais edições em Portugal e leitores. McGuire, que já teve ilustrações publicadas no The New York Times, Le Monde, Libération, fez de Aqui “um trabalho de literatura e arte diferente de qualquer outro visto ou lido antes”, como descreveu o jornal britânico The Guardian. Foi o melhor livro do ano, no festival de BD de Angoulême, ou da década, para a revista Les Inrocks, e o El País não deixou a coisa por menos: “Um dos 100 melhores livros do século XXI.” Não é excessivo: Richard McGuire fez uma obra de arte e de literatura tão intemporal como o tempo percorrido nas pranchas de Aqui.

“Richard McGuire fez uma obra de arte e de literatura tão intemporal como o tempo percorrido nas pranchas de Aqui.” Imagem do livro.

Título: Aqui
Autor:
Richard McGuire

Tradução: Raul Henriques.
Editora: Cavalo de Ferro, 2024
              304 páginas, 35,45€.

 

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